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Kings Of Leon

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Facção jovem da família Followill volta a apostar na tosqueira cow-punk com letras sobre putaria, pegas e bebedeira.

Arroto na cara

Eles começaram tocando música de igreja para a a alegria do pai/tio, um pastor protestante que pregava em um trailer no sul dos Estados Unidos. Quando resolveram trilhar caminho autoral próprio, assumiram nome de Kings Of Leon e estouraram com suas músicas cheias de putaria, bebedeira e pegas de pick-ups em cidadezinhas do interior americano. E o segundo álbum dos Followill [três irmãos e um primo] aposta novamente na receita cow-punk que deu certo no anterior. Carlos Eduardo Lima come a poeira da estrada deixada por A-Ha Shake Heartbreak.

Vida caipira americana rege a temática e a sonoridade dos jovens Followill.

Quem não gostaria de ser um dos integrantes do Kings Of Leon? Há motivos de sobra para todo mundo querer ser um dos três irmãos Followill [Caleb, Nathan e Jared] ou o primo Matthew. Eles fazem rock mesmo, sem modismo, na contramão da decantada babação de ovo aos anos 70 e 80. São feios, esporrentos, tocam mal. Arrotam Jack Daniels barato, cantam com um sotaque ininteligível do Tennesse e, ainda por cima, fazem mais sucesso na Inglaterra que nos seus rincões ianques. Se você concorda, caia dentro.

Para a alegria geral de garotos que, como eu, amavam Creedence Clearwater Revival e Neil Young, o Kings Of Leon volta à ação pouco tempo depois do lançamento de seu primeiro disco, Youth And Young Manhood, uma avis rara no meio de tantos simulacros de bandas nova-iorquinas de pós-punk temporão. Com decalques lindos e precisos das sonoridades empoeiradas do sul, esta maravilhosa instituição inspiradora de boas bandas, o quarteto saiu evocando as presenças dos citados Young e Creedence [além de ZZ Top, Tom Petty And The Heartbreakers e Greggg Allman] e pariu o sucessor de Youth And Youngmanhood, o soberbo A-Ha Shake Heartbreak, já lançado por aqui pela BMG antes de sua fusão com a Sony.

Os Followill são, junto com seus compatriotas do My Morning Jacket, as melhores bandas americanas surgidas nesses anos zero. Aliás, ambas as formações parecem presas em uma fenda temporal, parada em 1975, ignorando tudo o que aconteceu depois disso. Só que o Kings Of Leon é mais chegado em um cow-punk, aquele tipo de som que detona instrumentos enquanto mastiga um capinzinho no canto da boca.

Filhos de um pastor protestante que pregava em um trailer no sul dos Estados Unidos, os irmãos Followill começaram a tocar em 1998. Se apresentaram em muita igreja antes de se juntarem ao primo Matthew e decidirem formar o Kings Of Leon, aparentemente livres que qualquer influência eclesiástica em sua atitude ou som. Desde então, lançaram dois EPs [um deles, Holy Roller Novocaine, com as cinco músicas que fariam a espinha dorsal do álbum que lançariam em 2003, o já falado Youth And Youngmanhood].

Os Followill são moleques com idades entre 17 e 24 anos, que estouraram primeiro na Inglaterra – talvez porque sejam, na essência, uma mera banda de bar de beira de estrada. Não interessa tocar bem, apenas continuar tocando e manter o povo distraído. Não se engane, porém, quem pensar que o som é acessório. Nada mais renovador que, em meio ao urbanismo de bandas contemporâneas como Strokes ou White Stripes, o Kings Of Leon saia contando histórias cheias de putaria, bebedeira e pick-ups que fazem pega em cidades com caixa d´água na praça central. A vida caipira americana, talvez o que eles tenham de melhor, é evocada seja na vitalidade da banda ao executar novas velhas músicas como no simples punch que os guia.

Faixa-a-faixa

“Slow Night, So Long”
Guitarras anunciam que vem bomba por aí. Introdução lenta com baixo ponteando tudo, entra a bateria louca, conduzindo uma melodia surpreendentemente cinematográfica. Guitarrinhas crocantes dedilham pela música adentro.

“King Of the Rodeo”
Uma maravilha logo de cara. Guitarra torta e presente, com riffs sobrepostos, voz enlouquecida e contida ao mesmo tempo. Palminhas pontuam a canção ao lado das guitarrinhas. Boa para uma dancinha...

“Taper Jean Girl”
Bateria cadenciada introduz baixo e guitarras e levam a uma melodia tipicamente country rock, como um Gram Parsons punk e bêbado. A letra é deboche puro. Fala das putarias e decepções com o sexo oposto, sempre confortadas pelo amigo Jack Daniels.

”Pistol Of Fire”
Dois minutos e vinte segundos de guitarras, resmungos e andamento rapidinho.

“Milk”
Entrada lenta dos instrumentos. Na verdade, a voz de Caleb Followill parece uivar para um futuro de possibildades. Os instrumentos vão prenchendo os espaços. Tudo acaba em uma pequena jam. Talvez um ponto baixo do disco.

”The Bucket”
Gritos de cowboy, guitarras levemente strokeanas e bateria ensandecida levam a melodia do primeiro single do disco. Maravilhosa fusão involuntária de melancolia e doideira.

”Soft”
Guitarras com timbre de Neil Young vão sendo engolidas por uma levada quebrada de bateria, que lembra “Down On The Corner”, do Creedence Clearwater Revival. Rompantes de velocidade se revezam ao groove. Faixa perfeita.

“Razz”
Entrada aerodinâmica de instrumentos ao mesmo tempo. Destaque para a voz de Caleb e as guitarras, que pontuam a trajetória da melodia. Em apenas dois minutos e quinze segundos, o serviço está feito.

”Day Old Blues”
Um lamento em forma de canção, apenas com guitarra. Lembra os grandes trovadores country, claro, com muita licença poética. Mas a música é triste e parece feita para amores à beira de uma highway qualquer. Cantos de cowboy são o refrão. Nunca as palavras day old blues foram pronunciadas dessa forma antes.

“Four Kicks”
Pouco mais de dois minutos de honky tonky, voz endiabrada e guitarradas cortantes.

”Velvet Snow”
Introdução e levada country punk com vocal de quem está cantando naquelas festas típicas no celeiro.

“Rememo”
Mais uma na linha “os brutos de 20 anos também amam”. Sobre amores e garotas que sumiram na poeira dessa estrada triste. Bateria marcial e guitarra com solenidade.

“Where Nobody Knows”
Surpreendente andamento cadenciado. Pode ser o mais próximo que os rapazes podem chegar de uma balada country. Lembra alguma coisa lenta e bêbada de um Tom Petty iniciante e punk.