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Elliott Smith

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Disco que artista deixou praticamente pronto antes de morrer revela a intenção de retomada das raízes.

Canções que saíram do porão

Em 21 de outubro de 2003, Elliott Smith perdia a luta para retomar as diretrizes iniciais de sua carreira solo, deixando quase pronto um disco gravado no porão de sua casa. From a Basement On The Hill foi lançado com outro produtor e a sonoridade não saiu exatamente como fora planejada. Mesmo assim mostra como o trovador underground conseguia se recuperar e voltar à boa forma criativa que o levou até a disputar um Oscar. Por Carlos Eduardo Lima.

Amtes de morrer, Elliot desejava resgatar a introspecção que o levou à fama.

Quem viveu viu Elliott Smith subir ao palco do Shrine Auditorium em fevereiro de 1998, com um paletó azul claro e um violão branco, para defender sua "Miss Misery". A música que havia sido indicada para o Oscar de Melhor Canção de 1997, pelo filme Gênio Indomável, do diretor Gus Van Sant, acabou preterida por ninguém menos que Celine Dion e sua indefectível "My Heart Will Go On", canção-navio da trilha sonora de Titanic. Elliott não era um estreante; era, sim, um cantor e compositor com cerca de dez anos de estrada, outrora líder de uma banda que poderia ser considerada como heavy-indie, chamada Heatmiser.

Smith morava em sua Portland natal, quando decidiu deixar o Heatmiser para lá e seguir carreira solo, apenas com seu violão, tendo Nick Drake como influência principal. Em 1995 ele lançou seu primeiro disco, Roman Candle, logo atingindo repercussão suficiente para assinar um contrato com o famoso selo indie Kill Rock Stars. Dois anos depois deu continuidade ao trabalho solo em Either/Or. Esse disco foi o que levou o diretor Gus Van Sant a procurá-lo a fim de pedir permissão para usar uma de suas canções, “Between The Bars”, no filme que estava fazendo com Matt Damon, Robin Williams e Ben Affleck no elenco. Elliot topou, autorizou e ainda compôs mais uma série de músicas para o Gênio Indomável, entre elas, "Miss Misery".

Depois da aparição surreal na noite do Oscar, Elliott Smith saiu do underground absoluto para a mesa de negociações da Dreamworks, gravadora que acabou comprando seu passe para a gravação de mais dois discos. Ainda em 1998, ele deu vida a XO, para muitos seu melhor trabalho, uma combinação perfeita da melancolia independente de antanho com o background que uma gravadora grande poderia fornecer. Músicas lindas desse disco – entre elas "Baby Britain", "Piteseleh", "Independence Day" e "Waltz #1" – estão entre as melhores coisas que ele já fez.

Elliott Smith também se tornara celebridade instantânea e passou a ser cobrado como tal. Logo em 2000 ele lançaria seu quarto disco, Figure 8, relativamente inferior ao que ele tinha feito até então. Aqui os abusos da produção conseguiram soterrar a doçura das canções e o disco acabou por significar uma queda na linha ascendente que vinha sendo traçada até então. Corta...

Aqui começa a história de From A Basement On The Hill, o quinto e último disco que Smith gravaria. Ele deixaria a Dreamworks logo após o lançamento de Figure 8, rompendo com seu produtor Rob Schnapf [o mesmo cara que capitaneou Beck em Mellow Gold] e com Joanna Bolme, ex-namorada e baixista da Stephen Malkmus & The Jicks. Tudo isso para tentar uma volta ao que fazia antes do sucesso. E ele queria fazer isso longe dos spots que insistem em focalizar celebridades em crise de consciência ou em crise com o sucesso.

Por dois anos Elliott trabalhou em seu disco, gravando sozinho as bases no porão de sua casa e trabalhando com uma série de outros produtores, como Jon Brion e David McConnell. Eram as músicas que ele acreditava que dariam a continuidade à introspecção que tanto queria. A pressão, no entanto foi maior, levando o cantor ao suicídio [uma facada nas costas] em 21 de outubro de 2003, deixando as canções praticamente prontas mas sem mixagem final, ordem de colocação no disco, nome. Enfim, um trabalho ainda inacabado, mas com 75% de seu corpo completo.

A batalha pela conclusão do álbum teve início entre os produtores e a família de Smith, que acabou por decidir recolocar o David Schnapf de volta ao comando do estúdio, na tentativa de dar vida ao que Elliott pensara. A idéia de Smith era fazer o disco mais simples possível, no sentido de enfatizar principalmente violões e guitarras. O que Schnapf não fez exatamente, por sinal.

Esse rebuliço marcou o lançamento de From A Basement On The Hill (Domino/Peligro) em 23 de outubro de 2004, um ano e dois dias depois da morte do cantor [as investigações já foram reabertas e ainda não está descartada a hipótese de assassinato]. O disco é uma coleção de canções do mesmo calibre das de XO. Portanto, se insere no que Smith sabia fazer de melhor – ou seja, músicas com um senso melódico fixado no pop folk dos anos 60. Contudo, as letras vinham mais otimistas que o geral e traziam um senso "amigo" de quase consolo para o ouvinte. Eram quase que um convite para uma conversa sobre alguma desilusão.

Se não for encarado com um trabalho póstumo, From A Basement On The Hill traz coesão suficiente para passar facil como obra de carreira, apenas significando a tão anunciada volta às raizes que Elliott queria. E nem é o caso dos discos póstumos mais tradicionais, aqueles que são garimpos forçados de sobras, outtakes e suspiros do artista. Smith estava no topo da forma, cheio de vontade para gravar, planejando correções em sua trajetória. Músicas como "Strung Out Again", "Don't Go Down", "Last Hour" e a cortante "A Fond Farewell" mostram que ele estava no caminho certo.

From A Basement On A Hill acabou tomando a posição de testamento musical de um artista que não chegou a conhecer a fama que merecia. Ou, melhor dizendo, que abriu mão da fama em nome de resgatar coisas dentro de si mesmo, correndo o risco de voltar a tocar nos mais remotos buracos do mais underground dos cenários desde que estivesse fazendo o que queria.


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Comentarios (1)Add Comment
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escrito por nehemias, 24 de novembro de 2010
Resumindo, era um idealista e não conseguiu largar isso. Não que seja exatamente ruim, mas com certeza trouxe muito sofrimento.
Miss Misery é hino. hehe

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