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Mamonas Assassinas

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Dez anos depois, maior fenômeno do pop nacional dos últimos tempos vive em situação de quase esquecimento.

Fenômeno em baixa

Em menos de um ano, eles decolaram do anonimato completo para a superexposição de mídia, a idolatria da criançada e a vendagem de mais de dois milhões de exemplares do álbum de estréia. Em 1995, só dava Mamonas Assassinas em todo canto do país. Contudo, o acidente aéreo que matou os cinco músicos em seu auge interrompeu precocemente a carreira meteórica. Rodney Brocanelli analisa a situação de quase esquecimento vivida pela banda brasileira mais popular dos últimos tempos.

Mamonas: "quanta gente, quanta alegria".

O Brasil tem a péssima mania de deixar passar em branco certas efemérides da história de sua cultura pop. Uma delas completa seu décimo aniversário em 2005. É a ascensão de uma banda na qual poucos apostavam e o seu conseqüente sucesso popular, causando todo o tipo de reação, do estranhamento inicial chegando até o ódio absoluto. A trajetória do Mamonas Assassinas merece um rápido estudo de caso.

Se alguém quiser definir 1995 para a cultura pop no país pode usar a palavra esquisito. Vale a pena pincelar o panorama geral daquele ano. Em primeiro lugar, vivíamos a ressaca do grunge, processo desencadeado a partir do suicídio de Kurt Cobain, ocorrido no ano anterior. O britpop vivia seu auge na Inglaterra, mas o gênero nunca teve apelo popular por aqui, mesmo com o Oasis tocando em tudo quanto era rádio. O rock brasileiro praticamente inexistia. O triunvirato formado por Titãs-Paralamas-Legião vivia cada qual seus problemas. O samba e a música da Bahia.... Quer dizer, as suas respectivas diluições, intituladas pagode e axé, tomaram de assalto a grande mídia.

Alheios a tudo isso, o Mamonas procurava encontrar seu espaço. Na verdade, a banda se chamava Utopia e tentava a todo custo ganhar as paradas de sucesso. A formação era Bento Hinoto [guitarra], Julio Rasec [teclados] e os irmãos Samuel [baixo] e Sérgio Reoli [bateria]. O vocalista Dinho entrou com o bonde andando. Os cinco participaram de um festival de novos talentos promovido pelo SBT, gravaram um disco com músicas sérias, mas a carreira não deslanchava. Talvez porque o mercado não precisasse de mais uma cópia da Legião Urbana. O grande salto aconteceu quando se percebeu que um repertório usado para consumo interno, com muita tiração de sarro, tinha um resultado muito melhor.

Quem é mais esclarecido conhece o resto da história. Após a mudança de perfil, trocaram de nome, adotando o Mamonas Assassinas. Com uma demo gravada, passaram a bater de porta em porta, até que foram apadrinhados por Rafael Soares. Na época, ele era ainda apenas o filho de João Soares, então diretor da major EMI-Odeon, mas sua participação foi decisiva para que a gravadora os contratasse. Na metade daquele 1995, sairia o primeiro álbum. O fenômeno "mamônico" começou curiosamente numa "rádio rock", a 89 FM, de São Paulo, e foi se espalhando. As letras escrachadas passaram a atingir um outro tipo de público: o infantil. E, se a criançada gostou, seus pais vieram a reboque.

Musicalmente, o Mamonas não trazia nada de novo. Eram bons músicos, mas se limitavam apenas a reproduzir clichês. "Crocodile Rock", de Elton John, foi citada [se é que o termo cabe aqui] em "Pelados Em Santos", só para dar um exemplo. Para o conceito da banda, porém, isso não fazia diferença. A força vinha mesmo das letras esdrúxulas e do sex-appeal do vocalista Dinho.

No início, fez-se uma equivocada associação dos Mamonas com o Língua de Trapo, ícone da "vanguarda paulista" dos anos 80, que transitava na área do humor. O texto do Língua, embora engraçado, tinha um viés politico muito forte. O humor dos Mamonas era mais ingênuo, à Mazzaropi talvez, embora sobrassem algumas farpas contra a sociedade de consumo, como em “Chops Centis” [Quanta gente, quanta alegria/ A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia”] e “1406” [Você não sabe como eu fico chateado/ Ver meu cachorro babando/ Por um carro importado]. Outro ponto de convergência é o fato de ambas as bandas terem um integrante que descendia de japoneses: Bento [guitarrista do Mamonas] e Pituco [vocalista do Língua].

