Segunda Mar 15

Arquivo

Cachorro Grande

Atenção, abrir em uma nova janela. ImprimirE-mail
Twittar este Artigo
Capa tropicalista, sonoridade revista, novo baixista: o núcleo central da banda conta tudo sobre o novo álbum.

Novos tempos

Priscilla Prade/DivulgaçãoQuarto álbum da carreira, Todos os tempos parece ter sido concebido já com um destino pré-determinado: o de ser um divisor de águas para a Cachorro Grande. De tom mais pessoal e reflexivo, reflete as mudanças e turbulências vividas pelo grupo porto-alegrense em seus últimos anos de estrada e moradia em São Paulo. Cristiano Viteck e Abonico R. Smith conversaram, separadamente, com o núcleo central da banda, a dupla Marcelo Gross e Beto Bruno, que outrora centralizava todas as composições.

Cachorro Grande escreve um novo capítulo em sua carreira.

No início de maio, a banda Cachorro Grande promoveu o lançamento virtual de seu quarto álbum, Todos os Tempos (o CD chegou às lojas somente no início de junho). Em uma iniciativa até então inédita no país (logo depois, os mineiros do Pato Fu fizeram o mesmo com Daqui Pro Futuro entre julho e agosto), o grupo optou por colocar à venda no site da sua gravadora, a Deck Disc, todas as doze novas faixas, que puderam ser baixadas pelos fãs no formato MP3. É obvio que, mesmo com todos os bloqueios para evitar a reprodução ilegal, o disco ficou disponível para qualquer um, e gratuitamente, em qualquer programa de troca de arquivo na Internet e até mesmo, na comunidade oficial do Cachorro Grande no Orkut.

Dilemas tecnológicos da modernidade à parte, o que realmente interessa é que a Cachorro Grande apresentou um novo trabalho depois de correr todo o Brasil com a turnê do álbum anterior Pista Livre. E, logo de cara, percebe-se que Todos os Tempos é um disco que marca uma mudança na trajetória da banda.

Praticamente consolidada como um dos principais nomes da nova safra do rock nacional, a Cachorro Grande, por mais que os músicos queiram negar, tomou, sim, um novo direcionamento musical. As doses generosas de guitarras a mil, que abundavam nos primeiros trabalhos, agora perderam espaço para canções mais "coloridas", como o próprio guitarrista Marcelo Gross define. E muitos fãs acabaram não gostando dessa mudança.

“Eu não consigo entender, porque tem umas músicas ali que são uma guitarreira absurda! ‘Conflitos Existenciais’, ‘O Certo e o Errado’... Tem um instrumental que é muito interessante porque é o Beto quem toca as guitarras e eu toco baixo, que é a faixa ‘Hoje Os Meus Domingos Não São Mais Depressivos’. O disco está mais colorido, mas as guitarreiras estão ali. A Cachorro Grande continua uma pauleira dos infernos do início ao fim!”, argumenta Gross para defender o novo rebento.

Polêmicas à parte, é verdade que as canções ganharam em melodia e experimentalismo. Cresceram em razão dos arranjos mais elaborados e, é claro, abriram um mundo de possibilidades futuras para o grupo que, desse modo, evita virar um clichê de si mesmo – o que é deveras importante para uma banda que os críticos mais ácidos insistem em apontar como um clichê dos grupos ingleses dos anos 60.

Novas energias
Para quem acompanha a carreira desses gaúchos desde quando eles arrepiavam a vizinhança em Porto Alegre, é mais fácil perceber o intenso período de mudanças que a Cachorro Grande viveu nos últimos dois anos e que, obviamente, acabaram por influenciar este novo trabalho. Uma delas foi a saída do baixista Jerônimo Bocudo (em circunstâncias até hoje não muito bem esclarecidas) e a entrada do ex-Efervescentes Rodolfo Krieger.

“O Rodolfo é um cara muito fácil pra lidar. É cheio de vontade, de garra. Deu uma energia nova pra parada. Então, com certeza no estúdio o clima foi mais leve, descontraído, mais tranqüilo em função disso. Ele cantou uma música excelente, ‘Deixa Fudê’, que é composição dele”, elogia Marcelo Gross.

