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ESPECIAL - Melhores de 2004
Escrito por Abonico Ter, 29 de Abril de 2008 14:24
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Os 50 melhores álbuns internacionais
Esta foi uma temporada marcada por revivals. Gente que havia anos não lançava um álbum inédito voltou com força total. Basta ver o que Morrissey, Cure, Fatboy Slim e Beastie Boys fizeram. Até Brian Wilson deu as caras, terminando 37 anos depois um álbum inacabado. Também foi o período em que novatos como Kasabian, Futureheads, Killers e Franz Ferdinand surgiram como furacões, envolvendo tudo e todos ao redor já no primeiro álbum. E países como Canadá e Suécia se firmaram como celeiros do novo pop. Saiba aqui quais foram os 50 discos internacionais lançados que fizeram história em 2004. Textos escritos por Abonico R. Smith.*
Moz enlouqueceu os fãs após sete anos sem lançar um disco inédito.
1 :: Morrissey – You Are The Quarry (Attack/BMG) :: Franz Ferdinand – Franz Ferdinand (Domino/Trama)
Empate. Sim, um empate. Não há como escapar. Em vez de uma injusta decisão na moedinha ou na loteria por pênaltis, é melhor declarar o título dividido. Meio a meio. Eles merecem. Vejamos... Ídolo. Fãs. Fã. Ídolos. Veterano de muitos hits e discos, de volta ao mercado fonográfico após um longo hiato não-intencional de sete anos sem qualquer lançamento inédito. Novatos que conquistaram o mundo já no primeiro álbum. Um veio do pós-punk britânico anos 80, que assombra nossos dias como influência magna de novíssimas bandas e vertentes. Outros são expoentes do novo pós-punk que toma conta do planeta na ordem do dia. Ambos fizeram discos arrasadores, deliciosos, que pedem para ser ouvidos e cantados bem alto de novo e de novo e de novo ao fim de cada audição. Ambos emplacaram uma sucessão de hits. Ambos com vários videoclipes. Nove singles no total. Quem ousaria fazer a balança pender para algum lado?
Ouça: “The First Of The Gang To Die”, “Irish Blood English Heart”, “Let Me Kiss You”, “I Have Forgiven Jesus”, “The World Is Full Of Crashing Bores” [Morrissey] :: “Take Me Out”, “Darts Of Pleasure”, “Michael”, “This Fire”, “The Dark Of The Matinée” [Franz Ferdinand]
2 :: Libertines – The Libertines (Rough Trade/Trama)
The Libertines ou a história de uma tragédia anunciada. Pete Doherty não morre de overdose, mas seu vício abrevia a curta e promissora carreira de uma das maiores bandas inglesas da década. Tudo parece estar bem durante as gravações. Vocalista limpo; uma história de mágoas, traição e prisão deixada para trás; dois amigos trocando tatuagens e juras de amor eternas. Doce ilusão. Pete nem dá para a saída e antes mesmo do grupo sair em turnê acaba afastado por Carl Barât e o manager Alan McGee [homem que criara os selos Poptones e Creation e “descobrir” gente como Oasis, Jesus & Mary Chain, Teenage Fanclub, Primal Scream e Hives]. Passa Dezembro, o fim extra-oficial do Libertines é anunciado e Doherty segue em frente com seu novo projeto, Babyshambles. Como epitáfio, é deixado um disco cru e punk – com ligações explícitas com o Clash [produtor Mick Jones e o mesmo engenheiro de áudio de London Calling]. As letras, autobiográficas e sinceras ao extremo, expõem como feridas em carne viva as tretas entre Pete e Carl, como na tocante “Can’t Stand Me Now”. No fim, uma espécie de premonição em “What Became Of The Likely Lads”. Este álbum é o retrato cruel de artistas quando jovens e de uma sensacional banda em decomposição.
Ouça: “Can’t Stand Me Now”, “What Became Of The Likely lads”, “Last Post On The Bugle”, “What Katie Did”, “The Man Who Would Be King”
3 :: Killers – Hot Fuss (Island/Universal)
Contundentes versos sobre ambigüidade, rejeição, culpa, inveja, ciúmes, desculpas, Monet, indie rock e... Rio de Janeiro. Três hits irresistíveis e um “resto de disco” de primeira linha. Muitas guitarras, muitos teclados. Carregadas texturas góticas. Pop assumido, com canções compostas e estruturadas “para dar certo”. Cure + Talking Heads + New Order + PiL + Beatles. Tecnopop + disco music + pós-punk + britpop. Tudo isso vindo de Las Vegas, terra dos hotéis de luxo, cassinos com luminosos espetaculares, lutas milionárias de boxe, Frank Sinatra, Elvis completamente decadente e tradição zero no rock alternativo.
Ouça: “Mr Brightside”, “Somebody Told Me”, “Jenny Was A Friend Of Mine”, “Smile Like You Mean It”, “Everything Will Be Alright”
4 :: Cure – The Cure (I Am/Geffen/Universal)
A fênix renasce bela e formosa. Um quarto de século depois do primeiro disco, Robert Smith tem peito suficiente para encarar novos desafios. Assina contrato com um pequeno selo independente, delega toda a produção a alguém “de fora” [Ross Robinson, nome de sucesso por trás da primeira geração nü metal, dono do tal selo] e faz o álbum mais apaixonado da história de sua banda. O mesmo preto de antes, o mesmo batom borrado de antes, o mesmo cabelo desgrenhado de antes. Mas com a energia criativa revigorada. Pesado quando necessário. Pop sempre que possível. Visceral como você quase nunca havia visto. A viagem mais deliciosa pelo mondo Cure dos últimos tempos.
Ouça: “The End Of The World”, “Taking Off”, “Lost”, “Before Three”, “Anniversary”
5 :: Futureheads – The Futureheads (679, importado)
Se muito se falou em pós-punk no ano passado, este quarteto britânico fez jus a uma faceta do punk rock que há muito tempo andava em baixa: a da celebração. Riffs tão urgentes quanto minimalistas [que em muitas vezes chega a lembrar pérolas dos tempos da new wave como Devo e a one-hit band Knack] forram o terreno para melodias contagiantes [Buzzcocks? Undertones?] e ainda uma inusitada cover de Kate Bush. É, as cabeças do futuro mais uma vez olharam para o passado para regurgita-lo em forma de festa. Como diria o Franz Ferndinand, viva “as músicas feitas para as garotas dançarem!”.
