Domingo Nov 18

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Os 50 melhores álbuns nacionais

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Quem se destacou no ano em que o rock independente deu as cartas no mercado fonográfico brasileiro.
Deck/DivulgaçãoNão faz muito tempo que lançar disco independente no Brasil siginificava falta de condição financeira para bancar todas as etapas de um trabalho profissional. Hoje tudo mudou. Ser independente é prezar pela liberdade de criação e ter controle de todo o processo de gravação. Os 50 melhores álbuns nacionais listados pelo Bacana vêm a comprovar essa mudança definitiva no mercado fonográfico nacional. Textos escritos por Abonico R. Smith*.
O Gram conquistou o país com o belo álbum de estréia e um clipe emocionante.
1 :: Gram – Gram (Independente/Deck)
O melancólco clipe já é um belo exemplo de como criatividade e uma boa simples história podem driblar adversidades e render um belo resultado. Separada das imagens, “Você Pode Ir Na Janela” é outro assombro. Ouvi-la dez vezes consecutivas não é suficiente para se chegar a uma resposta à pergunta “como uma balada-valseada em praticamente um único acorde pode soar tão pop e eficaz assim?. Se só a tal “música de trabalho” já valeria pelo disco inteiro, no resto esses rapazes que aprenderam a brincar com harmonias e melodias tocando covers dos Beatles literalmente destróem quem ainda duvida do potencial da banda. Várias guitarras [riffs, arpejos, dissonâncias], teclados e arranjos em 6/4 ornam influências díspares [Coldplay, Los Hermanos, Mutantes, Radiohead, psicodelismo, pós-punk britânico dos anos 80 e os Fab Four, claro] e compõem um álbum fenomenal. Sergio Filho se entrega a cada verso de amor, ódio, paixão e arrependimento e soterra de emoções o coração de quem se já se apaixonou pela triste história do gatinho romântico de sete vidas. Pode ter sido originalmente gravado em 2002, antes mesmo da banda se lançar como Gram. Mas o tempo passou e as músicas não pereceram. Pelo contrário, Ganharam a força necessária para vingar mais tarde, com a incorporação do disco – todo bancado e produzido pelos próprios músicos – por uma gravadora de porte nacional. Bravo!!!
Ouça: “Você Pode Ir Na Janela”, “Toda Luz”, “Sonho Bom”, “Seu Troféu”, “Quase Ilusão”

2 :: Wonkavision – Wonkavision (Orbeat)
As letras desenham o universo de incertezas e inseguranças de uma geração que ainda não saiu da casa dos pais e está mergulhada em muitas dúvidas pessoais e profissionais. A sonoridade tem como base um power pop poderoso, repleto de riffs e melodias grudentas. Adicione a isso muitos solos de guitarra e viagens no moog. E o álbum de estréia, produzido pelo patofu John, é uma arrebatadora coleção de hits para uma legião de fãs espalhada na internet. Bubblegum para cantar de cor e escancarar o coração.
Ouça: “Comprimidos”, “O Plano Mudou”, “Nanana”, “Ei, Não É Por Mal”, “Errado”

3 :: Charme Chulo – Você Sabe Muito Bem Onde Eu Estou (Independente)
Aqui o uso da expressão caipira passa longe dos sistemas brutos de peões de rodeios. Com a ajuda de um surpreendente jogo emocional de palavras e sentimentos que une gerações de campeões de idolatria [Oscar Wilde, Dalton Trevisan, Morrissey, Renato Russo], eles fazem o rock de guitarras casar-se com pagodes de viola, acertam a mão em refrões grudentos e métricas complexas e ainda apresentam um belíssimo extended-play de estréia – ter todas as seis músicas de alta qualidade e que dão vontade de ouvir várias vezes o mesmo disco não é para qualquer um. O forte aqui é a identidade paranaense, nunca antes tão cantada e ressaltada nos versos de uma formação pop nascida sob a bênção dos pinhais e araucárias.
Ouça: “Polaca Azeda”, “Piada Cruel”, “O Que É Que Foi, Piá?”, “Ai de Você, José!”, “A Beleza e a Dor de Sua Alma”

4 :: Daniel Belleza e Os Corações em Fúria – Daniel Belleza e Os Corações em Fúria (Mundo Perfeito/Tratore)
Guardadas no decorrer da última década, essas canções foram desencaixotadas porque o vocalista finalmente “achou” uma banda para cantá-las. E que banda! Abusando da maquiagem e purpurina glam e mostrando uma visceralidade incomum até mesmo às bandas nacionais de hardcore, Belleza e seus corações furiosos mostram que guitarras pesadas e vocais berrados podem combinar perfeitamente com uma veia pop. E o resultado é excelente. Dá para cantar exacerbadamente. Dá para dançar sem parar. Dá para ter certeza de que está nascendo uma grande banda brasileira.
Ouça: “Do Amor de Morte”, “Babe”, “Aonde Estão as Flores da Sua Cabeça?”, “Clara”, “A Caixa”

5 :: Pullovers e Geanine Marques – Carniça (Independente/Tratore)
Pretensão é uma palavra manca no meio indie nacional. Quando bem usada, com inteligência, criatividade e perspicácia, ela é capaz de proporcionar belos momentos. Poucos se utilizam desse caminho. Um dos poucos é o Pullovers, que agora se junta à cantora e modelo paranaense Geanine Marques para fazer uma espécie de ópera-rock de personagens desprezados pela luz do dia. O “submundo” de sexo, drogas e estilos de vida alternativos é radiografado com humanidade e perfeição pelo grupo paulista, que continua fazendo um barulho pop de primeira, repleto de melodias grudentas e letras curtas [às vezes com apenas dois ou três versos] porém eficazes.
Ouça: “Bang Bang”, “Sold Out”, “Except When I’ve Loved You”, “The Revolutionary Power Of Love”, “Modinha”

