Sábado Jul 31

Arquivo

Machuca

Atenção, abrir em uma nova janela. ImprimirE-mail
Twittar este Artigo
Filme chileno mistura ficção e realidade para contar a história de amizade de dois meninos no período pré-Pinochet.

Niños da ditadura

Utilizando como pano de fundo os acontecimentos que antecederam o golpe militar chileno, Andrés Wood mistura ficção e realidade para contar a tocante história de amizade entre dois meninos separados pelas diferenças sociais no Chile dos anos 70. Assim é o filme Machuca, que apesar da premissa dramática, ainda apresenta alguns deliciosos momentos cômicos. Por Luiz Rebinski Junior.

Amigos separados por diferenças sociais são os protagonias da trama de Machuca.

Além da conhecida trajetória de ascensão e queda do político Salvador Allende, o período que antecedeu o golpe militar chileno de 11 de setembro de 1973, mostra-se, mesmo após três décadas, pródigo em revelar grandes histórias, ainda que fictícias. É o que mostra o cineasta Andrés Wood, diretor do longa-metragem Machuca.

Entre os anos 1970 e 1973, o Chile viveu um dos períodos mais conflitantes de sua recente história. Salvador Allende, primeiro governante de convicções marxistas a dirigir o país, tentava implementar um regime socialista e vislumbrava construir um "caminho chileno para o socialismo". Contudo, era pressionado pela extrema direita, que, com o apoio dos Estados Unidos, queria sua renúncia.

Allende assumiu a presidência e, logo em seguida, nacionalizou as minas de cobre, principal riqueza do país, que estavam nas mãos dos norte-americanos havia três décadas. Além disso, passou as minas de carvão e os serviços de telefonia para o controle do Estado, aumentou a intervenção nos bancos e efetivou a reforma agrária, desapropriando grandes extensões de terras agrícolas improdutivas e entregando-as aos camponeses. Tais medidas desagradam profundamente à parcela da população que, até então, controlava o país.

São destes fatos que Wood se apropria para narrar a história de Pedro Machuca e Gonzalo Infante, dois meninos da mesma idade, separados por um imenso abismo social. Machuca é um garoto pobre que mora em uma favela chilena. Graças à benevolência de um padre, afeito às idéias de Allende, consegue uma vaga no colégio Saint Patrick, destinado aos filhos da alta burguesia. Na nova escola, Pedro Machuca encontra, além da truculência dos colegas abastados, a amizade de Gonzalo Infante. Rejeitado pela maioria dos meninos, Machuca vê em Gonzalo um companheiro pouco preocupado com a diferença social que os separa. Do mesmo modo, Gonzalo, menino solitário e que testemunha as traições da própria mãe, encontra no carinho de Machuca o alento para sua infelicidade.

Embalados por uma eficiente trilha sonora, Machuca e seu mais novo amigo descobrem juntos o sentimento de liberdade em um país sitiado. Gonzalo Infante carrega Machuca para todo lugar e lhe apresenta tudo aquilo que o dinheiro pode comprar e que o amiguinho pobre certamente não teria acesso. Por sua vez, Machuca mostra ao colega todo o companheirismo e a dedicação que, diferentemente dos bens materiais, o dinheiro não pode comprar. Na favela, além da fidelidade de Machuca, o menino rico encontra o amor. Silvana, irmã mais velha de Pedro, é uma garota politizada que vive fazendo troça do burguesinho com quem o irmão está andando. No primeiro momento a moça desdenha Gonzalo, mas aos poucos vai cedendo e acaba por iniciar o garoto nas relações amorosas.

Em meio a todas as descobertas dos impúberes rapazes, o caos circunda a cidade. Passeatas pró e contra o governo Allende pipocam a toda hora na capital do país.

Drama e humor
Apesar do tom dramático da película, Machuca consegue ser cômico. As cenas das passeatas, em que a família do personagem principal vende bandeirinhas chilenas, rendem boas risadas. Quando em uma destas manifestações, Gonzalo pergunta o que é um direitista, à queima-roupa a rebelde Silvana responde: “um rico ignorante como tu”.

A inocência dos garotos frente às disparidades sociais do país toca o espectador. Os meninos estão alheios às disputas políticas. Só sabem o que sentem. Gonzalo tem consciência de que é rico e que por isso é discriminado; Machuca, que é pobre e que quer outra vida, mais digna.

O filme poderia se transformar em um imenso clichê ao retratar a história de crianças de classes distintas, unidas pelo sentimento de amizade. Não é o que acontece. Os fatos históricos dão a credibilidade necessária à película. O cineasta consegue passar toda angustia dos chilenos que viveram os conflitos sociais na década de 70 através do olhar inocente de Pedro Machuca. O garoto da favela, com suas roupas puídas [o menino passa o filme todo com a mesma blusa surrada], observa com curiosidade os fatos que se desdobram.

É especialmente interessante ver como o diretor retrata uma sociedade rachada ao meio pela política. Para muitos, Allende significava a esperança de uma vida melhor e uma sociedade mais justa. Já para a classe abastada, o político de Valparaíso era um comunista, cujo único objetivo era levar o país à bancarrota.

Wood não entra no mérito da questão a respeito da morte de Salvador Allende [assassinato, para muitos]. Apenas usa como pano de fundo para seu filme uma história que tornou-se um verdadeiro fantasma para os cidadãos chilenos. O golpe militar encabeçado por Augusto Pinochet, da mesma forma como o nosso março de 1964, ainda rende boas [ou más, dependendo do ponto de vista] histórias. Assim como o final da história real [o suicídio de Allende], o desfecho da película de Wood não é nada feliz. Surpreendendo o público, e desapontando os que esperavam um final romântico e suave, o diretor encerra o filme de forma forte, deixando para o próprio espectador a reflexão dos fatos.

Em tempos de ascensão de governantes assumidamente socialistas na América Latina, Machuca, assim como o hermano Diários de Motocicleta, se não é um filme engajado e propositadamente rebelde, é pelo menos um ótimo pretexto para falar sobre o que Chávez, Lula, Kirchner e Vasquez – filhos bastardos da ditadura que dominou o continente nos idos de 70 e que lutaram contra os regimes despóticos – estão fazendo. E mais: qual seria o legado do herói Allende, caso não tivesse se matado com um tiro de fuzil? A revolução bolivariana vingaria?


Artigos Relacionados:
Artigos Relacionados - Recentes:
Artigos Relacionados - Antigos:

Comentarios (0)Add Comment

Escreva seu Comentario
menor | maior

security code
Escreva os caracteres mostrados


busy

Novos Downloads

Acústico Mundo Livre Ao Vivo - Single (mb 82) Uh La La!
Acústico Mundo Livre Ao Vivo - Single (mb 82)
Narciso Nada EP 2 (mb 84) Narciso Nada
Narciso Nada EP 2 (mb 84)
Narciso Nada EP 1 (mb 83) Narciso Nada
Narciso Nada EP 1 (mb 83)
Dance Moves + Sweet Boys Sweet Girls (mb 86) Homemade Blockbuster
Dance Moves + Sweet Boys Sweet Girls (mb 86)
Colorphonic EP (mb 85) Colorphonic
Colorphonic EP (mb 85)

Videos Recentes

View Video
Don't Turn The Lights On'
View Video
Shadow
View Video
Lifted

Blogueiros

Publicidade