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Acústico MTV Bandas Gaúchas

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Bidê ou Balde, Cachorro Grande, Ultramen e Wander Wildner revelam saídas para fórmula desgastada.

Quarteto fantástico

Em comum só mesmo a origem porto-alegrense. Artistas de estilos e histórias bastante diferenciados juntam-se no projeto Acústico MTV Bandas Gaúchas e provam que criatividade, boa vontade e mente aberta podem garantir não só a sobrevida de uma fórmula desgastada como também abrir caminho para variações que permitem a festa de quem não é medalhão da indústria fonográfica nacional. Tazinha Pínin conta o saldo positivo do CD e DVD que reúnem no mesmo palco Wander Wildner, Cachorro Grande, Ultramen e Bidê ou Balde, que está sendo acusada de "incentivar a pedofilia e a violência sexual".

DVD e CD podem ser retirados das lojas por causa da

É quase palpável a visualização de sobrancelhas erguidas e os rostos retorcidos quando, no início deste ano, começaram os primeiros boatos sobre o novo[?] projeto de acústico da MTV. “Ah, não! Outro?”, foi o pensamento quase unânime da nação. Se é repetitiva, porém de boba a emissora não pode ser acusada. Assim, resolveu dar um olé na previsibilidade ao ousar trocar a escalação do time que estava ganhando por uma seleção incógnita. No lugar de apenas um artista, seriam quatro desta vez. Ao invés de nomes consagrados do rock ou MPB, bandas gaúchas com sucesso restrito ao mainstream local e o underground nacional. Suas alcunhas? Bidê ou Balde, Cachorro Grande, Ultramen e Wander Wildner.

O primeiro quarto do disco – também lançado em DVD pela Sony BMG – é jogado pelo pop despudorado da Bidê ou Balde. Considerando a idéia de aproveitar a oportunidade para mostrar o trabalho ao grande público do país, a Bidê acertou a mão. Se a escolha por músicas mais leves e populares perde certas nuances proporcionadas por um acústico, certamente satisfaz como cartão de visita. E é assim que funcionam as doces “Microondas”, “Bromélias” e “Mesmo que Mude” – as letras lembram os velhos tempos do Kid Abelha; as melodias, os bons tempos do Weezer. Para não frustrar quem espera algumas firulas, entretanto, a banda chamou Roger [Ultraje a Rigor] para engrossar o refrão “Se tu quiser que eu te leve, eu aprendo a dirigir”, o que deu à “Melissa” um novo fôlego para, quem sabe, consolidar-se como hit nacional. Já “E Por Que Não?” teve sua letra alterada, o que acabou por se mostrar um mau negócio [leia abaixo que a releitura da música está sendo acusada de incitar a pedofilia e a violência sexual] e provocar reação que talvez resulte em cartão vermelho em lojas e rádios.

Cinco músicas depois, a meiguice da BoB passa a bola ao rock’n’roll rebelde e nostálgico da Cachorro Grande. O vocal rasgado de Beto Bruno em “Hey Amigo” dá uma breve idéia do que o quinteto é capaz em condições “normais”, quando instrumentos – e até janelas – nem sempre terminam inteiros. No mais, a Cachorro Grande, cuja cotação no banco de apostas do rock brasileiro é atualmente uma das mais altas, optou por dribles mais suaves. Durante a performance em campo, tiveram vez as composições menos agressivas como “Que Loucura” e “Um Dia Perfeito” – esta incluindo uma tímida participação do veterano Paulo Miklos. Em “O Dia de Amanhã”, a semelhança com o time inglês dos capitães Gallagher não é mera coincidência, pois lidam com os mesmos conselheiros técnicos. Já o troféu “Aproveite o Formato Acústico e Mude sua Canção” vai para a gostosa versão jovem-guardista feita para “Sexperienced”.

Desmentindo quem ainda insiste em afirmar que “bandas gaúchas são todas do mesmo clube”, o clima muda mais uma vez com a entrada da Ultramen e seu competente funk-samba-rock. Filhote do que seria uma fusão entre Red Hot Chili Peppers, Jorge Benjor e Tim Maia, o septeto é o que melhor desfruta as jogadas do formato acústico, até porque seu repertório já foi submetido na íntegra a várias apresentações do gênero pelo Rio Grande do Sul. “Preserve” e “Dívida” [com ótimo reforço de Falcão, d’o Rappa] endossam as palavras do ex-VJ e músico Thunderbird sobre a Ultramen ser a banda que melhor consegue fazer letras engajadas sem soar pedante. Desplugadas ou não, “Ultramanos” e “Santo Forte” são irrecusáveis convites para empurrar o banquinho pro lado. “Máquina do Tempo” resume a que veio a turma de Tonho Crocco: “Tudo de bom, tudo de bem/ É o que eu tenho pra você”.