Importante ressaltar ainda a escalada brutal da banda, que foi içada do underground brasileiro e colocada entre os grandes do rock nacional. A conseqüência disso: visibilidade maior = cobranças maiores. Surpreendentemente, a banda parece estar conseguindo lidar até de forma tranqüila com esse rito de passagem e, acima de tudo, assumiu uma postura de coragem ao propor mudanças em sua sonoridade justamente neste momento de consolidação, quando seria bem mais confortável e seguro apostar na fórmula que deu certo nos primeiros discos.

Todos esses fatores devem ser pesados na hora de avaliar o novo álbum da Cachorro Grande. Se for pra comparar, dá pra arriscar dizer que Todos os Tempos vem cumprir o mesmo papel que o Rubber Soul teve na carreira dos Beatles. A partir daquele trabalho, os fab four passaram a expandir cada vez mais o seu universo e você sabe muito bem as maravilhas criadas a partir dali.

Inclusive, segundo o guitarrista, a banda procurou uma sonoridade bem semelhante a de Rubber Soul e Revolver. “Eu busquei usar o mesmo som de guitarra, o mesmo amplificador, a mesma guitarra que os Beatles usaram para gravar esses discos. Coloquei num canal uma Rickenbacker ligada num Fender e no outro canal uma Epiphone ligada num Vox, que era o que eles usavam no estúdio. É uma sonoridade que sempre agradou a gente. Então, não tinha porque não usar no disco já que estavam disponíveis os instrumentos e os equipamentos”, revela Marcelo.

Outra “semelhança” com relação aos trabalhos dos Beatles foi dividir os vocais das canções. Dos cinco músicos, apenas o pianista Pedro Pelotas não emprestou a sua voz. Beto Bruno, Marcelo Gross e Rodolfo Krieger se saíram muito bem. Já os vocais do baterista Gabriel Azambuja na faixa “Nada pra fazer” dividiu opiniões. Gross defende o amigo, dizendo que foi a própria banda quem encorajou ele a cantar. “Ele até ficou com vergonha porque é sempre difícil chegar lá e cantar. Ele não só cantou como tocou todos os instrumentos e fez uma produção maluca. Porra! Nós temos um cara que é supertalentoso. Não tem porque não colocá-lo pra cantar, fazer a parada e dar seu ar de Ringo Starr”.

Sobre a turnê do novo disco, iniciada em junho, junto com o lançamento dom “disco físico”, Marcelo também não esconde o seu entusiasmo: “Assim como no Pista Livre, a gente deu um passinho a mais na carreira e fez mais shows. Com Todos os Tempos, acreditamos que também vamos fazer mais shows, tocar em mais lugares. Vamos fazer os shows com uma estrutura melhor. Neguinho vai pagar o ingresso e vai ver um puta show de rock. E também vamos rearranjar algumas canções antigas. Não vai ser pouca coisa. Vamos trabalhar o show como um espetáculo”.

Palavra do guitarrista!
Cristiano Viteck



***

Sobre o álbum

Enquanto isso, o parceiro e amigo de longa data de Gross, o vocalista Beto Bruno gastava alguns minutos de uma ensolarada tarde rindo e se divertindo ao telefone. No DDD Curitiba-São Paulo, que tinha do outro lado o editor do Bacana (que acompanha a trajetória da banda desde o início de sua projeção na cena Porto Alegre deste início de década), estiveram em pauta algumas curiosidades a respeito da concepção de Todos os Tempos

Capa “tropicalista”
“Foi uma idéia minha. É que eu fico pirando nisso. Tiramos a foto perto do estúdio, em um terreno baldio, numa casa destruída. Juntamos pessoas de todas as idades. Alguns vizinhos, amigos, amigos da fotógrafa e até gente que estava passando na rua, ali naquele momento. Daí a fotógrafa subiu em uma escada e foi tirando as fotos. Primeiro com todo mundo, depois com alguns, até que ficamos só nós” [historinha contada pelas páginas do encarte, aliás]. É que o Pelotas soltou um peidão e assustou todo mundo (gargalhadas)... Mas, realmente, vendo depois, dá para sentir que tem um quê de Peppers e até mesmo Tropicália. Mas, de fato, não havia sido essa intenção inicial.”