Ouça: “Decent Days And Nights”, “Hounds Of Love”, “A To B”, “Robot”, “The City Is Here For You To Use”
6 :: Kasabian – Kasabian (Arista/BMG)
No logotipo, um terrorista mascarado. No batismo, o sobrenome da mulher encarregada de dirigir o carro que levou a Família de Charles Manson à casa onde a atriz Sharon Tate e alguns amigos foram covardemente assassinados. Apesar das referências, a violência aqui fica a cargo de uma música imposta para bater o pé insistentemente nas pistas de danças. Big Beat, dub primalscreamanesco, glam, funk e pós-punk são partes importantes deste delicioso quebra-cabeça liderado por Serge Pizzorno. Mas o que domina aqui é mesmo o carregamento de influências madchester: grooves baggy e exagerada dose lisérgica em melodias e harmonias.
Ouça: “L.S.F. (Lost Souls Forever)”, “Reason Is Treason”, “Club Foot”, “Processed Beats”, “Butcher Blues”
7 :: Danger Mouse – The Grey Album (apenas download na internet)
No início vêm os bootlegs, sobreposições de bases e vocais de músicas e artistas completamente diferentes, feitas de modo caseiro e por pura diversão, mas que funcionam muito bem também nas pistas de dança. O produtor Danger Mouse, contudo, segue além. Pega todas as faixas gravadas pelos Beatles no chamado White Album [na verdade, o disco The Beatles, de 1968], transformou as harmonias e adicionou os vocais do rapper Jay-Z no recente Black Album. Ao colocar o preto no branco, gera o “álbum cinza” e um meio-tom de grande polêmica ns bastidores. Possessa com a ousadia e com a questão de direitos autorais, a EMI, detentora da obra completa dos Fab Four, veta o lançamento “misto”. Danger Mouse – que teria de pagar metade dos direitos autorais para os Beatles e a outra metade para Jay-Z – recorre a uma saída de mestre: impossibilitado de comercializar seu disco, disponibiliza gratuitamente todas as faixas na internet. Com isso, se não ganha dinheiro, pelo menos recebe todos os créditos. Hoje, enquanto você baixa faixa por faixa, a indústria fonográfica quebra a cabeça para frear o trem-bala das novas revoluções.
Ouça: “99 Problems”, “Changing Clothes”
8 :: Concretes – Concretes (Astralwerks, importado)
Se a justiça tarda mas não falha, a orquestra pop sueca formada há dez anos está aí para comprovar o provérbio. Em 2000, uma tragédia ocorria logo após o lançamento do álbum de estréia: o dono do selo independente que lançara o grupo morreu de leucemia, deixando os músicos a ver navios. São necessários outros quase cinco anos para que o mundo conhecesse a riqueza sonora do octeto liderado pela doce vocalista Victoria Bergsman. Com o apoio de um selo forte e tendo o segundo álbum lançado nos Estados Unidos e Inglaterra, não é difícil para o coquetel de fofura e refinamento sonoro conquistar ouvidos up to date. Velvet Underground encontra Motown [Supremes, sobretudo], que encontra Mazzy Star, que encontra uma diluição do pós-punk. Harpas, violinos, bandolins, órgãos e trompetes recheiam um esqueleto que passeia entre o ligeiramente dançante e muitas faixas em compassos ternários. Diversão garantida em Estocolmo, Londres ou qualquer lugar do planeta.
Ouça: “You Can’t Hurry Love”, “Chico”, “Say Something New”, “Diana Ross”, “Warm Night”
9 :: Razorlight – Up All Night (Vertigo, importado)
Tem Cure, tem Smiths, tem Gang Of Four, tem Clash, tem Buzzccoks... No caldeirão mágico deste quarteto inglês-parte-sueco o que não falta é referência aos bons sons do rock britânico de um passado não muito distante. Tem também grandes melodias, daquelas bem pegajosas e que, coladas com riffs certeiros, não deixa ninguém parado, Isso explica o sucesso quase instantâneo do Razorlight, que foi figurinha carimbada nos principais festivais de temporada, tocou bastante nas rádios britânicas e teve singles ecoando como grandes hits na boca do povo.
Ouça: “Golden Touch”, “Rip It Up”, “Rock’n’Roll Lies”, “Leave Me Alone”, “Stumble And Fall”
10 :: Interpol – Antics (Matador, importado)
Maturidade é chegar ao segundo álbum sem repetir as fórmulas que deram certo no disco anterior e ainda produzir um trabalho linear em matéria de qualidade, onde uma faixa não se destaque muito mais do que as outras. Assim é o tão esperado segundo disco do quarteto que soube traduzir em notas musicais o lado soturno, melancólico e desesperançado de Nova York que o mundo descobriu depois do 11 de Setembro. A negritude com um pé e meio na cold wave e pós-punk britânicos dos early eighties permanece, porém, um pouco menos acentuada, perdendo força para uma nítida polidez pop. Os vocais de Paul Banks, menos graves, deram um pequeno pulo à frente dos instrumentos. As quebradas da batida disco surgem com um pouco mais de força. Quem agradece somos nós, que ganhamos a certeza de que mais uma promessa dos anos 00 veio para ficar. O Interpol mostra com esse para onde vai. Bem distante...
Ouça: “Evil”, “Slow Hands”, “C’mere”, “Narc”, “Not Even Jail”.
11 :: Ordinary Boys – Over The Conter Culture (B-Unique, importado)
A tradição já é secular na arte britânica. Desde a literatura do Século 16 – com a publicação do romance Arcádia que conflitos e entre classes sociais é tema recorrente. Na música pop, então, nem se fala. Décadas atrás, havia quem refletisse muito bem sobre todas as diferenças e questionamentos do assunto, como Kinks, Jam e Smiths. Depois até que o Blur tentou seguir pelo mesmo caminho, agora retomado com afinco pelo Libertines e, mais recentemente, o Ordinary Boys. Falando sobre revoluções de fim-de-semana, revirando o cotidiano enfadonho da classe média e criticando ferinamente a imprensa musical [desde o “I use the enemy” (NME), dos Sex Pistols, não havia sido composto algo tão contundente como os versos do OB que acusam os jornalistas de “pervertores da opinião pública”], esta é uma das mais festejadas estréias de 2004. Claro que com boa carga genética dos Smiths. No nome, nas letras, nas batidas, no jeito de cantar.
