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Bonde do Rolê

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MC fantasiado de peixe? Difamação da virilidade de agente 007? A história do trio curitibano contada de A a Z.

De A a Z

Juliana Mariano/DivulgaçãoMC fantasiado de peixe? Microfone comprado na Igreja Universal do Reino de Deus? DJ com nome galês? Difamação da virilidade do famoso agente secreto britânico 007? Citação cara-de-pau de suceso romântico de ex-integrante do 14 Bis? Abonico R. Smith desvenda algumas das histórias e curiosidades por trás da ascensão meteórica do trio curitibano Bonde do Rolê e mostra como as letras do alfabeto podem revelar muito dos colegas de selo de Arctic Monkeys e Franz Ferdinand.

Gorky, Pedro e Marina: nada vejo, nada escuto e nada falo.

Arctic Monkeys: Coleguinhas de selo do trio curitibano, assim como o Franz Ferdinand. A ascensão do grupo foi tão meteórica que o primeiro contrato foi assinado logo com uma gravadora britânica, a Domino Records.

Belleatec: Formação de trip hop encabeçada pela carioca Tarcila Broder. Foi uma das primeiras bandas pangeográficas da internet. Sua formação clássica fazia o eixo Curitiba-Rio de Janeiro-Fresno. Seus outros integantes eram Gorky (de Curitiba) e o californiano Corey Cunnigham. Lançou um disco, chamado Tetra Pak

Chernobyl: Também conhecido como Fred Endres, guitarrista do combo gaúcho Comunidade Nin-Jitsu, um dos primeiros ferrenhos defensores da mistura do rock garageiro com as batidas poderosas do funk carioca, temperado pelo molho de letras picantes e bem-humoradas. Também atua como DJ e possui o projeto paralelo 808 Sex. Dirigiu as primeiras faixas do Bonde do Role e co-assina a produção do álbum WIth Lasers, onde fez os riffs de guitarra. Foi ele o culpado por apresentar, via CD-R o som de Pedro, Marina e Gorky ao produtor americano Diplo, que gamou na hora e passou a apadrinhá-los.

Diplo: DJ americano e um dos maiores entusiastas do som dos morros cariocas. Já produziu diversos artistas, entre eles a cantora anglo-cingalesa M.I.A., a quem veio acompanhando dois anos atrás, no Tim Festival. Foi nesta vinda que ele conheceu o Bonde do Rolê. Além de mola propulsora do funk carioca nas pistas mais descoladas de Londres e da Europa, possui um selo (Mad Decent, que lança os discos dos curitibanos no mercado americano) e assina a produção de um documentário, filmado no Rio de Janeiro, sobre o gênero que exportou nomes como Deize Tigrona, DJ Marlboro e Tati Quebra-Barraco. Veio para Curitiba no ano passado, para iniciar as gravações de With Lasers

Espanhola: “Te amo, Espanhola”. Este é o último verso cantado por Pedro D’Eyrot, que assume o papel de Paulinho no hit “Office Boy”. A frase ficou eternizada na música popular brasileira como o refrão do maior sucesso de Flavio Venturini em sua carreira solo, após sair do 14 Bis.

Funk carioca: Gorky e Pedro eram dois dos DJs residentes da Big Mutha Trucker Party, famosa noite alternativa do Retrô, uma das mais famosas casas indies de Curitiba. Acontecia de tudo na pista, um grande "orgia", inclusive guerras de bolinha de papel que tentavam acertar o DJ que estivesse tocando na hora. Sempre às quatro da manhã era o início do duelo de funk carioca. Foi aí, inclusive, que Gorky começou a soltar as primeiras composições do Bonde para os curitibanos dançarem.

Gorky’s Zygotic Mynci: Filho de militar, Rodrigo Antunes nasceu no Rio de Janeiro, morou em outros lugares e estabeleceu-se como DJ em Curitiba, cidade onde está radicado desde a adolescência. Rato de sebo de discos e fuçador de novos sons, recebeu o apelido Gorky em homenagem a esta inusitada e cultuada banda oriunda do País de Gales.

Heto: Designer e artista gráfico curitibano. Foi colega de universidade de Pedro e atualmente é colaborador do Bacana. Fez as capas dos singles e do álbum do Bonde, além de assinar logo e outros projetos visuais ligados ao trio – inclusive um tênis para Converse-All Star.

