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Bad Religion

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Ícone do punk rock volta à antiga gravadora, reativa antigo guitarrista e mantém versos de alto teor político.

O punk é pop

Desde a década de 80, o Bad Religion vem se destacando por dois fatores: manter a regularidade ao gravar discos bem semelhantes uns aos outros e compor letras de alto teor político e antibelicistas. De uns anos para cá, a fórmula elaborada pela banda tornou-se senso comum entre novos discípulos de emo e hardcore mundo afora. Ricardo Schott* analisa o novo álbum do grupo, que parece voltar à velha forma ao reativar o guitarrista Brett Gurewitz e gravar novamente pelo selo independente que o lançou.

Bad Religion: mais um a disparar farpas contra George W. Bush.

Sabe porque é que os críticos dos anos 80/90 adoravam pegar no pé dos Engenheiros do Hawaii e colocá-los como símbolo das bandas que sempre faziam a mesma coisa a cada disco? Porque poucos deles conheciam ou se lembravam do grupo punk norte-americano Bad Religion. Não que as duas bandas tenham sonoridades parecidas. Acontece que, se o EngHaw era tido como repetitivo, o Bad Religion vem, há anos, trilhando uma carreira marcada pela regularidade - inclusive alguns momentos são mais regulares que os outros.

A banda de álbuns como Suffer, No Control e Stranger Than Fiction [o primeiro pela Sony] tinha uma sonoridade diferente, inovadora, que servia como trilha sonora perfeita para embalar estripulias a bordo de um skate e ainda curtir sossegado em casa. Rolava o contraste das melodias simples e belas e dos vocais extremamente melódicos com o peso e a rapidez que o grupo – ainda com o parceiro de Greg Graffin, Brett Gurewitz, guitarrista e criador do selo Epitaph – imprimia às suas canções. Enquanto Greg lutava para encaixar palavras de ordem e poemas enormes nas melodias do Bad Religion, às vezes atropelando a fala [as letras, nos encartes da banda, chegavam a vir como grandes textos quase sem métrica], a banda cuspia palhetadas e viradas de bateria, mas sem deixar a melodia de lado. Era um som que pagava tributo a Ramones e Agent Orange, mas também a Beatles, Byrds e até ao folk rock.

Agora com o novo álbum The Empire Strikes First (Epitaph/Sum), o grupo procura retornar aos tempos de vacas gordas – pelo menos no que diz respeito à qualidade musical. Os californianos estão de volta à Epitaph, gravadora independente na qual iniciou carreira e também tem Brett Gurewitz de volta à formação. O que aconteceu com o Bad Religion dos anos 80 para cá foi algo que teve seus lados bons e ruins. O grupo tornou-se uma referência para vários grupos de hardcore e emocore do mundo. A ponto de vários deles serem indistinguíveis entre si e pagarem um pau danado aos mestres – sem contar os que não sabem como reproduzir as mumunhas vocais de Graffin [que muitas vezes parecem mais ligadas ao folk e ao metal melódico do que ao hardcore] e ficam só no quase. Nessa brincadeira, a coisa mais fácil do mundo seria uma banda que segue uma fórmula e quase não teve guinadas sonoras em sua carreira acabar soando como imitação dos próprios imitadores. Pode nem ter sido isso o que aconteceu, mas que esse tipo de som ficou banal pra burro, disso quase ninguém duvida.

A fórmula de guitarras pesadas, belas melodias, vocais de emocionar e letras políticas e ant-belicistas [só pelo título do disco já dá pra sacar qual é o alvo das críticas da banda] aparecem em todas as faixas. Entre os bons exemplos: “Los Angeles Are Burning” [aqui está um dos melhores refrões do álbum], “Sinister Rouge”, “Beyond Electric Dreams” e “Let Them Eat War”. Graffin, ateu confesso e convicto, parte para a crítica pesada em músicas como “God’s Love” e “Atheist Peace”. Sonoridades menos ágeis e mais chegadas ao hard rock aparecem na bela “To Another Abyss”. Para quem não é convertido ao estilo e não conhece direito o Bad Religion, fica parecendo tudo muito igual, regular mesmo. Mas esse é o melhor disco do grupo desde 1994. E tem detalhes que lembram tanto os Ramones quanto versões expandidas de “It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)”, clássico do REM, graças à rapidez dos vocais.

Uma das coisas mais variadas do álbum é deixada pela banda para o final. “Boot Stomping On a Human Face” é um quase reggae, diferente de muita coisa que o Bad Religion já fez. E “Live Again - The Fall Of a Man” é hardcore com senso melódico equivalente ao de Mick Jagger e Keith Richards quando compuseram “As Tears Go By” para Marianne Faithfull gravar – pode ver que se mexer aqui e ali no refrão, fica parecido.

O resultado final de Empire Strikes First acaba sendo uma boa demonstração de que o Bad Religion não se tornou um grupo boçal. Tem muita coisa para mostrar após vários anos de carreira e apresenta temática cada vez mais atual [embora isso seja mais culpa dos revezes políticos de seu país do que propriamente eficiência da banda]. E tomara que o grupo consiga se sobressair no mar de emos, hardcores melódicos e dores-de-corno-cores que assola o mercado punk atual.

* Ricardo Schott é o editor do site Discoteca Básica


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