Ouça: “Maybe Someday”, “Week In, Week Out”, “The List Goes On”, “Settle Down”, “Weekend Revolution”
12 :: Dears – No Cities Left (SpinArt, importado)
Depois desses queridos, a bordão “Blame it on Canada”, eternizado pelo longa-metragem da série South Park perde completamente o sentido. O país, alvo de gozações por exportar artistas “de mau gosto”, vira o jogo e passa a dar as cartas. Um dos expoentes dessa nova “invasão canadense” é esse sexteto de Montreal. A voz pode parecer – e muito – com a de Damon Albarn e um quê de Smiths aparece aqui e acolá – nos vocais, nas letras pessoais, nos sentimentos. No geral, entretanto, o grupo é uma rica confluência de ecos e estilos [glam, pop, alternativo, art rock, easy listening, minimalismo, dub]. Parece ter sido feito sob encomenda para quem se derrete com sonoridades fofas.
Ouça: “Lost In The Plot”, “We Can Have It”, “Who Are You, Defenders Of The Universe”, “22 The Death Of All The Romance”, “Postcard From Purgatory”
13 :: Coco Rosie – La Maison de Mon Reve (Touch And Go/Peligro)
Dois vocais femininos estridentes, muito agudos, ora sussurrados, ora operísticos. Um acompanhamento básico do violão folk, pianos minimalistas, algumas flautas e efeitos percussivos caseiros. Gravação extremamente lo-fi, feita na sala de casa. Assim é o CocoRosie, projeto das Irmãs francesas Sierra e Bianca Casady, que de Paris exportaram uma das mais surpreendentes revelações de 2004. Folk e blues dos bons e – o melhor – procurando novas alternativas sonoras, longe de repetir fórmulas surradas do gênero. E o álbum de estréia ainda traz letras com citações que vão de Jesus Cristo a Jim Morrison.
Ouça: “Good Friday”, “Not For Sale”, “Jesus Loves Me”, “Butterscotch”, “Terrible Angels”
14 :: Fatboy Slim – Palookaville (Epic/Sony)
Ele é fera. Quando tudo indicava que não parecia mais haver saída, Fatboy Slim vira o disco e recomeça a festa. Depois de emplacar hits como “Rockafeller Skank” e “Praise You”, videoclipes fantásticos e quebrar o recorde mundial de público de um artista de música eletrônica [tocou para 360 mil pessoas em março último, no Rio de Janeiro], o funksoulbrother faz outro disco sensacional. Convida alguns ilustres, incluindo o baixista funkadelic Bootsy Collins e o amigo Damon Albarn. Mixa novos beats irresistíveis com rock, britpop e muita black music. Como se não bastasse, ainda dá um passeio por sonoridades calientes dos trópicos, com direito a bossa nova, dancehall, bhangra e samba... E faz nascer um novo disco tão bom quanto os anteriores. Sem repetição de fórmulas ou caricatura de si próprio. Muito megastar por aí deveria aprender com ele.
Ouça: “Wonderful Night”, “The Joker”, “Don’t Let The Man Get You Down”, “Slash Dot Dash”, “Push And Shove”
15 :: Beastie Boys – To The 5 Borroughs (Capitol/EMI)
Nos últimos anos nunca um artista fez um álbum tão apaixonado para sua cidade. Mais do que uma carta aberta para Nova York, o retorno do Beastie Boys após seis anos de afastamento fonográfico é uma declaração de amor à maior metrópole do mundo. Sob as turbinadas bases e colagens sonoras do DJ MixMaster Mike, os rappers King AdRock, MCA e Mike D propõem o renascimento de alegria, a volta da festa e o afastamento definitivo do medo e negativismo que instalaram-se na cidade após os atentados ao World Trade Center. De quebra, atacam várias vezes o extremismo reacionário do atual governo americano e o próprio George W. Bush em pessoa. É o disco mais político e maduro do trio.
Ouça: “Ch-Check It Out”, “3 The Hard Way”, “Triple Trouble”, “An Open Letter To NYC”, “Right Roght Now Now”
16 :: Le Tigre – This Island (Mr Lady, importado)
Elas não falam de flores, apesar do chicletudo vocal bubblegum e quase sempre dobrado. Liderado pela eterna riot grrrl Kathleen Hanna, o trio de ativistas feministas ataca de novo atirando sua verborragia contra seus temas prediletos: sociedade machista, injustiças sociais, diferenças, preconceito, White power, pena de morte, guerras. Neste disco, um acréscimo especial: George W. Bush também virou alvo fácil, por causa de sua intensa campanha para a reeleição. O arsenal sonoro é poderoso: punk, hardcore, electro, rap old skool, disco, ragga e até uma bossa nova meio disfarçada. Tudo sempre com muitos sintetizadores, batidas eletrônicas irresistíveis em qualquer pista de dança e uma ou outra guitarra remanescente dos tempos em que Hanna era conhecida como a peça central do Bikini Kill. Depois desse disco, não tem como não sair dançando pela sala gritando “peace!”. Nem que para isso se faça muita guerra. Sem sangue ou violência, mas com palavras e inteligência.
Ouça: “Nanny Nanny Boo Boo”, “TKO”, “New Kicks”, “Tell You Now”, “Punker Plus”
17 :: Elliot Smith – From A Basement On The Hill (Domino/Peligro)
“Escrito, tocado, produzido e gravado por Elliott Smith”, diz o encarte. O gênio indomável do folk rock ianque [com grandes pitadas de psicodelismo] morreu sem completar seu epitáfio. Suicídio ou assassinato, ninguém sabe até hoje o que realmente aconteceu – tanto que o caso foi reaberto pela polícia americana. O disco, que vinha sendo adiado sucessivamente por causa de problemas pessoais, foi deixado apenas nos rascunhos. O produtor original, David McConnell, foi afastado das conclusões do trabalho, por decisão da família. Elliott queria um som mais sombrio, talvez retratando o período pelo qual estava passando. Rob Schnapf, colaborador de longa data do cantor, e a baixista Joanna Bolme, ex-namorada de Smith e integrante dos Jicks de Stephen Malkmus, foram recrutados para acabar a obra inacabada. McConnell reclamou, dizendo que o disco fora “branqueado”. Com maquiagem ou não, saiu tão belo quanto perturbador. Tal qual mente e carreira do artista.