Impostora: Cello Zero namorava Marina e dividia com Gorky e Pedro o apartamento onde o grupo fez suas primeiras gravações e a base de With Lasers. Montou com duas amigas o Bonde das Impostora, espécie de irmão caçula do Bonde, também baseado na sonoridade do funk carioca. Emplacou o hit do refrão-bordão “Eu Sou Mais Indie Que Você”. O nome foi reduzido depois para Impostora e a atual formação contém apenas o produtor Cello Zero - que não namora mais Marina - e a vocalista Barbarella.

James Bond: Monumento sagrado do cinema e da literatura pop e a maior e mais duradoura franquia de longas-metragens da história. Atualmente é vivo pelo ator britânico Daniel Craig, mas seus intérpretes mais famosos foram Sean Connery e Roger Moore. O detetive que possui licença para matar (daí o codinome 007) é um dos grandes símbolos de macheza e virilidade do século 20. Pega todas as mocinhas em seus filmes, sejam elas coadjuvante ou vilãs. Só que depois do Bonde do Role, já há quem duvide de sua masculinidade. Tudo por causa da música “James Bonde” e versos como “O seu Charlie lá de longe já sacou que tu é gay/ A rainha o demitiu, desistiu do seu serviço quando ela descobriu que seu cílio era postiço/ Arriba, arriba, James Bonde é uma biba/ Tatu, tatu, James Bonde dá o cu/ Hola, hola, James Bonde chupa rola/ Saci, saci, saci, James Bonde travesti”.

Klaxons: Formado em 2005, este trio londrino tornou-se o ponta de lança de uma nova tendência na terra da rainha: a new rave, que mistura batidas dançantes, muitos riffs de guitarra, roupas e acessórios de cores berrantes ou fosforescentes e muitos aditivos químicos nas festas e shows de maiores proporções. Fazem parte desta nova frente musical duas bandas brasileiras, o Bonde do Rolê e o Cansei de Ser Sexy (CSS, para os estrangeiros). Também podem ser incluídos nesta turma Simian Mobile Disco, Datarock, Shitdisco e Hadouken!.

Laura’s Problem: Segunda banda da carreira de Marina. À frente do LP, ela chegou a gravar um disco para um selo holandês. A banda, sem Marina há dois anos, continua na ativa e promete álbum para breve.

Maria Gasolina: É quase o nome de uma das faixas de With Lasers. A expressão diz muito sobre Curitiba. A capital paranaense, há algumas décadas, acha normalíssima a prática do footing. O local (Rua XV, Avenida Batel, Parque Barigui) pode até mudar de tempos em tempos, mas mauricinhos, playboys e meninos que não têm mais nada para fazer nas tardes de domingo saem às ruas com seus carros de mais variados tipos, modelos e incrementos sonoros para conquistar (ou tentar impressionar) jovens do sexo feminino. De uns tempos para cá, elas também vêm assumindo os volantes. O que significa, quase sempre, alguns quilômetros de congestionamento idiota e sem motivos – e dor-de-cabeça para pacatos e incautos motoristas que precisam passar pela região.

Nhanha: Não foi à toa que o papa João Paulo II incluiu Curitiba no roteiro de sua primeira visita ao Brasil, em 1980. Afinal, a cidade de Curitiba é a maior colonização polonesa fora do país onde nasceu Karol Wojtila. E Marina é descendente de poloneses (seu sobrenome é Ribatski), o que torna mais engraçada ainda a performance de uma branquela polaca ensandecida pelo som dos morros cariocas. E “nhanha” é uma gíria bem curitiboca. Pode significar tanto “polaco desconjuntado” como “pessoa caipira”.

Oncinha: O cabelo de Marina pode ser cor-de-rosa e o corte, moderno. Mas com certeza a calça legging com estampa de oncinha é um acessório que a jovem vocalista nunca pensaria em usar em sua época de riot grrrrl, quando cantava em uma banda de meninas chamadaBiscuit Pride.

Peixe: Imagine a situação inusitada: no primeiro dia de aula na faculdade, aparece um aluno fantasiado de peixe. Assim, do nada. Foi isto o que fez Pedro quando começou a cursar Publicidade e Propaganda. Indagado sobre a situação, ele disparou: “Professora, um publicitário não precisa vender o peixe? Eu estou aqui vendendo o meu”.

Quartel-general: Dividir um apartamento tornou a vida mais fácil para a criação e a decolagem do Bonde do Role. Tudo começou porque Gorky, Pedro e Cello Zero (motivo da presença quase constante de Marina) não precisavam nem sair de casa para dar vazão às suas criações. Um quarto, um computador, um único microfone e uma geladeira cheia de bebidas já bastaram para aquele prédio na rua Vicente Machado gerar, nos idos de 2005 uma das bandas mais cultuadas do mundo hoje.

