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Vange Leonel
Escrito por Abonico Sex, 25 de Abril de 2008 18:30
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Verdades versus tabu
Nos anos 80, ela foi líder do Nau, um dos nomes mais interessantes do cenário underground de então. Quando o grupo já havia sido extinto, como tantos outros da produtiva capital paulista daquela época, seu nome passou a figurar nas rádios depois que “Noite Preta” virou tema de novela na Rede Globo. Depois disso, Vange Leonel chegou a lançar dois álbuns solo mas já há algum tempo, trocou a música pela literatura. Com uma coluna quinzenal na Folha de São Paulo, ela vem tocando em um tema que ainda hoje, muitas vezes soa como tabu para meninos e meninas em busca de suas verdades, a homossexualidade. Vange fala um pouco sobre tudo isso, em entrevista para o Bacana. Por Tatiana Tavares.
Vange: "por que não classificam meus livros como literatura brasileira?"
Como você vê o Nau hoje? Nunca te passou pela cabeça reeditá-lo, aproveitar este revival oitentista interminável?
Eu adoraria que o disco do Nau fosse reeditado, mas, infelizmente, não depende de mim. Ele pertence à gravadora que o lançou (CBS na época; hoje Sony) e somente ela poderia reeditá-lo. Não sei porque não o fazem, já que relançaram outras de suas bandas da época, como o Metrô.
O que acha desse culto que existe em relação aos anos 80?
Acho normal que, depois de certo tempo, as pessoas cultuem as décadas passadas. Nos anos 60 houve um culto aos anos 20, os 90 culturaram os 60 e assim por diante. É uma maneira de preservar a memória. A moda (música, roupas, comportamento) sempre se faz por meio de referências e, muitas vezes, essas referências pertencem a um período específico.
Você chegou a lançar dois discos solo depois do fim da banda, ter música em novela... Desistiu da música por quê?
Eu não sou uma cantora que gosta de fazer muitos shows. Isso acabou inviabilizando a minha carreira em música, pois só sobrevive em música quem faz shows. São os shows que puxam as vendagens. Por temperamento, combino mais com uma atividade mais reclusa, onde eu possa estabelecer uma rotina. Gosto do palco, mas tudo o que cerca a preparação de um show (as viagens, o avião, o ônibus, os hotéis, a espera, a exposição em tempo real e a loucura da vida na estrada) me dá agonia, por isso deixei de excursionar com os shows. Além disso, sempre escrevi. E chegou o memento em que resolvi que teria que investir plenamente na área literária.
Como foi que começou a escrever e percebeu que a literatura tinha mais força do que a música pra você? Ou será que não é bem assim?
Sempre escrevi. Chegou um momento em que, depois de quinze anos de música, achei que era hora de investir na escrita, uma paixão tão grande quanto a música.
É mais fácil passar mensagens através dos livros e das colunas do que com a música?
São coisas diferentes. Gosto da música porque ela consegue passar emoções sem precisar, necessariamente, da palavra. Muitas vezes, as pessoas nem percebem o que está sendo dito numa música, pois a emoção vem com a melodia. Isso é maravilhoso por um lado, mas, por outro, você pode cantarolar algo horrível só porque a música grudou no seu ouvido. Com a escrita é diferente. Como vivemos em um país com altos índices de analfabetismo, como as pessoas têm uma enorme preguiça de ler, sei que quem lê meus livros lê porque quer muito (e isso é muito gratificante). Além disso, para mim, que falo e escrevo muito, prolixamente, a escrita permite que eu me estenda mais, que exponha um pensamento de maneira mais completa. Nesse sentido, sim, é mais fácil passar a mensagem através da escrita.
Nunca te incomodou o fato de que, a partir do momento em que você – e isso acontece em todas as situações semelhantes – tem uma coluna que fala sobre homossexualidade, as pessoas só conseguirem te fazer perguntas sobre esse tema, mesmo quando não se trata de um programa ou veículo voltado para essa questão?
Não me incomoda porque o assunto “homossexualidade” é objeto do meu trabalho. Eu escrevo sobre isso, mesmo quando é uma ficção, como foi o caso do meu livro mais recente Balada Para as Meninas Perdidas, que conta as aventuras vividas por um grupinho de meninas lésbicas. Eu gosto do assunto. Então, para mim, não me incomoda ser chamada pra falar disso. Mas, claro, só falo disso para veículos idôneos e não homofóbicos.
Pergunto isso porque às vezes, tenho a impressão de que ser homosexual ainda parece estranho às pessoas, mesmo que tentem parecer que não. Por exemplo: um homem não vai a um programa falar sobre sua masculinidade o tempo todo. O que acha disso? Preconceito?
Acho que a homossexualidade é um assunto que precisa ser colocado em pauta e por isso nos chamam para falar do assunto. Talvez, depois que a homossexualidade for encarada normalmente pela sociedade, não haja esse tipo de assimetria e a curiosidade sobre o assunto seja saciada.
E quais são seus projetos atuais? O que anda fazendo?
No momento, estou sem projetos. Não faz nem um ano que publiquei o Balada Para as Meninas Perdidas e estou ainda divulgando o livro, fazendo com que ele ganhe maior visibilidade, pois geralmente as prateleiras GLS das livrarias ficam muito escondidas. Não sei por que não colocam meu livro também na prateleira de literatura brasileira... Isso sim, é preconceito! Os livros classificados como GLS em geral são colocados em seções de sexo ou psicologia, que invariavelmente ficam nos fundos da livrarias. Além disso, o leitor comum têm receio e vergonha de solicitar ao balconista ou atendente das livrarias livros que tratem explicitamente de homossexualidade, como os meus.
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escrito por Alex Dias Paiva, 10 de janeiro de 2010
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