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Sete motivos :: Tony Wilson

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Regente da cena de Manchester morre aos 57 anos e deixa um grande legado que vai fazê-lo lembrar-se sempre dele.

Sete motivos

O último 10 de agosto foi de luto para os amantes da cultura pop, sobretudo os influenciados pelas tendências importadas das terras da rainha nos anos 80. Vítima de câncer, Tony Wilson, o regente da cena de Manchester, morreu aos 57 anos. Misto de jornalista inventivo e empresário audacioso do ramo da música, esteve diretamente envolvido com a maioria dos verbetes da enciclopédia do britpop: Joy Divsion/New Order, Factory e Haçienda são os exemplos mais salientes. Afastado dos holofotes há alguns anos (a última menção mais significativa a seu nome foi o filme A Festa Nunca Termina) Tony Wilson “sai da vida para entrar na história”. Deixou um riquíssimo legado e, pelo menos, sete motivos para lembrá-lo com carinho e respeito. Tanara de Araújo fala deles.

Tony Wilson: Manchester rock mogul.

Jornalista versátil
Antes, durante e depois de abraçar a indústria musical, Tony Wilson teve uma intensa e diversificada carreira jornalística em Manchester. Aos 23 anos, apresentava So it Goes, atração voltada à música e a eventos culturais. Numa linha mais convencional, também foi um dos âncoras do Granada Reports, noticiário noturno da região. Depois de um período à frente do The Other Side Of Midnight, outro programa de generalidades culturais, partiu para experimentos mais ousados na TV, abrindo espaço no pouco explorado horário da madrugada. Um dos destaques foi o After Dark, onde os mais variados assuntos eram debatidos pelas mais variadas celebridades e intelectuais nos mais variados estágios alcoólicos, tudo em num estúdio pouquíssimo iluminado. Nos anos 90, esteve ligado a programas mais despojados, como o Remote Control, da MTV Europa, e o Masterfan for MUTV, espécie de quiz sobre outra de suas paixões, o clube de futebol Manchester United. Ainda no ano passado, apresentava um programa de cunho político na BBC, além de atuar nas rádios Xfm Manchester e BBC Radio Manchester.

Sex Pistols
Tony Wilson fez parte da seleta platéia de apenas 42 pessoas que assistiram aos Sex Pistols no Lesser Free Trade Hall, no mês de junho de 1976. Incendiária, a primeira performance da lendária banda em Manchester inspirou todos os presentes a reagir de forma criativa. Muitos formaram bandas, como Buzzcocks, Magazine, Fall, Smiths, Joy Division... e Simply Red (?!?!). Ao descrever aquele evento como “nada menos que uma epifania”, Wilson foi particularmente atingido pela combinação de música e anarquia, filosofia e pop, perigo e encantamento. Em seguida, convidou os Pistols para se apresentar na segunda e última temporada do So it Goes, naquela que provavelmente foi a primeira exibição televisiva do então revolucionário e hoje influente punk rock britânico.

Factory
Buscando unir as inspirações surgidas no show dos Pistols com planos de tornar Manchester um lugar bem mais interessante no mapa, Wilson lançou, em 1978, a gravadora Factory. Embora não tenha assinado discos de bandas cultuadas como Smiths ou Stone Roses, era tido como o maior selo da cidade, responsável pelo aquecimento da indústria fonográfica independente da Inglaterra ao longo dos anos 80. Entre seus méritos, estão os clássicos álbuns do Joy Division (Unknow Pleasures e Closer), o compacto de doze polegadas mais vendido em todos os tempos (Blue Monday, do New Order) e os primeiros discos do Happy Mondays. Tal qual sua personalidade, Wilson gerenciou a Factory de modo anárquico e temerário (ele sequer assinava contratos com as bandas) e colocava sempre à frente a liberdade de expressão dos artistas em detrimento do lucro, que nunca foi o forte nas contas do selo. Afundado em dívidas e sem perspectivas a curto prazo, a Factory teve que fechar suas portas em 1991.