Versos reflexivos
“Concordo que ficou um disco porrada, de letras mais pessoais. Reflete as mudanças pelas quais passamos nos últimos anos. Conseguimos nos estabelecer morando em São Paulo e ainda tivemos a entrada super-radical do Rodolfo, ex-Efervescentes, que não é só um baixista, mas também mais um compositor e mais um vocalista da banda. Aliás, neste disco não teme mais aquela cobrança em cima de mim e do Gross de compor todas as músicas. Todos os cinco compuseram algo. Ficou mais verdadeiro, acredito. Também tem o Gabriel cantando ali o que ele sente,o que ele passou.”

Troca de baixista
“Simplesmente não dava mais para continuar com o Jerônimo. Eram problemas pessoais e musicais que estavam afetando a banda, não estávamos mais curtindo, mesmo depois de três discos já gravados. Foi preciso tirá-lo para perceber que ele é e sempre vai ser um ótimo amigo. Vou continuar gostando de beber com ele. Mas amizade é uma coisa e a banda é outra. Se for preciso tirar quem quer que seja para a banda seguir em frente, eu não terei a menor dúvida de fazer isso.”

Sessões de gravação “ao vivo”
“Fizemos quase todo o disco assim, acho que só três faixas no total não foram registradas todas ao vivo dentro do estúdio. Não começamos com essa intenção, mas com a de trabalhar uma música por dia. Acabou sendo um fator decisivo, de não ter aquela sonoridade de timbres prontos. Foi bom, manteve todos acesos em quase todos os dias de gravação. Não foi aquela coisa de gravar todas as baterias, depois todos os baixos e assim por diante. Não tinha aquela coisa homogênea e deixou um astral e um som diferente para cada música.”

Mod?
“Nossos primeiros discos deixaram a impressão da gente ser uma banda fincada na sonoridade dos anos 60, de Beatles e Stones. Mas também, né? A gente só ouvia isso antes de começar a compor (gargalhadas)... Fomos estudar só agora, recentemente, mas, por exemplo, a gente sempre curtiu também o som das bandas de Manchester. O que também traz uma certa ligação com os Beatles. Afinal, eles foram os filhos da psicodelia e nós somos os netos perdidos por aí (risos)... Falando sério agora, que bom que você achou que a sonoridade diversificada de Todos os Tempos vem para acabar com essa coisa do rótulo de ‘banda gaúcha’. Acho que o rock é tão universal para alguém ficar se importando e enquadrando nesta coisa de língua, de sotaque.”

Próximo disco
“A gente grava disco com intervalos menores porque nunca pára de compor. No dia seguinte depois do fim das gravações a gente já acorda, com o violão do lado, e já tem quatro, cinco músicas fortíssimas. Nos shows já vamos experimentar coisas novas. Já teremos um embrião do que será o quinto álbum da Cachorro Grande.”
Abonico R. Smith


Artigos Relacionados:
Artigos Relacionados - Recentes:
Artigos Relacionados - Antigos:

Comentarios (0)Add Comment

Escreva seu Comentario
menor | maior

security code
Escreva os caracteres mostrados


busy

Novos Downloads

Glowing EP (mb 76) Pancadas Esparsas
Glowing EP (mb 76)
Segundo Eles Mesmos (mb 75) Eles Mesmos
Segundo Eles Mesmos (mb 75)
Diamante EP (mb 74) Caio Bosco
Diamante EP (mb 74)
Dentro do Lado de Fora EP (mb 73) Myha
Dentro do Lado de Fora EP (mb 73)
Roendo as Unhas EP (mb 72) Myha
Roendo as Unhas EP (mb 72)

Videos Recentes


Black Rebel Motorcycle...
Beat The Devil's Tattoo

Enquete

Qual show internacional você está mais ansioso(a) para ver no Brasil neste início de 2010?
 

Blogueiros

Publicidade