6 :: Wander Wildner – Pára-Quedas do Coração (Independente)
A figura de trovador solitário incorporada pelo gaúcho, por si só, já vale o disco. A voz, rascante e seca, não permite backings. É única. Tropeça em um inglês macarrônico, engole bravamente o choro implícito de alguns versos, tira sarro das tribos urbanas e ainda é capaz de celebrar um mundo melhor. Mistura cellos, violinos, baixos e guitarras com sentimentos tão díspares como frustração, otimismo, perseverança, raiva, solidão... e, claro, amor. Uma dramática coincidência: se o tempo de gestação do álbum [seis anos] foi longo por causa das poucas brechas na agenda do amigo e produtor Tom Capone, o lançamento do disco serviu semanas antes da morte dele serviram como um belo e melancólico epitáfio.
Ouça: “Eu Não Consigo Ser Alegre O Tempo Inteiro”, “Candy”, “Hippie-Punk-Rajneesh”, “Eu Acredito Em Milagres”, “Ganas de Vivir”

7 :: Poléxia – O Avesso (Independente)
Quem conhece a história recente da música jovem da capital paranaense sabe que as bandas da cidade sempre esbarraram em um grande obstáculo chmado pop. Essa palavrinha, aparentemente inofensiva, transformou-se em empecilho para quem se dedicou a fazer música voltada para programações radiofônicas e uníssonos de show. Quando não faltou delimitar conceitos e construir identidade no trabalho de estréia, faltou mesmo habilidade e competência para compor melodias assobiáveis e emoldurá-las em arranjos simples e eficazes. Do alto de seus vinte e pouquíssimos anos, os literalmente meninos do Poléxia deram um banho em muito marmanjo. Arranjos para cordas, modulações, compassos ternários, bases ricas em detalhes, solos matadores, videoclipe polêmico em super-8 e, óbvio, um punhado de hits em potencial que já começam a ser descobertos na terra natal. Tudo isso em seu primeiro álbum oficial de estúdio. Definitivamente, não é pouco.
Ouça: “Violetas na Janela”, “Aos Garotos de Aluguel”, “Quando a Luz Se Apaga”, “Ficar Em Casa”, “Segue”

8 :: Karine Alexandrino – Querem Acabar Comigo, Roberto (Independente/Tratore)
A força da peruca sixtie da jovem diva cearense Karine Alexandrino é resultado do feliz encontro de coisas que andam em falta nos supermercados fonográficos. São elas inteligência, irreverência e consistência musical. A música feroz e doce da cantora e atriz que veste a cantora-atriz em busca da fama neste segundo disco dá caldo. No entanto, o conceito de fama que Karine explora é bem diferente daquela a qual estamos acostumados a assistir nos reality shows. Seu barato é realidade travestida de fantasia em um jogo de espelhos onde o figurino é rasgado ao se ver uma mulher real com dificuldades reais colocadas com primor dramático de intérprete italiana. O melhor é que a música não serve só como trilha sonora para essa festa de vidas inventadas e letras que chovem imaginação e esperteza old fashioned. Ela é o cerne na sua mistura disparatada de romantismo de bolha de sabão, climas Portishead, vocais infantis, percussões eletrônicas e Jovem Guarda. Este é um álbum que ousa experimentar no laboratório do pop. É bravamente bem produzido e ainda tem uma embalagem à altura de seu conteúdo. Ninguém acaba com essa mulher, Roberto!
Ouça: “Balada de Perdicta”, “Como Me Tornei Uma Adúltera”, “Loca Por Ti”, “Mulher Ioiô”, “Kiss Kiss Kiss”

9 :: Santa Claus – Dance Comigo (Dykon)
E não só o eletro tomou conta da noite aletrnativa de grandes centros nacionais como ainda juntou-se ao punk para embalar a festa de meninas que gostam de outras meninas. Essa one-woman band parece ter sido feita sob encomenda para tais baladas. Letras com ativismo dyke escancarado e a tríade sexo-álcool-rock’n’roll. Nesse encontro entre riffs que gradam na cabeça e batidões irresistíveis ainda sobra espaço para a inclusão de um hardcore raivoso e cheio de fúria. No meio de pedidos de desculpas e declarações de amor, brilha uma letra ímpar na música nacional. Derrubando tabu e enfrentando polêmica, Claudia Rom conta em “Lembranças Proibidas” – e com letras garrafais – a triste história de um abuso sexual envolvendo avô e neta.
Ouça: “Lembranças Proibidas”, “Adorável Cinismo”, “Bebendo Vodca”, “Ouça Meu Olhar”, “Na Real”

10 :: Mombojó – Nadadenovo (Independente/Tratore)
Um glorioso capítulo pós-mangue beat veio pelas mãos de sete jovens arretados de Recife. No ocaso da criatividade vivido pelas rádios que insistem em rock de skate que não sobe rampa, brilha o Mombojó. Nadadenovo – o título aposta na antipropaganda em tempos de comercial de refrigerante – foi financiado pelo Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Recife. A combalida cena do país agradece. Menos preocupados com o manifesto do que com a música, a nova geração pernambucana desafia o limite da mistura. Mistura de estilos, instrumentos e mensagens. Às vezes são um atmosférico trip hop sob o sol de rachar de cavacos e guitarras furiosas. Outras são uma banda de prog samba fundindo groove e ricas dinâmicas pontuadas por flauta e escaleta, instrumentos pouco usados por aqui. A mesma variação sonora está nas letras. Uma hora Felipe, com seu vocal à Fred Zero Quatro, canta que vai morrer mas avisa em outra que este é o "reino da alegria". Costurar diferenças e ainda soar coerente é coisa para poucos. 2004 foi o ano em que os o Mombojó aprofundou a herança musical do Nordeste.
Ouça: "A Missa", "Cabidela", "O Céu, O Sol e o Mar", "Deixe-se Acreditar", "Estático".