Rolê Lanches: Lanchonete situada no centro de Curitiba, na rua Vicente Machado, nos arredores do prédio onde foi instalado o quartel-general do trio. Embalada a coxinhas e salgadinhos do local, as conversas entre os músicos nunca escapavam de uma trilha sonora especial: a programação da rádio rock da cidade, onde ficava sintonizado o sistema de som do estabelecimento. E como a emissora sempre foi chegada a bandas com guitarras pesadas, Gorky teve a idéia de juntar riffs distorcidos à batida do funk. Por isso, as primeiras composições do Bonde contavam com samples de Alice In Chains, AC/DC, Darkness e Smashing Pumpkins. Para evitar problemas com direitos autorais, porém, essas músicas acabaram excluídas das gravações de With Lasers

Sapatão: Esta é, com certeza, a palavra mais enigmática das letras do Bonde, que, apesar de serem em português, são cantadas em uníssono no exterior . Os gringos, segundo Marina, piram na batatinha e vivem perguntando para os músicos qual é o verdadeiro significado deste big shoe.

Tamborzão: Perguntado qual era o grande segredo por trás do funk carioca quando esteve por dois dias em Curitiba no ano passado, Diplo não titubeou: “o tamborzão”, respondeu rapidamente em português, com sotaque acentuado. E o som do Bonde do Role não poderia deixar esta mágica química percussiva, que faz os europeus enlouquecerem e posarem de tchutchucas e tigrões.

Universal: Em meados de 2005, foi gravada a primeira faixa do Bonde, chamada “Dança da Ventoinha”. O microfone utilizado foi adquirido em uma loja d Igreja Universal do Reino de Deus, que vendia acessórios para música gospel

Vitiligo: Doença caracterizada pela despigmentação da pele, formando manchas acrômicas de bordas bem delimitadas e crescimento centrífugo. Também é possível que haja despigmentação do cabelo. É freqüente em 1% da população e, em 30% dos casos, há ocorrência familiar. O diagnóstico em doentes com patologias oculares é significantemente maior que na população em geral. Eventualmente, o vitiligo surge após traumas ou queimaduras solares. Segundo Michael Jackson, esta seria a causa oficial do embranquecimento de sua pele. Billy Corgan, vocalista do Smashing Pumpkins, usa camisas de mangas compridas para esconder o vitiligo nos braços e mãos. Em “Melô do Vitiligo”, clássico da primeira fase do Bonde do Role, o veredito é enfatizado: “Parece vitiligo, mas é mancha de limão”.

Waters, John: Diretor cult norte-americano, que lançou Johnny Depp, sempre procurou satirizar o way of life da classe média norte-americana do interior. Assinou clássicos trash como Hairspray (cujo remake estréia no Brasil em setembro), Cry Baby, Pink Flamingos e Mamãe é de Morte. Uma de suas atrizes prediletas era o travesti Divine e Waters é gay assumido. Antes de um show em Baltimore, cidade natal do cineasta, Marina estava radiante. “Decidimos comer no restaurante preferido do John Waters. E ele estava lá! Bem bicha-velha mesmo!”, confidenciou ao editor do Bacana horas depois do encontro, pelo messenger.

Xiita: Em recente entrevista Marina declarou – e reconheceu – que era uma xiita do rock e que antes torcia o nariz para outros gêneros musicais. Também, pudera: antes do Bonde, participou de duas bandas que seguiam a linha riot grrrrl. Outro com passado marcado pelo rock é Pedro. Ele já foi vocalista de uma pequena banda de hardcore.

Y: Como a carreira do grupo já é internacional há muito tempo, cabe aqui traçar um paralelo em inglês. Foneticamente semelhante a why (por quê?, em português), a letra Y representa muito bem o sentimento de espanto que muitos ainda se fazem diante do sucesso estrondoso e rápido de Marina, Gorky e Pedro. Alguns acham que a atitude do grupo não é nada rock’n’roll. Outros não conseguem enxergar qualquer qualidade no trabalho do trio. E o DJ Marlboro chegou a invocar com a escalação dos curitibanos no Tim Festival do ano passado, alegando que eles denigrem a imagem do funk carioca. Será que vai chover hoje, hein?!

Zoe:Extinta casa noturna no bairro chique do Batel, em Curitiba, situada em uma esquina da tradicional Avenida Batel e voltada para o público mauricinho – e que curtia pagode e gêneros eletrônicos como trance e house. Foi lá que o Bonde do Rolê realizou seu primeiro e único show oficial em Curitiba, um dia antes do trio partir para São Paulo e fazer decolar da capital paulistana sua carreira nos palcos.

 


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