Ouça: “Coast To Coast”, “A Fond Farewell”, “Shooting Star”, “A Distorted Reality Is Now A Necessity To Be Free”
18 :: Charlotte Hatherley – Grey Will Fade (Double Dragon, importado)
Estava demorando para Charlotte dar o ar de sua graça separadamente de sua banda. Mas basta o Ash levar sua carreira em lo-fi em 2004 que a guitarrista aproveita para gravar o álbum solo que prometia há tempos. Resta agora a dúvida: por que ela não conseguiu fazer isso antes? Longe de seus companheiros irlandeses, a bela Charlotte amacia as guitarras, concentra o foco nas melodias e gera um grande disco de bubblegum, com raízes diretas em clássicas animações de Hanna-Barbera [como Banana Splits e Josie & As Gatinhas]. Com enxertos de pianos honky tonky, riffs krautrock e histórias chicanas, então, ela vai longe demais. Já que o fogo das Cat Powers e PJ Harveys anda meio apagado, fica a torcida para que Hatherley vá de novo ainda mais longe ainda.
Ouça: “Kim Wilde”, “Summer”, “Paragon”, “Stop”, “Bastardo”
19 :: Arcade Fire – Funeral (Merge/Peligro)
Liderado pelo casal Win Bulter [um apaixonado por Cure, sobretudo “Just Like Heaven”] e Régine Chassagne [baterista, ex-vocalista de jazz e dona de um vocal agudo, inocente e pueril feito o de Björk], o canadense Arcade Fire faz um pop classudo, cheio de referências [que vão de Gainsbourg a Pulp] e uso de muitos violões, violinos e xilofone – clara influência do avô de Win e seu irmão Will [também integrante da banda], que foi bandleader nos tempos da Segunda Guerra Mundial. Esse avô morreu durante a gravação do álbum, assim como a avó de Régine. Isso explica o título e os ares tristonhos do disco de estréia, que de estréia saiu em setembro pelo selo de dois integrantes do Superchunk.
Ouça: “Neighborhood #1 (Tunnels)”, “Neighborhood #2 (Laika)”, “Neighborhood # 3 (Power Out)”, “In The Back Seat”, “Rebellion (Lies)”
20 :: Gwen Stefani – Love. Angel. Music. Baby. (Interscope/Universal)
Ela é uma menina esperta. Quando viu que sua banda já havia tudo o que poderia, engatilhou uma carreira solo popésima, não sem antes “preparar a cama” gravando os últimos suspiros do No Doubt com batidas eletrônicas e releitura de um sucesso tecnopop dos anos 80. Agora, misturando moda e música, Stefani mostra que deu o passo certo. Fez um álbum recheado de hits em potencial, prontos para serem descobertos por pistas e rádios neste ano. Cuidem-se, Madonna e Britney. Gwen Stefani já está aí. Sedenta para ocupar o trono. Suas vantagens: uma veia rock’n’roll que as concorrentes não têm e uma bela mão de Andre 3000...
Ouça: “What You Waiting For”, “Hollaback Girl”, “Rich Girl”, “Bubble Pop Electric”, “Long Way To Go”
21 :: Brian Wilson – Smile (Nonesuch/Warner)
Definitivamente o disco mais longo da história da música pop. Levou 37 anos para ser concluído e lançado. Tudo começou em 1967. Brian Wilson, já afastado das turnês e viagens dos Beatie Boys, ficava trancado em estúdio, concebendo e criando as músicas e arranjos que irmãos, primo e vizinho gravavam. Ele já havia feito Pet Sounds, influenciado Beatles e mais um monte de gente. Mas para ele não era o suficiente. A procura pela perfeição extrema levou-o a conceber uma “sinfonia adolescente para Deus”. Embarcou na viagem de Smile e encontrou a loucura, que interrompeu bruscamente sua carreira e afastou-o do showbiz até recentemente. No ano passado Wilson finalizou o álbum cujas sessões iniciais perambulavam pirateadamente na internet. Levou o repertório todo para o palco e deu ao mundo mais uma obra-prima do rock polifônico que iniciara em Pet Sounds.
Ouça: “Good Vibrations”, “Heroes And Villains”, “Surf’s Up”, “Song For Children”, “On A Holiday”
22 :: Modest Mouse – Good News For People Who Love Bad News (Epic/Sony)
Durante anos eles sobrevivem como queridinhos do circuito alternativo norte-americano. De repente, tudo muda e a cidade de Seattle volta a ser o foco das atenções. O vocalista Isaac Brock desiste de cantar versos sobre o lado sombrio do mundo e suas angústias pessoas. Basta promover reflexões positivas sobre a vida. Pronto! Sucesso imediato em todas as rádios e paradas americanas. Tudo isso sem se esquecer da identidade que marcara o grupo até então – muitos riffs de guitarra e vocais inconfundíveis. Esse disco tem também o megahit “Float On” (com clipe de colagens surrealistas para-lá-de-Talking-Heads), muita reminiscência do rock eightie e a participação especial de Wayne Coye, do Flaming Lips. Tocou na rádio aqui? Não. Mas quem se importa com esse pequeno detalhe ainda?
Ouça: “Float On”, “The Good Times Are Killing Me”, “The World At A Large”, “Satin In A Coffin” e “One Chance”
23 :: TV On The Radio – Desperate Youth, Blood Thristing Babies (Touch And Go/Peligro)
Há quase trinta anos, o Clash promovia o encontro da atitude punk com os grooves do reggae, bastante presentes nos guetos repletos de descendentes de colônias inglesas do Caribe. Hoje, em Nova York, o quarteto TV On The Radio leva a crueza e o do-it-yourself a se encontrarem com gêneros primordiais da black music americana, como o soul e o doo-wop. Guitarras penetram os grooves com seus riffs pontiagudos, enquanto o vocalista Tunde Abepimbe arranca agudos e sentimentos de suas entranhas vocais e o multi-instrumentista/produtor David Andrew Sitek dá mais um show, repetindo a contundência de seus trabalhos anteriores ao lado do Yeah Yeah Yeahs.
