Sábado Jul 31

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M.I.A.

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Discípula de Peaches lapida a libidinagem do funk carioca e globaliza o sucesso do “batidão” dos morros.

Barraco quebrado

Ela nasceu em Londres, foi criada na Índia e no Sri Lanka mas começou a fazer sucesso apadrinhada pela canadense Peaches. M.I.A. agora globaliza toda a libidinagem desenvolvida nos morros do Rio de Janeiro e faz do debochado funk carioca um grande sucesso nas pistas estrangeiras. Rafael Guedes ouviu o álbum de estréia da cantora e alerta para uma nova, tosca e rica definição do “pancadão” verde-e-amarelo, agora unido ao dancehall jamaicano e ao rap de garagem inglês.

O sucesso de M.I.A. significa a globalização do racha-assoalho.

Por esnobismo, o funk carioca amargou um solene e injustificado esquecimento no Brasil. Surgiu na metade final dos anos 80 como uma resposta mais tosca e sexista ao Miami Bass americano mas só por volta de 2003 foi abraçado pela mídia e deu no que deu. Valendo-se de bordoadas libidinosas e muita sacanagem da grossa, o “batidão” foi a mais subestimada trepidação cultural que rachou o território brasileiro. E como tudo que é bom, barato e bacana é exportado sob o silêncio verde-e-amarelo, os gringos já estão surfando a nossa onda.

M.I.A. é um desses nomes. Maya Arulpragasam [o nome verdadeiro do furacão] é filha do terceiro mundo. Nascida em Londres, M.I.A. foi levada ainda criança para viver no Sri Lanka. Na pré-adolescência abraçou Madras, na Índia. Anos depois, já uma linda e exótica morena, voltou ao Sri Lanka e chocou-se com o horror da guerra civil: filha de rebeldes políticos, viu sua família e amigos serem mutilados pela guerra. De volta à Grã-Bretanha, M.I.A. percorreu o clássico aprendizado das vanguardas e entrou em uma faculdade de Arte. Publicou um livro com seus trabalhos e fez contatos. Um deles: a aproximação com o grupo de rock Elastica.

Na liberal Inglaterra, freqüentando os clubes moderninhos, não tardou a andar em más companhias. M.I.A. associou-se a Peaches, a canadense casca-grossa e desbocada apaixonada pelo funk carioca [quem não a viu cantar com Tati Quebra-Barraco no Rio de Janeiro não verá mais...]. Naquela altura, abrindo os shows do Elastica, Peaches presenteou M.I.A. com um trambolho tecnológico que produzia um tosco batidão, híbrido do dancehall jamaicano com o rap de garagem inglês – e também chamado UK garage. Deu certo: M.I.A. bancou um single e conquistou a simpatia do DJ americano Diplo, pesquisador de mão cheia e um assíduo freqüentador dos bailes cariocas.

Arular (XL/Sum), álbum estréia da morena, é fruto dessa colaboração com Diplo e lapida com perfeição o gosto e intimidade de M.I.A. com os sons rufados nas picapes do Terceiro Mundo. Sua música de slogans costura e recicla o que de melhor as capitais mundiais da música underground já exportaram. Seja saracoteando agressiva e sensualmente nos bailes de dancehall da Kingston dos sujos anos 80 [“Galang”] ou quebrando o quadril no pancadão carioca dos 90 [no hino “Bucky Don Gone”], M.I.A. dá ao conceito de “ragga fashioned pancadão carioca” uma tosca, rica e nova definição.


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