11 :: Belasco – Alexei (Independente)
Fábula sobre realidade e ilusão, um mundo unido por relações interpessoais criadas a partir de equívocos do ser humano. Fios de alta tensão emocional transmitem pelos ares informações de um mundo novo. Mancham de vermelho-sangue os céus de uma Fortaleza ligada ao passado de dois pólos da Guerra Fria. De um lado, o folk rock, pós-punk americano dos anos 80 [aliás, são explícitas as influências do R.E.M. em início de carreira, sobretudo nos dedilhados e inflexões vocais] e psicodelia garageira [texturas combinatórias de guitarras ácidas e doces melodias pontilham conexões com um certo Teenage Fanclub]. Do outro, histórias sobre a utopia do comunismo e a busca pela auto-revolução. Jekyll e Hyde bowieanos revelam-se em apenas quinhentos exemplares recheados por heróis mortos, supernovas e transmissões ao vivo de um novo cotidiano.
Ouça: “Alexei”, “Oh My!”, “Outsider”, “Move On”, “Nervous Hands”

12 :: Violins – Aurora Prisma (Monstro)
Esse disco manteve a tradição do selo goiano de lançar discos ano X e modelo X+1. Explica-se. No fim de 2003 o primeiro álbum do grupo também goiano já podia ser encontrado à venda, mas seu lançamento oficial para o resto do país se deu no início de 2004. Radiohead – especialmente a fase The Bends – continua sendo a principal referência da banda, na mistura de melancolia, climas etéreos e explosões de distorção.Mas as letras em português [mudança recente na carreira daquele que até então era conhecido como Violins & Old Books] dá à frieza da sonoridade britânica uma sensação mais gostosa de proximidade. Boas melodias e cuidado nos arranjos de cordas e piano ajudam a comporuma ótima estréia.
Ouça: "Qual a Criança", "Deus Você", "Auto-Paparazzi", "Pais", "Nostálgica"

13 :: Astronautas – Electro-Cidade (Monstro)
Pop art apocalíptica, universo paralelo sci-fi em cores berrantes contrastando com o cinza no future. Digital e industrial andam de braços dados enquanto máquinas controlam as mentes de seres humanos que se quadruplicam fora de qualquer controle. Riffs tonitroantes como a voz do Deus-trovão que vem lá de cima ajudam a tecer teias urbanas cheias de batidas tribais e refrões repetitivamente berrados aplicados à lei da Física. Se o extinto Concreteness há uma década anunciava a vinda do caos em forma de versos em português, com os Astronautas não resta a menor dúvida de que ele já chegou e se instalou em nossos corações.
Ouça: “Não Faço Nada”, “Cidade Cinza”, “Sentimentos”, “Calma”, “Fora de Controle”

14 :: Grenade – Grenade (Slag/Distribuidora Independente)
O homem-banda agigantou-se em 2004. O projeto lo-fi, baseado em Londrina e criado pelo guitarrista Rodrigo Guedes, incorporou músicos definitivos e transformou-se definitivamente em grupo. Teve dois álbuns lançados: esse, de músicas inéditas que vagueiam entre o folk rock e o rockão básico seventie] e Splinters, uma coletânea de raridades disponibilizadas anteriormente em MP3. Contou com a masterização do americano Steve Fallone, que trabalhara em Room On Fire, dos Strokes. Tocou em grandes festivais nacionais, como o Tim e o CPF. E provou que ser independente no Brasil é hoje apenas uma opção mercadológicas.
Ouça: “Rainmaker”, “Turn The Page”, “Gooday”, “For Her”, “Old Wish”

15 :: Bidê Ou Balde – É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos (Ufa!)
A new wave festeira da gauchada continua afiada no terceiro álbum. Desta tecida através de guitarras supersônicas, vocais berrados e menos teclados. No meio do esporro, porém, encontram-se melodias chamativas que mantém acesa a chama pop que acompanha a BoB desde o início de carreira. Entre ecos garageiros e batidas dançantes oriundas do pós-punk, ainda há espaço para provocações a Caetano Veloso, surtos psicodélicos a la Chemical Brothers e regravação punk ao extremo do Camisa de Vênus – com participação do próprio Marcelo Nova.
Ouça: “Mesmo Que Mude”, “Vamos Para Cachoeira”, “É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos”, “O Que Acontece no Escuro”, “PS: Calma!”

16 :: Brinde – Histórias Sem Meio Começo e Fim (Monstro)
A terra dos abadás, arerês e ilê-aiyês vem se revelando grande celeiro de um rock’n’roll visceral, que já saiu do underground e hoje vê brotar sementes à luz do dia. E essa trinca ajuda também a cair por terra a teoria de boas melodias soteropolitanas necessariamente vêm acompanhadas de sotaque forte e letras esdrúxulas. Powerbritpop até o talo, cheios de contracantos e backings a la Teenage Fanclub e bandas garageiras dos sixties. Receita feita para atingir fundo o coração que sangra verões e invernos de histórias de relacionamentos truncados, difíceis, porém cheios de prazer. Álbum que pode ser resumido em duas palavras: paixão e entrega.
Ouça: “Voltar Atrás”, “Cedo Ou Tarde”, “Nunca Fiz Por Merecer”, “Tempo a Procurar”, “Fim de Ano”

17 :: Moptop – Moptop (Independente)
Moptop é aquele corte de cabelo que os Beatles usavam no começo de carreira e acabou virando moda e até sendo comercializado como peruca depois que o grupo invadiu as paradas americanas em 1964. Moptop é também uma nova banda carioca. Mas, não, o som nada tem a ver com os Fab Four, a não ser o apelo de boas melodias. Esse quarteto trafega mais pelo novo pós-punk que anda tomando conta do cenário alternativo de hoje. Influências de Strokes e Franz Ferdinand são bastante nítidas. As letras são escritas de modo bastante pessoal e falam sobre relacionamentos e situações banais do cotidiano. E as gravações, quase todas caseiras, mostram que nem sempre o lo-fi pode ser tosco ou distante do pop.
Ouça: “O Rock Acabou”, “Tão Certo”, “Seja Ate o Fim”, “Sempre Igual”, “Moonrock”

18 :: Hurtmold – Mestro (Submarine)
Ninguém consegue defini-los direito. Seja pós-rock ou qualquer outra coisa, o fato é que o hoje sexteto – formado por integrantes que também tocam em bandas diversas, do hardcore a fusões rock-MPB-eletrônicas – segue muito bem sua carreira entre os fãs de bandas que não seguem padrões ou convenções de estilos e arranjos. Tenso, nervoso, esquisito... Apenas sete temas – todos quase instrumentais – e uma torrentes de climas e devastações sonoras que pulam do pós-punk de pista de dança ao brilho do improviso.
Ouça: “Chuva Negra”, “Amarelo é Vermelho”, “Música Política Para Maradona Cantar”, “Mestro”, “Miniotário”