Joy Division/New Order
Wilson foi o homem que não só enxergou como também apostou no potencial artístico do Joy Division. Ao bancar o álbum de estréia do grupo pela Factory (Unknow Pleasures, de 1978), acabou revelando o intenso talento de Ian Curtis para escrever e interpretar composições densas, que o elevaria ao patamar de poeta. Com o suicídio do vocalista, em 1980, o empresário foi obrigado a superar a perda de um amigo próximo e de um artista especial, o que não obstruiu seu olhar empreendedor. Logo passou a incentivar com empenho os remanescentes do JD a formar nova banda. Com o baixista Peter Hook e o baterista Stephen Morris mantidos em suas funções, a troca do guitarrista Bernard Sumner para o vocal e a contratação de Gillian Gilbert como nova tecladista, nascia o New Order. Além da formação, a banda também renovou sua sonoridade, antes dark e intimista, para um tecnopop mais oportuno às pistas de dança. Lançaram seis álbuns e inúmeros singles pela Factory, cujas vendas representaram o sustento do selo até o início dos anos 90. Essa intrínseca relação foi resumida por Stephen Morris durante os funerais de Wilson. “O New Order não seria o que é se não fosse por Tony e pela Factory Records”, disse.

Haçienda
Um dos poucos recursos da Factory vinha das vendagens dos discos do Joy Division e do gerenciamento da carreira do New Order. Wilson, porém, não se sentia compelido a usar aquele dinheiro para investimentos pessoais ou grandes incrementos na gravadora. Era preciso “dar um retorno” à comunidade de Manchester, que logo ganhou o Haçienda Club. Lindo e engenhosamente desenhado, era o tipo de lugar que, na época, só poderia ser encontrado em Nova York. Prolongamento cultural e efervescente da Factory, o Haçienda embalou o surgimento do Happy Mondays e foi sede oficial do chamado “verão do amor”, onde o consumo de ecstasy dava seus primeiros e largos passos. Assim como o selo, o clube teve um século à frente de importância cultural à financeira, culpa do envolvimento mais emocional que empresarial que Wilson mantinha com seus negócios. O baixista dos Happy Mondays, Mikey Shine, lembrou esse espírito. “Na época da nossa contratação ele me disse: você pode não ganhar dinheiro, mas garanto que verá o mundo”.

Atitude
Tony Wilson esteve sempre inserido nos acontecimentos culturais de ponta da Inglaterra, fosse pela música (via Factory), pelo comportamento (via Haçienda) ou pela visão crítica (via jornalismo). Entretanto, quando todos os trens passaram, ele não forjou lugares em novos vagões que não tinham a ver com sua linha de pensamento. Manteve-se dignamente à distância de Oasis, Blur, Libertines, Arctic Monkeys e tudo mais que surgiu da cena britânica após início dos anos 90. Além disso, nunca embarcou em revivals caça-níqueis de bandas e tendências que ajudou a criar. Desde o rompimento que tiveram, ele não insistiu em ligar seu nome ao do New Order, assim como não se envolveu com as idas e vindas do Happy Mondays, nem cogitou um retorno do Haçienda na cola do culto aos anos 80.

A Festa Nunca Termina
Todas as informações anteriores e um pouco mais sobre Tony Wilson podem ser conferidas neste filme dirigido por Michael Winterbotton. Interpretado com autenticidade pelo ator Steve Coogan, Wilson colaborou com o projeto, assinando embaixo de histórias saudosas e de capítulos que não despertam exatamente orgulho – incapacidade de relacionamentos pessoais e excessivo consumo drogas, por exemplo. Apesar de ser uma das mais criativas e interessantes cinebiografias realizadas, o filme ainda não foi lançado em DVD no país. Para lembrar Tony Wilson por meio de A Festa Nunca Termina (24 Hour Party People, 2002), a dica é redobrar a atenção à programação das TVs fechadas, onde vez ou outra é costuma ser exibido.


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