O responsável pelos trinta minutos finais de jogo é o “trovador solitário” Wander Wildner. Verbete obrigatório na história do rock gaúcho [afinal, ele também exerce a tarefa de fundador e vocalista dos lendários Replicantes], Wander é quase Woody Allen. Fala comicamente sobre sentimentos clichês sem, no entanto, parecer engraçadinho. Talento e experiência são comprovados em “Eu Tenho uma Camiseta Escrita Eu Te Amo”, “Mantra das Possibilidades” e “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro”. Em “No Ritmo da Vida”, Wander faz uma bonita homenagem ao produtor e amigo Tom Capone, falecido no ano passado. E, tratando-se de Wander Wildner em campo, nenhum juiz é louco de apitar o fim da partida antes de a torcida ter o prazer de cantar em uníssono a indefectível “Bebendo Vinho”. Aqui, ela volta a vestir o uniforme do seu autor, depois de fazer temporada de sucesso com o Ira!.

Resultado final? Vários gols e algumas revelações. A primeira delas é que pop, rock tradicional, funk, samba-rock e uma pitada folk podem render interessantes e movimentados jogos. Além disso, Acústico MTV Bandas Gaúchas pode não ter a pretensão de marcar mudanças efetivas nas regras oficiais, mas prova que uma mente aberta, bocadinho de criatividade e boa vontade com novos talentos podem aumentar a sobrevida da mais desgastada das táticas. Agora, se o projeto vai ganhar novas caras e os artistas vão alçar vôos significativos, aí não se pode prever. Afinal, o mercado musical no Brasil é uma caixinha de surpresas.



Censurar ninguém se atreve?
Ao decidir mudar sutilmente a letra da música “E Por Que Não?” para o CD/DVD Acústico MTV Bandas Gaúchas, a Bidê ou Balde não poderia prever a polêmica em que estaria se metendo. A simples retirada da palavra “não” antes dos versos “Teu sangue [não] é igual ao meu/ Teu nome [não] fui eu quem deu/ Te conheço desde que nasceu/ E por que não?” irritou entidades voltadas aos direitos da criança, do adolescente e da mulher. A alegação: consideram que a música incita a violência contra meninas, banaliza o incesto e torna normal o desejo sexual de um adulto por uma criança. O “castigo” solicitado é o impedimento de veiculação da música e apreensão do CD.

Para rebater o assunto, a BoB manifestou-se através de um comunicado oficial, no qual afirma que a letra de "E Por Que Não?" é uma obra de arte como outra qualquer. A banda argumenta que “fazer música é uma maneira de se expressar e, nesse caso específico, trata-se de uma crônica de fatos que acontecem nos dias atuais, no país e no mundo”. Segundo os músicos, “hipocrisia é achar que fatos como esses não acontecem”. Segundo o vocalista Carlinhos Carneiro, um dos autores da faixa, afirmou ao jornal gaúcho Zero Hora, “filmes como Assassinos Por Natureza, de Oliver Stone, são obra de arte e nem por isso incitam o genocídio. Na música, é a mesma coisa. As letras são arte”.

Sobre a “pena”, a Bidê ou Balde ressaltou que “solicitações como essas nada mais provam que o pensamento – conseqüência da interpretação pessoal de cada ouvinte – é mais vil do que se costuma achar. Ameaçar apreender CDs e impedir veiculação de música restringem a liberdade de expressão e podem ser classificados como tentativa de censura – um dos maiores temores da imprensa e dos artistas desde os tempos da ditadura”. A BoB finaliza o comunicado frisando que “repudia e recrimina à qualquer tipo de violência contra crianças, adolescentes ou adultos”. E que não quer “voltar a ver artistas enviando letras e músicas para prévia aprovação governamental”.

Por sua vez, a gravadora disse que acatará qualquer decisão judicial e que”o problema é do compositor da obra e sua banda”.


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