19 :: Canastra – Canastra (Monstro)
As cartas estão na mesa. Royal straight Flash ou “apenas” full hand? Não importa. Seja pôquer, roleta ou uma mera canastra, aqui estão treze faixas envenenadas e que derrubam a teoria de que Curitiba e São Paulo são os únicos sinônimos verdes-e-amarelos de billy. A grande surpresa do ano do contagiante compasso dois por quatro caipiresco passa longe de moicanos punk e passa a jogar dados com o romantismo pós-Jovem Guarda que Renato Martins carrega consigo desde os tempos de Acabou La Tequila. Aqui, temas comuns ao gênero como histórias de jogo, terror, sangue e diabos ganham contornos de dores-de-cotovelo, traições, arrependimentos e maledicências. E, o melhor, tudo com melodias pop e letras articuladas ao ponto de rimar creme, misancene e La Boheme....
Ouça: “Diabo Apaixonado”, “Meu Capuccino”, “Nuvem Negra”, “Roleta Russa”, “Eu Te Disse”

20 :: Cachorro Grande – As Próximas Horas Serão Muito Boas (Independente/Deck)
Informação clichê-de-plantão: a segunda bolacha prateada da Cachorro Grande foi encartada na “revista do Lobão”, a Outracoisa. Ou seja, é coisa de nossos bravos independentes. Enquanto nas rádios, a turma tênis-roque bebe da fonte em voga, o nu metal, nos shows em porões insalubres ainda reina o espírito de 1967. Parte da crítica acusa os rapazes de Porto Alegre de bancarem os perigosos quando são apenas sujos. Balela. O negócio é que, com eles, as próximas horas serão muito boas e nada mais. Deixemo-nos fantasiarem que estão na SwingingLondon dos Stones enquanto o rock for honrado com o vocal insano de Beto Bruno [nome que cairia bem na Jovem Guarda] e o ataque libidinoso da guitarra de Marcelo Gross em contorções e riffs aderentes. Esse álbum supera o mero desejo de reviver o passado porque conta com uma fileira de hinos de fazer inveja às filas de banheiro nas festinhas rock. É álcool nas idéias e sangue no chão. É a glória da juventude inconseqüente.
Ouça: "As Coisas Que Quero Lhe Falar", "Hey, Amigo", "Você Pode Até Pegar", "Olhar Pra Frente", "Me Perdi".

21 :: Nervoso – Saudade das Minhas Lembranças (midsummer madness)
Autoramas, Acabou La Tequila, Beach Lizards, Matanza... Depois de muito surrar os kits de bateria de importantes bandas cariocas, Nervoso aceitou o desafio de ser o centro das atenções. Montou uma banda de apoio e passou a ser ele o cantor de suas parcerias e composições. E desd eolançamento do primeiro disco [o EP Personalidade, de 2003] nem se preocupou em maquiar ou esconder seu “arraxtado” sotaque carioquêix. Pudera. A qualidade das músicas já falam por si. Jovem Guarda cruza com o samba e passam pela esquina do pop, sempre com versos visceralmente românticos. Sofrer de pelas dores dos amores pode ser uma grande catarse rock’n’roll. Aqui o sentido de nostalgia é muito maior do que o ato de regravar antigas composições em seu primeiro álbum.
Ouça: “Já Desmanchei Minha Relação”, “O Bom Veneno”, “A Visita”, “Mais Justo”, “Clube da Luta”

22 :: Radar Tantã – Passeio Entre o Céu e o Sol (Naphta/Distribuidora Independente)
Formação oriunda do Virna Lisi [um dos mais interessantes, subestimados e injustiçados grupos do rock independente brasileiro dos anos 90] atinge seu apogeu pop no primeiro álbum. Sem o apelo britpop que prevalecia nos trabalhos anteriores [dois EPs] e com o apuo melódico em alta, o trio faz de elementos e momentos cotidianos – como paixões, animais, jornais, tardes de terça-feira e rádios que só tocam porcaria em forma de música – sua matéria-prima de canções tão belas quanto despretensiosas. Para ouvir em dias de sol, céu nublado ou até mesmo chuva.
Ouça: “Durmam, Durmam”, “Radio Song”, “Cão Em Fuga”, “Passeio Entre o Céu e o Sol”, “E Ela Disse”

23 :: Wado e Realismo Fantástico – A Farsa do Samba Nublado (Outros Discos/Tratore)
Realismo fantástico, a escola literária, caracteriza-se por elementos absurdos e fantasiosos, sem que haja explicação para eles. Seus autores mais célebres – e Kafka, Borges, Cortazar – parecem sempre retratar o inconformismo e a inadequação em um mundo opressor. Não surpreende que o alagoano-catarinense tenha dado este nome à sua banda de apoio. Neste terceiro disco – o primeiro gravado de forma profissional – Wado entorta e distorce a brasilidade dos trabalhos anteriores e assume cores pop. Não se entrega à ditadura do estilo, do fácil, do rotulável, e brinca com guitarras pesadas, psicodelia, doo wop, manguebit e reggae.
Ouça: "Grande Poder", "Vai Querer", "Alguma Coisa Mais Pra Frente", "Se Vacilar o Jacaré Abraça", "Deserto de Sal".