Ouça: “The Wrong Way”, “Ambulance”, “Wear You Out”, “Poppy”, “Bomb Yourself”
24 :: Thrills – Let’s Bottle Bohemia (Virgin/EMI)
Cordas, piano, percussões, belas melodias. Herdeiros diretos das sinfonias polifônicas compostas por Brian Wilson nos áureos tempos do Beach Boys, esses irlandeses ainda captaram Van Dyke Parks – o homem que trabalhou com Mr. Wilson em seus principais discos – para dar uma ajudinha. O resultado não poderia a ser outro senão um disco delicioso, alegre, cheio de refrões e melodias que grudam na cabeça. As letras do vocalista Conor Deasy ainda esbanjam ironia para todos os lados, seja em um relacionamento a dois ou para fazer críticas de cunho político ou social. Segundo álbum que mostra mais uma banda nova que veio para fazer bela carreira.
Ouça: “Whatever Happened To Corey Haim?”, “Faded Beauty Queens”, “Tell Me Something I Don’t Know”, “Saturday Night”, “You Can’t Fool Old Friends With Limousines”
25 :: Nick Cave & The Bad Seeds – Abattoir Blues/The Lyre Of Orpheu (Mute, importado)
Que as músicas de Nick Cave sempre se assemelharam a hinos religiosos é notório. Dessa vez, porém, o pregador excedeu todos os seus limites. Fez dois álbuns – distintos porém complementares – fundindo a visceralidade costumeira de suas performances à frente de sua banda fiel com um elemento a mais: coro gospel. E foi justamente nesse retorno às raízes do rock que o australiano deu mais peso ainda a suas letras verborrágicas, carregadas de simbolismos e referências de filosófico-religiosas. Ah sim, a primeira faixa do primeiro disco traz guitarras distorcidas e vocais berrados. Nick Cave tão barulhento como nunca havia sido visto antes.
Ouça: “There She Goes, My Beautiful World”, “Children”, “Get Ready For Love”, “Spell”, “Hiding All Away”
26 :: Dizzee Rascal – Showtime (XL/Sum)
Rascal fala rápido e tem um ritmo bastante peculiar na entonação e no jeito de cantar. Só isso já bastaria para chamar a atenção. Mas ele ainda discursa sobre bases minimalistas, com bases por vezes exóticas – com a presença de cavaquinho, orientalismos e muita percussão africana – e sempre muito dançantes. Abusando da auto-referência nas letras e com sacadas engraçadas como o verso “I had never played ‘Hey Ya’” [na letra de “Stand Up Tall”, que parece estar trilhando o mesmo caminho de superexposição do hit do Outkast], ele trata em seu segundo álbum da fama repentina conquistada no início de carreira. E faz mais um disco de primeira.
Ouça: “Stand Up Tall”, “Girls”, “Learn”, “Dream”, “Knock, Knock”
27 :: Hives – Tyranossaurus Hives (Universal)
Punk, protopunk, hardcore, glam, glitter... É muito interessante como o Hives consegue se reinventar em seu microcosmo de poucos acordes, batidas minimalistas e células musicais repetitivas. E – acredite – faz um disco tão bom quanto o outro. Com o bom humor em alta – conforme provam os infames títulos do disco e de faixas como “B Is For Brutus” e “Abra Cadaver” – e agora equilibrando a tosqueira das guitarras com sintetizadores não menos sujos, os suecos passaram com classe para uma major. Aliás, a mesma classe com que ainda vestem seus terninhos two-tone.
Ouça: “Walk Idiot Walk”, “Two-Timing Touch And Broken Bones”, “A Little More For You”, “Dead Quote Olympics”, “Abra Cadaver”
28 :: Manic Street Preachers – Lifeblood (Epic/Sony)
Richey Edwards sumiu há dez anos e seus ex-companheiros continuam tirando forças não se sabe de onde para fazer discos de ótima qualidade, sempre um trabalho diferente do outro. A novidade aqui é a queda para o groove. Apesar das guitarras de James Dean Bradfield e seus vocais que entoam verdadeiros hinos, o MSP começa a flertar com as pistas de dança e ecos do pós-punk britânico dos anos 80. Só que em vez de letras sem conteúdo, eles continuam mantendo o nível sócio-político lá em cima. Os alvos deste álbum são a glasnost – a abertura política da antiga União Soviética, encaixada aqui como metáfora em versos de amor – e o ex-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon – escancaradamente escrachado pelos galeses.
Ouça: “The Love Of Richard Nixon”, “1985”, “Glasnost”, “Always Never”, “Solitude Sometimes”
29 :: Air – Talkie Walkie (Astralwerks/EMI)
Um pouco mais distantes daquela enxurrada de sintetizadores e timbres vintage de seu álbum de estréia, Nicolas Godin e Jean-Benoit Dunckel embarcaram naquele que é o trabalho mais pop da carreira. Entre arranjos cheios de clima e pequenas obras-primas instrumentais [como “Alone In Kyoto”, faixa feita para Sofia Coppola e seu filme Encontros e Desencontros e também incluída aqui], a dupla francesa oferece um punhado de melodias chicletudas, que podem vir cantadas ou até mesmo assoviadas. Funciona na poltrona, no computador, na pista, no carro...
Ouça: “Alpha Beta Gaga”, “Surfing On A Rocket”, “Cherry Blossom Girl”, “Alone In Kyoto”, “Venus”
30 :: Kings Of Leon – A-Ha Shake Heartbreaker (Arista/BMG)
O rock tosco dos irmãos Followil [Caleb, Nathan, Jared] e seu primo [Matthew] continua em alta. A receita é praticamente a mesma do álbum de estréia, que colocou a família do Tenessee entre as mais celebradas novidades do rock. Tem o vocal fanho e largado de Caleb, as melodias cantaroláveis em qualquer situação, as guitarras sujas e mal-tocadas e todo aquele não-virtuosismo que não havia na geração seventie do southern rock... Em suma, aqui está mais um exemplo de como o punk pode beber e brigar no bar de um saloon podre no interior americano.