Com o crescente sucesso, o Mamonas passou a ser consumido de forma voraz. Suas músicas tocavam várias vezes por dia nas emissoras de rádio. Os shows em diversos pontos do Brasil viraram rotina. A participação em programas de tevê cada vez mais intensa. Essa história já foi vista antes no showbiz nacional, tendo como protagonista o RPM, na segunda metade dos anos 80. Não por coincidência o CD Mamonas Assassinas (EMI-Odeon) bateu o recorde de vendas da banda de Paulo Ricardo e ultrapassou a marca dos dois milhões de cópias vendidas. Essa superexposição dos Mamonas e a conseqüente presença deles em atrações televisivas populares como os de Gugu e Faustão causou uma rejeição vinda de alguns círculos musicais e jornalísticos. Puro preconceito bobo.

O acidente de avião de 1996 pegou-os bem na hora em que iriam sair de cena para descansar um pouco a imagem. Antes, passariam em Portugal para algumas apresentações. Na volta, depois das férias, trabalhariam na gravação de novas músicas. Não houve tempo. A morte de todos os seus integrantes causou comoção nacional. Todo o bode que havia por parte de uma parcela do público caiu por terra, como é natural em situações desse tipo.

A indústria do disco, claro, tentou faturar em cima. Oportunistas se apressaram a lançar o disco "sério" gravado pela banda. O modo como tentaram "vender" este trabalho no mercado foi profundamente infeliz. Colocaram o nome de A Utopia do Mamonas , sem qualquer tipo de contextualização. Fiasco total. A EMI soltou um outro CD, desta vez com sobras de estúdio e faixas ao vivo, mas o mercado não respondeu a contento.

Nesse meio tempo, em algumas emissoras de rádio AM, integrantes da família do vocalista Dinho discutiam de forma áspera com uma de suas ex-namoradas se ela podia lançar no mercado ou não o material gravado que ela tinha da banda. Era uma disputa para ver quem poderia lucrar mais com a "indústria Mamonas". Porém, essa tal indústria acabou não decolando. Hoje nas ruas é comum ver gente com camisetas de artistas já mortos como Renato Russo, Cássia Eller, Kurt Cobain e Raul Seixas, mas não se encontram camisetas com a estampa dos Mamonas Assasinas. As músicas dos artistas citados tocam sem parar, mas hoje é difícil ouvir "Pelados Em Santos", por exemplo. Só não há o esquecimento total, graças a meia dúzia de gatos pingados.

A culpa nem foi dos Mamonas. O trabalho que eles deixaram tinha qualidades, apesar da rejeição gerada pela superexposição. Mas há um grande risco quando se resolve trilhar pela linha do humor na música. É como a história da piada contada mais de uma vez. Na primeira vez, ela é engraçada. A partir da terceira, apenas sorrisos amarelos são arrancados. Quando se chega a décima-nona vez, ela perde totalmente o efeito. Além disso, o Mamonas não deixou vasto material para ser eternamente lembrado...


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Comentarios (2)Add Comment
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Concordo e descordo
escrito por Kananda , 27 de junho de 2014
Acredito que você tenha se equivocado ao digitar em seu título "ituação de esquecimento" até por que, hoje se você pede para uma criança de 6,8 anos cantar uma música dos mamonas assassinas, elas sabem cantar.Por que ? Por que os pais que vivenciaram aquela época, não se esqueceram da banda e hoje fazem questão de ensinar e mostrá-la a seus filhotes.Em questão de trabalhar novos projetos deles, de lançar novos álbuns, concordo em partes, quando diz que eles ficaram muitos espostos e tudo que é de mais enjoa,porém, sabemos das famosas confusções dos familiares dos ´músicos no quesito liberação de material para lançamento.
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...
escrito por Rodney, 26 de março de 2016
Olá Kananda. Depois de muito tempo, volto a este texto e encontro seu comentário. Espero que você leia algum dia. Mantenho tudo o que está escrito nele, oito anos depois. Diferente de outros artistas que já morreram, como Renato Russo, Cazuza, Cássia Eller ou Raul Seixas, o Mamonas somente é lembrado em efemérides, como agora nos 20 anos do acidente que vitimou seus integrantes. É como se a banda fosse colocada numa prateleira, guardada por lá, e retirada em apenas em ocasiões especiais, o que não acontece com os artistas citados. Com relação às crianças que você cita, nada mais natural que seus pais façam essa ponte. Mas ainda não é suficiente para fazer com que se esbarre por aí com a lembrança deles. É isso.

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