24 :: Réu e Condenado – Um Compêndio Lírico de Escárnio e Dor (Independente/Monstro)
Paródias de ícones e gêneros musicais [“rock gaúcho”, inclusive], gozações com estereótipos, rimas complicadas e inusitadas, muitas palavras polissílabas, metralhadora de referências cultas [personalidades pop, citações bíblicas, produtos agrícolas, reproduções de jingles e bordões comerciais do passado, reproduções de apostilas escolares, ligações a cobrar e até mesmo instruções básicas de como gravar um disco caseiro] e humor escancarado, por vezes negro. A dupla goiana que tornou-se cult no meio independente nacional não poupa ninguém, a começar pela capa que faz uma sacanagem explícita com o clássico Mellon Collie And The Infinite Sadness, épico álbum duplo do Smashing Pumpkins.
Ouça: “Jardineiro Carlos”, “Não Consigo Conter Tanta Alegria em Meu Coração”, “União Soviética”, “Eu Sou Tão Mau”, “Internação Hospitalar”

25 :: Arnaldo Baptista – Let It Bed (Independente)
Let It Bed é, essencialmente, uma obra de contrastes: lucidez versus insanidade, tecnologia versus tradição, lirismo versus devaneios, canções versus experimentações. É necessário um reconhecimento público para John [pela produção] e Lobão [pela heróica distribuição, através da revista OutraCoisa] e para o próprio Arnaldo, o grande artífice do disco. Um retorno digno do grandioso passado do eterno Mutante.
Ouça: "LSD", "To Burn Or Not To Burn", "Bailarina", "Deve Ser Amor", "Ai Garupa".

26 :: De Leve – O Estilo Foda-Se (Segundo Mundo)
Integrante do coletivo de rap Quinto Andar, Ramón Moreno saiu de Niterói para apertar o botão do foda-se e provocar um tsunami no showbizz brasileiro. O cara fala mal de tudo e de todos. Artistas, gêneros ou gravadoras, ninguém com “credibilidade” ou popularidade no mundo da música popular verde-e-amarela [ou com as caras, casas e bocas estampadas nas capas de revistas semanais de “personalidades”] é poupado de seus comentários ácidos e maldosos, seja nas entrevistas ou nas letras de música. Que, aliás, estão em um disco que pode ser baixado todinho da internet – afinal, se o álbum “saiu oficialmente” em 2004, as músicas já rodam na web desde o ano anterior, livres, disponíveis. Moreno a.k.a. De Leve arromba de vez a festa da música brasileira fazendo exatamente o contrário do que pregam o mercado fonográfico e a política da boa vizinhança que rege o primeiro escalão dos popstars tupiniquins. E além de muito hip hop e miami bass, o álbum traz um sambinha aqui, um jazzinho ali, reggae e dub acolá.
Ouça: “Pra Bombar no seu Estéreo”, “Rapper de Mentira”, “Sem Neurose”, “Menstruação”, “É Ming”

27 :: The Books – I Land (midsummer madness/Monstro)
Pavement, Sonic Youth, Dinosaur Jr, Superchunk... Este verdadeiro who’s who do rock alternativo americano mostra que nem todas as antenas do indie nacional melódico e guitarreiro captam ecos do passado e presente britânico. Liderado por um professor australiano que nunca mais saiu do Brasil [daí a habilidade para escrever letras em inglês que flutuam entre o humor, o sexismo e o nonsense] e guiado por riffs, linhas e dedilhados de guitarras – distorcidas ou não – esses paulistas congelam o tempo na primeira metade da década de 90 e produzem pérolas que, no meio de tanto pós-punk, soam como uma massagem diferente aos ouvidos.
Ouça: ”Three”, “Supermarket”, “Linda Lovelace”, “Sticks & Stones”, “Polly’s Song”

28 :: Superoutro – Autópsia de um Sonho (independente)
Dois dos grandes problemas dos medalhões da MPB chamam-se auto-indulgência e anacronismo. Aquele acontece quando eles passam a julgar-se maiores do que a própria obra, herança maldita carregada desde o congelamento criativo do primeiro escalão dos anos 70. E o segundo é conseqüência do primeiro. Explica porque quase nunca se reflete o tempo presente. Sonoridades, canções e cacoetes do passado são repetidos ad infinitum em busca de estabilidade mercadológica. Às vezes esses medalhões precisam aprender com novatos – como esses pernambucanos que fizeram um arrasador álbum de estréia unindo ontem e hoje, isto é, melodias completamente radiofônicas e populares com climas, distorções e efeitos que formam a ponte que liga o rock ao pós-rock.
Ouça: “Novos Monstros”, “Como Gritar”, “O Lago”, “O Castelo”, “A Nova”

29 :: Detetives – Nada Automático (Monstro)
Se você gosta de rock'n'roll, esse é o disco certo. Se você gosta de guitarras e baixos desenhando riffs por todo o arranjo, esse o disco certo. Se você se diverte ouvindo um vocalista argentino cantando em português carregado de sotaque, esse é o disco certo. No novo álbum do power trio paulistano, a produção não é tão suja quanto no trabalho de estréia. O som das guitarras está mais limpo, porém sem perder a força necessária. E se antes o grupo já mandava bem nas referências sixties [psicodelia, garage, surf music], agora o leque de sonoridades aumentou e está mais evidente uma certa preferência pelo pós-punk da ordem do dia.
Ouça: “Gotta Go!”, “Hotel Berlim”, “Nada Automático”, “Animal”, “Fracassado”

30 :: Leela – Leela (EMI)
Esse álbum tem muita história para contar. Produzida pelo Midas do pop tupiniquim [o mesmo Rick Bonadio que burilou para a fama discos de COM 22, Charlie Brown Jr, Mamonas Assassinas e, sim, Los Hermanos], a estréia fonográfica do Leela ficou meses na geladeira até encontrar um porto seguro na EMI para aterrissar nas lojas de discos. O grupo carioca, que já percorreu quase todas as capitais brasileiras e tocou em quase todos os principais festivais independentes, chega direto a um major sem medo de assumir seu objetivo pop. O casamento do power pop guitarreiro com letras sobre paixões, amores e problemas de casais [taí um link muito forte com um potencial público adolescente] mostra que fazer rock comercial no Brasil pode passar longe de qualquer significado pejorativo ou resultados que beiram a indigência criativa. E, sim, muitas meninas superpoderosas vão se identificar por causa do foco centrado na “vocalista-com-atitude-e-que-toca-guitarra”. E o som é mesmo bom.
Ouça: “Te Procuro”, “Ver O Que Faço”, “Qualquer Um”, “Prato Principal”, “Romance Fugitivo”