Ouça: “The Bucket”, “King Of The Rodeo”, “Soft”, “Velvet Snow”, “Day Old Blues”
31 :: Graham Coxon – Happiness In Magazines (Parlophone/EMI)
Se o Blur foi o maior rival do Oasis durante o auge do britpop nos meados dos anos 90, não tenha a menor dúvida: coloque a culpa em Graham Coxon. Quieto, tímido, escondido atrás de sua guitarra e dos óculos de aro grosso preto, este fã de rock alternativo americano jorrou riffs, texturas e harmonias suficientes para o quarteto britânico acumular hits e fãs ao redor do planeta. Damon Albarn em sua fase egocêntrica pós-Gorillaz parece ter se esquecido disso. Em meio a discordâncias quanto aos caminhos sonoros do último álbum do Blur, Graham “é saído” da banda. Retomando a carreira solo que mantinha como atividade paralela, Coxon junta-se a um dos papas do pop britânico, o produtor Stephen Street. Enquanto seus ex-companheiros naufragam em meio a um inócuo disco nem rock nem world music nem eletrônico [e que fora metralhado pela crítica e mal recebido pelo público], Graham lança um álbum fazendo tudo aquilo que sempre fizera no Blur, faz mais sucesso que sua ex-banda e lembra todo mundo como ela já foi boa um dia. Tapa de luva de pelica.
Ouça: “Bittersweet Bundle Of Misery”, “Are You Ready?”, “Hopeless Friend”, “Don’t Be A Stranger”, “Freakin’ Out”
32 :: Hope Of The States – The Lost Riots (Epic/Sony)
Durante a concepção do álbum, James Lawrence, um dos três guitarristas, matou-se após um dia de gravações. O gosto de estréia por uma gravadora de grande estrutura não poderia ter sido mais amargo para esses ingleses, cujas principais são características versos tão políticos quanto melancólicos, o vocal aconchegante de Sam Herlihy e a presença de um violinista [Mike Siddell] na formação, o que garante mais texturas e climas refinados nos arranjos, sobretudo nos momentos de maior explosão. O disco é triste sim, porque foi gravado sob o forte impacto do suicídio de Lawrence. Ao mesmo tempo, deixa claro que aquela chama de esperança não se apaga. E as batalhas perdidas servem como a dor que impulsiona para a frente.
Ouça: “Enemies/Friends”, “Black Dollar Bills”, “George Washington”, “The Red The White The Black The Blue”, “Me Ves Y Sufres”
33 :: Grant Lee Phillips – Virginia Creeper (Zoë/Sum)
Ex-líder de uma das mais cultuadas bandas alternativas dos anos 90 reencontra suas raízes e volta a soar como outrora, gravando aquele disco que o Grant lee Buffalo ficou devendo ao se separar. Virginia Creeper é o irmão caçula de Mighty Joe Moon, com as mesmas gemas pop revestidas de sonoridade rústica [banjo, bandolim, dobro, pedal steel, ukulele, violino, acordeão] e letras confessionais sobre amor, amizade, desejos, paixão e mulheres. O simples envolto pelo belo. Perfeitas canções do homem do campo solitário.
Ouça: “Mona Lisa”, “Always Friends”, “Making Memory”, “Calamity Jane”, “Susanna Little”
34 :: Music – Welcome To The North (Capitol/EMI)
É possível unir groves, psicodelismo e guitarras pesadas sem cair em chavões ou parecer cover pálido do Red Hit Chili Peppers ou do Jane’s Addiction? Para esta banda da cidade de Leeds, não só é possível como também essa é uma receita infalível para fazer um grande disco. Esses ingleses poderiam ser mais badalados, caso rezassem na cartilha do punk ou do lo-fi. Mas eles preferem compor hinos grandiosos, perfeitos para saciar grandes arenas. Aliados ao experiente produtor Brendan O’Brien, então, concebem um álbum potente e fascinante como esse.
Ouça:“Breakin’”, “Bleed From Within”, “Welcome To The North”, “Cessation”, “Open Your Mind”
35 :: Scissor Sisters – Scissor Sisters (Polydor, Universal)
Benvindo aos anos 70. Elton John e seu rock básico e contagiante, com ligeiras pitadas de groove. Mais batida disco. Mais vocais em falsete no melhor estilo Bee Gees nos embalos de sábado à noite. Mais uma inacreditável cover do Pink Floyd. Mais temática gay assumidésima em roupas, posturas, letras e até uma vocalista, Ana Matronic, para fazer o papel de diva. Eis as “irmãs-tesoura” [gíria utilizada em nova-iorquina para denominar lésbicas], trazendo o glam de volta para o rock em uma época onde as guitarras parecem ter sido feitas para as pistas.
Ouça: “Take Your Mama Out”, “Filthy Gorgeous”, “Comfortably Numb”, “Laura”, “Mary”
36 :: Secret Machines – Now Here Is Nowhere (679, importado)
Estado que deu ao mundo o presidente reeleito George W. Bush, o Texas é o símbolo do ultraconservadorismo de direita. Regulado por cabeças de gado e dinheiro correndo solto nas mãos de fazendeiros e fanáticos religiosos brancos, o Texas – talvez por tudo isso mesmo – é a terra de algumas das mais excitantes bandas americanas. Alguns anos atrás saíram de lá a picardia de Reverend Horton Heat e a insanidade do Butthole Surfers. Hoje volta a garantir uma safra de primeira. O Secret Machines é um dos destaques, com sua mistura de psicodelia, prog-rock pinkfloydiano, hard rock zeppeliniano, eightie rock britânico e alt-rock. Se você achava que Mercury Rev e Flaming Lips haviam ido onde ser human algum jamais esteve, o trio dos irmãos Curtis está aí para ampliar as últimas fronteiras.
Ouça: “First Wave”, “Light’s On”, “Nowhere Again”, “The Leaves Are Gone”, “Now Here Is Nowhere”
37 :: Embrace – Out Of Nothing (Virgin, importado)
O Coldplay pode ter passado uma temporada em branco, somente se recuperando da extensa turnê passada e trabalhando em estúdio seu novo álbum. Mas com certeza Chris Martin fez sua boa ação do ano. Simplesmente tirou do repertório do disco uma poderosa balada de nome “Gravity” e deu de presente para o Embrace, uma das bandas que mais deu a mão ao Coldplay em início de carreira. Só que há aqui muito mais do que o belo presente de Martin. Tem outras baladas pop. Boas o suficiente para fazer músicos largarem novamente seus empregos diurnos para voltarem a se dedicar full time à banda e excursionar. Boas o suficiente para Out Of Nothing vender mais do que os três álbuns anteriores do Embrace somados e ressuscitar a carreira de um dos ícones da segunda geração do britpop.
