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X & Y mantém grandiosidade da banda e reflete os últimos anos de carreira, vida e paternidade do vocalista Chris Martin.

Na mesma

Kevin Westenberg/www.coldplay.comReza a cartilha futebolística que não é bom mexer em um time que está ganhando. Ainda mais se o primeiro tempo acabou em goleada. Depois de conquistar o mundo em 2002 com A Rush Of Blood To The Head, Chris Martin faz do novo álbum um mero reflexo dos últimos anos de vida, paternidade e carreira. Se faltam ousadia e novidades, pelo menos X & Y chega para continuar mantendo o Coldplay em alta com novos hits e turnê. Por Abonico R. Smith.

Coldplay: parto novamente complicado.

O mundo não é um lugar perfeito. Que o diga Chris Martin. Ele é hoje celebridade mundial, marido de atriz famosa, pai zeloso, popstar milionário, uma das raras vozes britânicas e figurar no Top Ten americano ao lançar música nova. Só que gravar um álbum significa uma tortura imensa. A criatividade empaca, as gravações param no meio do caminho, as músicas mudam a todo instante, o repertório só é definido quando não há mais deadline. O sofrimento é tamanho que Martin ameaça transformar a banda em fumaça, faz alarde de que é o último trabalho de sua carreira, diz que seria melhor se se matasse. O redemoinho psicológico afetou até os cofres da gravadora EMI, cujas ações na bolsa caíram sumariamente este ano por causa do atraso de meses no lançamento do terceiro álbum do Coldplay.

Foi assim com X & Y (EMI), que chegou às lojas em campanha mundial no início de junho. Foi assim com o anterior A Rush Of Blood To The Head. A única diferença está nas proporções do Coldplay. O alcance, outrora restrito, passou a desconhecer limites. A promissora banda de antes confirmou-se um belo sinônimo de popularidade – os americanos não haviam sido bombardeados com tamanha durabilidade desde o boom do U2 fase The Joshua Tree. Mas as canções pop perfeitas que galgam as paradas de sucesso e emocionam milhões vêm de parto complicado. Parecem nascer desenganadas pelo seu próprio genitor.

E se o mundo não é um lugar perfeito, definitivamente o Coldplay está longe de ser uma banda normal. Por tanta intensidade – motivo capaz de fazer o vocalista derreter-se em bicas de suor ao cantar uma série de baladas em um show – Martin e seus três companheiros chegaram ao posto de maior banda do mundo da atualidade. Hoje fazem render muitas comparações com o U2 [no que diz respeito ao impacto planetário, idolatria, messianismo sócio-político-econômico de seu líder] e chegaram ao status de poder “roubar” o designer Peter Saville do New Order para fazer todo o [lindo] projeto gráfico de X & Y, cuja capa se baseia em antigos símbolos gráficos cujos quadrados e retângulos coloridos formam a palavra Make Trade Fair – referência à ONG apoiada pela banda desde o seu início, que luta por um comércio mais justo entre as nações diametralmente opostas em suas economias.

Grande por si só e capaz de transformar em hit qualquer single que lance, o Coldplay chega ao terceiro álbum rendendo o esperado. Canções como “Talk” [que sampleia o Kraftwerk], “Fix You” e “Speed Of Sound” são dignas da qualidade de “Clocks”, “The Scientist” e “In My Place”. Refrões doces continuam se misturando a teclados e pianos – embora a presença de guitarras e violões esteja um pouco mais nítida neste álbum. Só que X & Y esbarra em um grande problema: não é nada inovador. Como um time de futebol que garantiu a goleada ainda no primeiro tempo, o grupo joga com habilidade apenas para sustentar o placar sem se cansar muito. Garante a felicidade dos fãs mais antigos, mantém aqueles conquistados mais recentemente e é o suficiente para continuar emplacando sucessos radiofônicos e reverter alguns novos seguidores que “escaparam” ao efeito de A Rush Of Blood....

X & Y é o famoso álbum middle-of-the-road. Fica no meio do caminho de criatividade [sobretudo nas letras, que revelam que Chris Martin já viveu dias melhores como compositor] mas não decepciona. Não “fede” nem “cheira”. Parece ter sido construído por sobras do anterior – o que, pelo ponto de vista emocional e psicológico do vocalista, não deixa de ser verdade [até o nome X & Y, tirado dos cromossomos que definem nossa sexualidade, faz referência à recente experiência de paternidade do músico].

Este é um disco feito na medida para manter banda e fãs ocupados por uns bons dois anos com turnê e hits. Portanto, fica impossível traçar qualquer projeção sobre o futuro do Coldplay até seu próximo álbum de estúdio. Reinventar-se pode significar a salvação da lavoura ou a perda completa da safra. Manda o bom senso de Martin não mexer na receita de time que está goleando.


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