31 :: Los Diaños – Deixe o Suicídio Para Amanhã (Funeral/Barulho)
O que acontece quando músicos com background de jazz, surf music, billy e hardcore formam uma nova banda para personificar integrantes sem rosto e forjar uma identidade que mistura quadrinhos antigos e histórias de terror? A resposta está nesse divertidíssimo álbum de estréia de uma banda que ganha ainda mais força tocando ao vivo. Pensando bem, para quê se matar se você pode antes se acabar de dançar e pogar com os grooves pnksters sob o comando do trumpete histérico de um bem-humorado vocalista-cartunista. Não por acaso os tais diaños são uma das mais gratas revelações dos últimos anos da cada vez mais diversificada cena rock’n’roll de Curitiba.
Ouça: “O Sétimo Hula-Hula”, “Doutor Terror”, “Rapsódia Para Apito em Si Bemol Menor”, “Laurem”, “O Ataque das Mulheres Topeira”

32 :: Black Alien – Babylon By Gus Volume 1: O Ano do Macaco (Deck)
Imagine um disco de hip hop com mensagens somente positivas, palavrões ausentes, temas românticos, presença maciça de reggae e um vocalista que grava solo pela primeira vez depois de dez anos de carreira e inúmeros projetos. Defensor do freestyle – estilo de rap que deixa as rimas livres, no maior improviso – Gustavo Black Alien subverte os rumos originais do guetos do ritmo-e-poesia e procura seu caminho com a mesma calma e paciência que o levaram a esperar por mais de dez anos para gravar o álbum de estréia. Aqui há muito mais daquele rapper que colaborou com os vocais do Planet Hemp durante bom tempo nos anos 90.
Ouça: “Babylon By Gus”, “Mister Niterói”, “América 21”, “Como Eu Te Quero”, “U-Informe”

33 :: PexbaA – PexbaA (Amplitude)
Confrontar padrões e fugir das convenções são os dois principais objetivos destes mineiros que usam instrumentação básica de rock [guitarra, baixo e bateria] mais trumpete e programações para fazer seu free jazz à moda da casa. Explorando sonoridades através de línguas desconhecidas e limites desconhecidos, o PexbaA mantém em equilíbrio o nível de qualidade e estranheza em seu novo álbum. Sessenta minutos de novas descobertas para provar que refrões, riffs e palavras pertencentes ao vocabulário nosso do dia-a-dia são apenas coisas supérfluas.
Ouça: “Yaba”, “Vlu”, “Jombo”, “Birlium Barlium Bleum”, “Bermucio”

34 :: Zigurate – Zigurate (Clínica Pro Music)
Sete longos anos se passaram para que o tão sonhado álbum de estréia fosse lançado. Nesse meio-tempo, o quarteto gótico que usa e abusa de letras com simbolismos e esoterismo formou um repertório consistente, que foge da dicotomia emo-nü metal que anda embalando os atuais sonhos e pesadelos de quem freqüenta cemitérios e já adotou o preto como uniforme básico. O forte do Zigurate é a combinação de vocais ultramelódicos e por vezes etéreos [que chegam a lembrar uma facção do pós-punk oitentista menos popular, como o Cocteau Twins] com baixos e guitarras carregdaos de efeitos [como pedais flanger e chorus]. Isso resulta em uma infalível veia pop soturna, com alguns hits prontos para ultrapassar as fronteiras do underground curitibano e conquistar outros mundos.
Ouça: “Como Será”, “Nada Dura Pra Sempre”, “Despertar”, “Pedra”, “Adeus”

35 :: Vamoz! – To The Gig --- On The Road (Independente/Monstro)
Do folk rock envenenado e seventie de Neil Young [que é até homenageado em uma das faixas] à suavidade neofolk escocesa do Belle & Sebastian [mais lembrado por causa das vocais]. Assim vai o power trio recifense em seu primeiro disco, que dá uma amostra que na terra dos manguezais não existe apenas música boa com sonoridades brasileiras. O que manda aqui é a cartilha do rock. Belas melodias, guitarras escancaradamente alt-nineties – que remetem ao grunge e ao Dinosaur Jr – e uma pegada forte que funciona tanto em disco quanto em shows.
Ouça: “Beside”, “Beatles Com Chocolate”, “Letter”, “Heart Of Gold”, “Sweet Harmony”

36 :: Dodô Azevedo e Gustavo Seabra – Pessoas do Século Passado (Slag/Distribuidora Independente)
Jornalista e ex-baterista da Pelvs, Dodô Azevedo lançou recentemente um interessantíssimo livro sobre pessoas e tipos. Ao lado do vocalista do grupo carioca [e mais a participação de alguns amigos], gravou o que pode servir de trilha sonora hipotética para a obra literária. São oito faixas bastante depressivas, melancólicas, de andamento e melodia arrastada, perfeitas para ouvir sozinho no quarto e sem necessariamente o acompanhamento do livro [detalhe: em português, idioma até então desconhecido dos fãs dos trabalhos anteriores dos músicos]. No final, porém, vem a recompensa: um longo êxtase noisy-psicodélico, cheio de improvisos, distorções, microfonias, ruídos e solos da guitarra e bateria. Ou seja, uma explosão capaz de expurgar qualquer fossa madrugueira.
Ouça: “Coração Para Amassar”. “Alguma Coisinha”, “Se Eu Pudesse, Reencarnaria Vento ou a Cor Azul”, “Vai Doer, Mas Eu Quero”

37 :: China – Um Só (Cardume/EMI)
Se o Sheik Tosado lembrava uma espécia de Nação Zumbi tatibitate, seu vocalista China se lança em carreira solo pedindo passagem para se inserir no circo da MPB. Samba com rock e reggae, bossa com lounge, tudo com muitos efeitos e lisergia jorrada com naturalidade. Esse EP de seis faixas segue a linhagem da nordestinidade experimental que começou nos anos 70 e desembocou no manguebit. O futuro da MPC [música pernambucana conceitual] parece estar bem encaminhado.
Ouça: “Ultravioleta”, “Samba e Amor”, “Ainda Esquento o Barracão”, “Cristalino”, “Um Só”