Ouça: “Gravity”, “Ashes”, “Someday”, “Looking As You Are”, “Spell It Out”
38 :: Keane – Hopes And Fears (Island/Universal)
Estantes com discos de Coldplay, Travis e Starsailor precisam de espaço para a entrada de um novo integrante. Vindo da cidade inglesa de Battle, o Keane canta paixões difíceis e relacionamentos doentios sem cair na repetição ou dizer “eu te amo”. Grandes baladas pop reunidas em um único álbum vêm fazendo o grupo que trocou a guitarra e o baixo pelo piano ganhar cada vez mais destaque. E novos hinos românticos e sentimentais surgem nas vozes dos mais românticos.
Ouça: “Somewhere Only We Know”, “We Might As Well Be Strangers”, “This Is The Last Time”, “Everybody’s Changing”, “Bedshaped”
39 :: Eminem – Encore (Interscope/Universal)
O sucesso de vendas fez mal ao rap. Desde que alcançou os primeiros lugares das paradas norte-americanas, o gênero viciou-se em fórmulas e estratégias para manter-se na ponta. Afinal, status, riqueza e fama são predicados de “vencer na vida” para quem sai dos guetos pobres dos grandes centros. Eis que Eminem devolveu ao rhythm and poetry exatamente aquilo que ele perdeu: a malandragem, o deboche, a festa, até mesmo o riso. Ganhou Oscar e não mudou. Nem quando faz um disco com assuntos muito íntimos. Michael Jackson que o diga.
Ouça: “Just Lose It”, “Mosh”, “Mockingbird”, “Ass Like That”, “Spend Some Time”
40 :: Devendra Banhart – Rejoicing In The Hands (Young God/Peligro)
Em três anos o hype em torno deste estudante de artes de San Francisco que passou a infância na Venezuela cresceu muito. Entre gritos e registros toscos em caseiros 4-track records, ele gravou dois álbuns que viraram peças cult entre os admiradores do folk neopsicodélico. E em 2004, ele não deixou por menos: gravou 57 faixas e lançou 32 delas em outros dois discos bastante que foram muito comentados. Resultado: agora até Caetano Veloso vai gravar com ele, notícia que desagradou muitos fãs puristas deste maluco que pouco se utiliza das técnicas de overdub no estúdio. O primeiro dos álbuns do ano passado foi Rejoicing In The Hands, tão hipnótico e caótico quanto os trabalhos anteriores, por misturar elementos variados [de folk celta a ragtime, passando pelo blues e as origens da country music apalachiana]. O posterior, Niño Rojo, seguiu um caminho mais bluesy, mas não tem a mesma qualidade.
Ouça: “Poughkeepsie”, “Will Is My Friend”, “Todo Los Dolores”, “This Is The Way”, “Insect Eyes”
41 :: Streets – A Grant Don’t Come For Free (Atlantic/Warner)
Como levar um pé na bunda e reverter a rejeição em sucesso em poucas lições. Mike Skinner, ídolo-mor dos chavs ingleses, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima em seu segundo álbum. O que poderia soar como novela mexicana se torna uma ópera pop para as pistas e as massas. A base garage do festejado álbum de estréia se expande, ganha contornos épicos e orquestrais. A tragédia acaba por virar comédia dando nesta história verídica. Quem agradece à ex-namorada do cara é a imensa legião de fãs de Skinner já conquistou.
Ouça: “Dry Your Eyes”, “Fit But You Know It”, “Blinded By The Lights”, “Get Off Of My House”, “Such a Tw*t”
42 :: Polyphonic Spree – Together We’re Happy (Hollywood, importado)
Imagine um coral com batas coloridas, de todas as cores chamativas possíveis. Imagine que o líder desse coral e alguns outros músicos tenham integrado recentemente uma das bandas mais viajandonas dos últimos tempos. Isso existe e é mais do que um grupo. É uma verdadeira seita musical [detalhe: de Dallas, Texas], criada das cinzas do Tripping Daisy, que leva você ao paraíso através de letras otimistas sobre filosofia e espiritualidade, bases psicodélicas e um grande senso melódico pop. O segundo álbum começa de onde o anterior parou, porém trazendo arranjos mais épicos e complexos. Arrepia tanto quanto o primeiro.
Ouça: “Section 11 (A Long Day Continues/We Sound Amazed)”, “Section 12 (Hold Me Now)”, “Section 13 (Diamond/Mild Devotion To Majesty)”, “Section 17 (Suitcase Calling)”, “Section 19 (When The Food Becomes A King)”
43 :: REM – Around The Sun (Warner)
Tudo ia muito bem para o REM no início dos anos 90. A troca de gravadora para uma major fora bem sucedida, o grupo tinha superhits mundiais e o disco vendia como água. Eis que, surpreendentemente, o grupo soltou um álbum sombrio, melancólico, tristonho. E Automatic For The People virou o xodó dos fãs. Começo dos anos 00, tudo vai muito bem para o REM. Estabilizado como uma megabanda que lança trabalhos novos regularmente e sempre primando pela qualidade, o hoje trio solta mais um álbum sombrio, melancólico, tristonho. Em um mundo falsamente bem resolvido e integrado pela globalização, Michael Stipe lamuria-se. Canta os preços que pagamos, as decepções, as expectativas rasteiras, céus cinzentos, os golpes duros da vida, a vontade de abandonar a civilização.
Ouça: “Leaving Mew York”, “I Wanted To Be Strong”, “Electroblue”, “Wanderlust”, “Aftermath”
44 :: Zutons – Who Killed... The Zutons (Deltasonic, importado)
Eles não são o Coral, mas vêm da mesma cidade [Liverpool], gravam pelo mesmo selo [Deltasonic], são produzidos pelo mesmo cara [Ian Broudie] e trazem a mesma carga de influências [garage rock sessentista, psicodelismo, pop, pitadas de new wave/póspunk]. Por isso estão incluídos no mesmo movimento de há um par de anos vem arrebanhando fãs e provocando polêmicas na comunidade musical briânica: o shroomadelica. Cogumelos à parte, é um disco que merece ser ouvido com atenção.
Ouça: “Zuton Fever”, “Pressure Point”, “Havana Gang Brawl”, “You Will, You Won’t”, “Long Time Coming”
45 :: Regina Spektor – Soviet Kitsch (Shoplifter, importado)
Ela é russa e surgiu fazendo um dueto com Julian Casablancas sobre garotas pós-modernas. E firmou-se com seu álbum de estréia resgatando tudo aqui que ficou em segundo plano na leva de cantoras que o mercado fonográfico americano viu surgir na segunda metade da década passa [leia-se Liz Phair, Ani Di Franco, Tori Amos]. Regina – sempre acompanhada do piano – mostra que garotas de atitude podem gravar um disco assim e ainda soar algo nervoso e visceral ao extremo. Seu vocal é apaixonado, de entrega ao sentimento das letras, que tratam de temas estranhos ao senso comum, como divórcio, vegetarianismo, limousines e cromoterapia.
Ouça: “Your Honor”, “Ode To Divorce”, “Carbon Monoxide”, “Us”, “Chemo Limo”
46 :: Go!Team – Thunder, Lightning, Strike (Memphis Industries, importado)
Duas bateristas – uma negra, a outra japonesa – mais quatro rapazes de Brighton fazem a festa da nostalgia moderna inglesa. O Go!Team com seu álbum de estréia, o grupo despeja funk ensolarado setentista, hip-hop dos primórdios e harmonias a la Sergio Leone em onze canções inspiradas. Em algumas passagens, lembra o Belle & Sebastian em dias de piano alegrinho com groove, em outras soa como aquela bagunça boa das Luscious Jacksons. A maioria das faixas é instrumental, justamente porque a força da banda está na engenhosidade das melodias e na diversidade dos instrumentos. Quando há vocais [e têm todos jeito de sampler], eles parecem estar ali para efeito decorativo. Este é um disco que impressiona por ter este caráter de trilha sonora de seriado seventie mas não precisa de qualquer imagem, já que a música por si só é capaz de criar personagens e lugares. E isso só acontece porque o Go!Team não tem só arranjos bem sacados, mas também boas melodias. Ótimas, aliás.
Ouça: “Panther Dash”, “Ladyflash”, “The Power Is On”, “Junior Kickstart”, “Bottle Rocket”
47 :: Juliana Hatfield – In Exile Deo (Zoë/Atração)
Ela voltou. E a musa do rock alternativo americano está em plena forma. Em seu sétimo álbum, Juliana faz somente aquilo que sempre soube fazer: power pop delicioso, cheio de guitarras dedilhadas e adocicado pela voz sauve da blake baby. Se os anos 90 ainda estão se preparando para voltar à moda do dia, ela trata de antecipar o revival e lembrar a gente como era divertida aquela época em que a indústria musical corria atrás da diversão, molecagem e despretensão.
Ouça: “Get In Line”, “Don’t Let Me Down”, “Some Rainy Sunday”, “Dirty Dog”, “My Enemy”
48 :: Isidore – Isidore (Karmic Hit/Brash, importado)
Em um buraco negro onde não chegam notícias de tendências e cenas, Steve Kilbey e Jeffrey Cain fizeram, respectivamente, letra e música para estranhos momentos em que a realidade é apenas uma cilada. De um lado, o mestre da soturna psicodelia do australiano Church. Do outro, o aprendiz da desfeita banda norte-americana Remy Zero. Na estréia do duo Isidore, unem-se as melodias etéreas de Cain às letras/refelexões de Kilbey, hoje cantadas com menos distanciamento e mais entrega. Como sempre, a voz aveludada do Church valida temas cada vez mais raros no rock como a fragilidade humana diante do tempo. Para acompanhar as imagens surrealistas, as melodias de Cain ora sussurram e ocultam, ora explodem, valendo-se de multicamadas de guitarras farpadas e líquidas ambiências graças a elegantes artifícios eletrônicos. Tudo soa como uma sutil viagem azul-marinho ao inconsciente em um disco que parece não pertencer a qualquer época ou prateleira. Algumas passagens pecam pela auto-indulgência mas esse é o preço da busca da transcendência. Poucos ousam tratar o rock com tamanha inteligência e seriedade, e sem cair na armadilha do experimentalismo vazio. Isidore tem ambas as qualidades sem desprezar o apelo inegável de uma bela melodia.
Ouça: "Sanskrit", "Transmigration", "Saltwater", "Nothing New", "Refused On Temple St.".
49 :: Radio 4 – Stealing Of A Nation (City Slang/Astralwerks, importado)
Integrante da turma que está transformando Nova York em uma grande pista de dança alternativa, o Radio 4 chega ao terceiro disco fazendo com maestria a combinação de grooves eficazes, guitarras furiosas, pegada punk, muitos sintetizadores e melodias pop. A temática segue a melhor cartilha política de artistas como Billy Bragg e Clash – isto é, como o sistema é corrupto e o mundo, injusto. O melhor é que a mensagem agora é passada nas melhores pistas de dança. Não tem como deixar de chacoalhar e pensar como a esquerda vermelha brasileira seria mais eficiente se conseguisse ouvir algo além de forró e MPB vintage.
Ouça: “Party Crashers”, “Transmission”, “Absolute Affirmation”, “No Reaction”, “State Of Alert”
50 :: Loretta Lynn – Van Lear Rose (Interscope, importado)
Em um ano meio lo-fi para o White Stripes, Jack White arrumou tempo para produzir o álbum de um ds grandes ícones ainda vivos e atuantes da country music. Loretta Lynn, que chegou a emplacar mais de 70 hits nas paradas americanas durante os anos 60 e 70, retirou-se do showbiz há mais de dez anos, para cuidar do marido à beira da morte em Nashville. Agora ela ressurge sob as mãos de Jack, que adora um som analógico e cru [Loretta gravou tudo no menor número de takes possível]. O objetivo – obtido, por sinal – foi remodelá-la para as novas gerações mas sem perder a orientação sonora orgânica e espontânea. E como o mercado fonográfico americano adora um resgate de velhos ídolos esquecidos pelo tempo e pela máquina da indústria musical, o álbum é emoção certa para os mais puristas e saudosos daqueles tempos.
Ouça: “Portland, Oregon”, “Have Mercy”, “This Old House”, “Van Lear Rose”, “Miss Being Mrs”
* Com a colaboração de Carlos Eduardo Lima, Diogo Dreyer, Leïlah Accioly e Ricardo Schott.
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