38 :: Valv – The Sense Of Movement (midsummer madness)
Se elogios já foram arrancados após o primeiro EP e apresentações em alguns dos principais festivais independentes do país, isso tende a crescer para os mineiros. Afinal, o álbum de estréia é uma evolução do trabalho anterior. Guitarras – limpas ou distorcidos – continuam preenchendo com várias texturas os espaços deixados por melodias calmas e por vezes relaxantes. Emo, alt-rock, hardocre, noise e pós-rock continuam sendo os principais ingredientes dessa competente que não precisa trazer nada de novo para voltar a encantar.
Ouça: “The Sense Of Movement”, “God”, “Puck and The Needle”, “The Next Song”, “Between The Knees”

39 :: Romulo Fróes – Calado (Bizarre)
Os timbres graves do violoncelo e do trombone só servem para confirmar a tradição da trinca tristeza-fossa-melancolia que sempre marcou a música popular brasileira no decorrer do século 20. Discípulo confesso de mestres Lupicínio Rodrigues [por causa das letras de dor-de-cotovelo] e Paulinho da Viola [a leveza no fluir das melodias], Fróes enterra de vez as idéias de que São Paulo é o túmulo do samba e de que só selos dedicados a sonoridades anticonvencionais só lançam rock e afins.
Ouça: “Diferente de Quem Fica Rindo”, “Dentro do Peito”, “Só em Sonhos”, “Feliz”, “Voz Mais Triste”

40 :: Marcelo Bonfá – Bonfá + Videotracks (Giz/EMI)
Enquanto Dado Villa-Lobos ainda não tira seu Reino Animal da toca, Marcelo Bonfá aventura-se novamente em uma carreira solo que de tão pop pode chegar a assustar a quem se acostumou com aquela cara de menino tímido nos tempos de Legião Urbana. Letras românticas, ora muito politizadas e aquela carga de informações e sentimentos bastante naturais para quem veio da articulada Turma da Colina. Não bastasse a explícita intenção comercial mas sem abrir de qualidade e conceito, Marcelo ainda articulou uma idéia genial: encaixou um DVD bônus com videotracks. Isto é, imagens editadas por diretores e artistas gráficos e acoimpanhadas por remixes feitos especialmente para isso.
Ouça: “Intolerância”, “Balada # 9”, “Primavera” “Pleno Ar” “Canção de Despedida”

41 :: Picassos Falsos – Novo Mundo (Psicotrônica)
Aderindo ao levante do revival anos 80, os Picassos também voltaram a tocar. Só que em vez de celebrar as glórias do passado, optaram por olhar adiante e continuar escrevendo uma história como se o hiato de mais de uma década praticamente não tivesse existido. Neste novo mundo há tons nordestinos, sons de viola caipira, elementos jazzy, reminiscências do rock, um pouco de groove e muita paixão pelo samba. Bossa com guitarras. Carioquice noir e extremamente conceitual.
Ouça: “Rua do Desequilíbrio”, “Pra Deixar de Ficar Só”, “O Filme”, “Até Onde For Seguir”, “Me Diga Seu Nome”.

42 :: Che – Sexy 70 (Y-Brazil/Tratore)
Na década de 70, a reserva de mercado da hoje extinta Embrafilme permitiu que o cinema made in São Paulo sofresse um grande boom. Pequenos comerciantes financiaram uma profusão de obras baratas, nas quais as histórias eram menos importantes do que a protagonista gostosa ou as referências – implíctas ou não – a sexo. Contudo, o que marcou toda essa safra foram as trilhas sonoras instrumentais, recheadas de iguarias finas que fundiam bossa nova, soul, funk, samba e lounge. Eram grooves calientes pontuados por melodias traçadas através de instrumentos de sopro ou marimbas dissonantes. Empolgado com a mistura, o ex-baterista do Professor Antena decidiu recriar os climas daqueles filmes e – como alerta na capa – fez “música inspirada pelos ‘brazilian sacanagem movies dos seventies’”. E ainda colocou diálogos protagonizados pelos atores Paulo César Pereio e Helena Ramos, ambos figurinhas carimbadas dos sexy 70.
Ouça: “Pixoxó em Lua de Mel”, “Um Grapete Antes, Um Cigarro Depois”, “Vera, A Diaba Loira”, “Desejos Ardentes”, “O Eterno Pecado Horizontal”

43 :: Biônica – São Paulo Saloon: A Discoteca do Diabo (Navena)
De uns anos para cá, a escola do rock garageiro vem se proliferando no Brasil, graças à persistência de produtores e grupos como o Thee Butchers Orchestra. Um dos novos representantes chega ao primeiro álbum misturando diversão despretensiosa e versos em francês, berros viscerais e guitarras toscas, vocais femininos e masculinos, veia punk rock e o cotidiano punk de quem enlouquece e [sobre]vive em uma das maiores metrópoles do mundo. Caótica, nervosa, barulhenta, explícita, sincera. Assim é a personalidade “Biônica”, que só poderia ter sido desenvolvida na turbulenta cidade de São Paulo.
Ouça: “As Aventuras da Berne Biônica no País Tropical de Atabaques e Bananas”, “Romances”, “Bioníssima”, “Sofá Florido”, “Da Vez Em Que Fui Ao Supermercado e Resolvi Todos Os Meus Problemas de Ordem Emocional”.

44 :: Gilbertos – Deite-se Ao Meu Lado (midsummer madness)
Muita gente se lembra de Thomas Pappon como o jornalista de intensa atividade no meio cultural paulistano dos anos 80. Muita gente também se lembra dele como o habilidoso multi-instrumentista de grupos underground de São Paulo da década de 80. Thomas mora em Londres já há muitos anos e de vez em quando manda para cá notícias musicais sob o codinome de Gilbertos, uma one-man band que grava discos no estúdio de oito canais instalado na sala de sua casa. No segundo álbum, ele continua misturando o conceitualismo e uma certa dose de estranheza habituais dos tempos de Fellini com uma brasilidade mais acentuada, talvez fruto do trabalho nos programas sobre música tupiniquim na BBC. E aproxima-se de temas mais tristes, como o fim da adolescência, o fim do amor e até mesmo a morte um amigo querido – nesse caso, com uma música dedicada ao também músico e jornalista Celso Pucci, falecido em 2002.
Ouça: “Goodbye, Hombre”, “Mundo de Maravilhas”, “Fantasmas”, “Lá Vem Vocês”, “Dia D”

45 :: Hidra – Great Personality (Dykon)
Guitarras que se entrecortam por caminhos dissonantes. Vocais que também trafegam por linhas desconexas. Ausência de contrabaixo. O trio paulistano percorre os caminhos traçados pela facção mais melódica e menos politizada das riot grrrls dos anos 90 e que teve como expoente máximo outro trio, o Sleater-Kinney. Enche de nostalgia o peito dos apaixonados pelas correntes não-mainstream do alt-rock americano – como a fase áurea de selos como Matador e Kill Rock Stars, na segunda metade da década. E prova que a equação duas guitarras + uma bateria pode soar multimelódica e nem tão garageira como outros grupos conterrâneos e contemporâneos. Ouça: “The One”, “Only Mine”, “Dance”, “Slow Dance”, “Bitter Words”

46 :: Os Ambervisions – Bons Momentos Não Morrem Jamais (Migué/Monstro)
Os depoimentos dos Beatles, reproduzidos no encarte, dizem muito sobre a banda. Ao contrário da capa fofa,que nem de longe dá pista do tipo de som desses catarinenses que agora, após três anos de trajetória, lançam o segundo disco. Surf music com punk – ou surf music cavera, como eles preferem chamar – entregue toda em meia hora e com letras quase tão dementes e de baixo nível quanto a fama que cerca os integrantes Guilhermes [Zimmer e Arioli] e Amexa. E ainda tem a participação de Wander Wildner e Roger Moreira.
Ouça: "Pau no Cu do Iê-iê-iê", "Tele-Entrega Pra Fudê", "Visão de Raio-X", "Visite a Nossa Cozinha", "Pornoshop"

47 :: Headphone – Headphone (Pop Brasil 1)
Daniel Dias já havia inscrito seu nome no circuito independente naciobal desta década ao lançar o vídeo Música de Trabalho, no qual tira um raio x da produção underground de várias capitais nacionais do início dos anos 00. Não satisfeito com a promissora carreira de documentarista indie, decidiu se aventurar como músico. À frente de um quarteto baseado em São Paulo, ele ousa enfrentar convenções de fãs do britpop e apresenta as melodias do gênero ao português. São claramente perceptíveis as influências de Oasis, Verve, Travis e Teenage Fanclub. Mas o uso do idioma pátrio é o diferencial e atesta como versos despretensiosos podem gerar boas canções, mesmo com as dificuldades a mais da métrica e comprimento de nossas palavras.
Ouça: “Hoje”, “Me Perder (Viajar)”, “Minha Ilusão”, “Contradição no Fim”, “Ano Novo”

48 :: Continental Combo – O Homem Retalho (Question Mark/Sensorial)
Paisagens pintadas com chá ainda podem ser encontradas nos porões de São Paulo. A claustrofobia do grande centro urbano parece favorecer o aparecimento de bandas, bandos e combos que desafiam o concreto com seus devaneios psicodélicos e Rickenbackers. Foi com esse extended-play que o Continental Combo tocou essa singela face da cidade em 2004 e encantou os amantes de power trios à moda antiga. Sandro Garcia e Carlos Costa, ambos ex-Momento 68, mais Rogério Meni tiraram os casacos de seis botões dos armários e vestiram belas e confortáveis melodias. Interlúdios com slide guitar, letras outonais e arranjos delicados fazem deste disco embebido em Who, Byrds e Soft Machine um vinho envelhecido pronto para ser servido nos anos 00.
Ouça: “O Homem Retalho”, “Continental Fox Trot”, “Paisagem Pintada Com Chá”, “Na Grande Cidade”

49 :: Blanched – Blanched Toca Angelopoulos (Independente)
Capa em sépia meio desbotado, título que faz referência a “cinema europeu” [mais especificamente o grego Theo Angelopoulos, diretor de Paisagens na Neblina], suítes que podem durar até doze minutos, cinco faixas apenas, poucos vocais em pleno murmúrio, gaita e flauta transversal no meio de guitarras explosivas. Vindo da cidade gaúcha de Novo Hamburgo [próxima a Porto Alegre], o grupo firmou-se no meio dos post-rockers brasileiros com o segundo extended-play da carreira, uma combinação de melancolia pungente e poesia em tons pastéis.
Ouça: “Tristes dos que Procuram Respostas Dentro de Si Porque Lá Só Há Espera”, “Cada Um”, “Hoje Eu To Melhor”, “Um Palhaço No Campo de Concentração”, “Casa de Descanso”

50 :: Killi – Contando os Dias (F Records)
No ano em que o hardocre brasileiro comprovou sua força comercial perante à molecada de grandes e pequenos centros também ficou evidente a fraqueza lírica e vocal dos maiores expoentes do gêneros. Afinal, não teve como esconder as melodias de quase uma nota só, mal berradas e com versos que reproduzem lugares-comuns do protesto e da explosão sentimental. Por isso o Killi destaca-se trazendo justamente o contraponto da indispensável urgência rítmica e agressividade das guitarras. O predominante vocal feminino, doce e bem afinado sobretudo na sustentação das notas finais, traz letras que relatam ocorrências, dúvidas e certezas do cotidiano das garotas – daí a singela capa, com uma menininha rosa olhando a noite estrelada pela janela. E tem até backings, o que de certa forma aproxima o quarteto paulista do mesmo bubblegum que serviu de inspiração máxima para Joey Ramone.
Ouça: “Posso”, “Tudo a Perder”, “Pra Te Lembrar”, “Anti-Social”, “Nananá”

* Com a colaboração de Jonas Lopes, Juliana Zambelo, Leïlah Accioly e Ricardo Schott.


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