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Coleção :: Mutantes

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Segundo álbum já afastava o trio do Tropicalismo e antecipava loucuras alucinógenas dos próximos discos.

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Mutantes
Mutantes [1969]

Capa do disco veio da performance no Festival Internacional da Canção.

De modo geral, o primeiro disco dos Mutantes é citado quando se quer lembrar de algum clássico do grupo. Ele já apareceu em listas de melhores discos até fora do país e tem a grande vantagem de ter sido editado bem no meio da euforia tropicalista, em 1968. No entanto, Mutantes, o segundo álbum, de 1969, com a clássica foto do trio original no palco do Festival Internacional da Canção estampada na capa [sem falar na irônica contracapa] foi o verdadeiro "teste do segundo disco". Uma prova de fogo para uma das bandas mais revolucionárias do Brasil, em uma época em que revoluções culturais eram, decididamente, sinônimo de perigo.

O ano de 1969 foi complicado para dois dos maiores artífices do Tropicalismo. Caetano Veloso e Gilberto Gil, os nervos mais expostos do movimento, foram presos e exilados, com ordens de não voltarem até que fosse ordenado o contrário. Os outros artistas da capa de Tropicália ou Panis Et Circensis, disco-manifesto de 1968, ficaram no Brasil: alguns à espera do momento em que poderiam reverberar a voz dos exilados [caso de Gal Costa e da agregada Nara Leão], outros lançando trabalhos de qualidade mas meio sumidos da mídia, até ofuscados pela repercussão da partida de Caetano e Gil [caso de Tom Zé]. Capinam ofereceu suas letras a vários outros artistas. Rogério Duprat permaneceria marcado para sempre como o arranjador da galera – e se tornaria uma verdadeira grife para vários outros músicos, de Chico Buarque e Sá & Guarabyra a Lulu Santos. Torquato Neto personificaria uma espécie de lado romântico e explosivo [sem quizumbas baratas] do movimento, com tragédias pessoais que culminariam em seu suicídio, em 1972. Já o artista plástico Rogério Duarte e o escritor José Agrippino de Paula, que não apareceram no álbum mas estavam sempre por ali, foram trilhar seus caminhos longe da fama e acabariam esquecidos até mesmo em datas comemorativas da tropicália.

Aos Mutantes coube sair definitivamente da sombra dos dois "mentores". Se no álbum de 1968 várias músicas eram parcerias com Gil ou Caetano – quando não regravações da dupla, como em "Bat Macumba" e "Panis Et Circensis" – em Mutantes o grupo já era uma usina de idéias bem mais madura, com um disco bem mais roqueiro, universal e pop. Mesmo não tendo sido "escolhido" pela ditadura para deixar o país, o trio começava a incomodar a censura de forma bem mais incisiva, com a orquestral "Dom Quixote", que abria o álbum – os versos "Dia há de chegar/ E a vida há de parar/ Para o Sancho descer" e "E os jornais todos a anunciar/ Armadura e espada a rifar" tiveram de ser cobertos com gravações de palmas, em uma verdadeira operação engana-censor. Não ficava só nisso. O disco ainda trazia temas nada comuns à época, como o escapismo adolescente da psicodélica "Fuga Nº II" [uma espécie de "She's Leaving Home", dos Beatles, à moda da casa, que convidava o ouvinte: "Para onde eu vou, venha também"]. Sem falar no tema country "Não vá se perder por aí", um manual de sobrevivência adolescente que inseriu sabedoria jovem no rock nacional dos anos 60.

Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, acrescidos do baterista Ronaldo Leme [o Dinho, creditado na capa como "Sir Ronaldo I du Rancharia", referência à cidade do interior paulista na qual o músico havia sido criado], usavam o estúdio quase como um instrumento, preenchendo com sons todos os parcos canais disponíveis. Efeitos, cortes de fita e mudanças climáticas rápidas dominavam todo o álbum, fosse na psicodélica "Dois Mil e Um" [que mistura moda de viola, rock e ficção científica], fosse na soturna "Dia 36", com efeitos de baixo [processado por um pedal whoo-whoo, inventado pelo terceiro dos irmãos Dias Baptista, Cláudio César] e a voz de Arnaldo reprocessada no órgão. O que poderia soar ameno e docinho, como a versão de "Banho de Lua", de Celly Campello, tornava-se psicodélico, ruidoso e quase erudito, graças às orquestrações barrocas de Rogério Duprat e aos efeitos de guitarra de Sérgio. Um dos raros momentos mais "fáceis" do disco era justamente o rock dançante "Algo Mais", na verdade um jingle publicitário que a banda fizera para uma campanha da Shell – celebrada pelo bem sacado texto de Nelson Motta na contracapa. O outro? "Rita Lee", rock que misturava os Beatles de "Penny Lane" aos de "Ob-la-di-ob-la-da", com clima de saloon e uma letra teen que Paula Toller daria um braço e uma perna para ter feito.

Mais para o final do disco, o grupo oferecia uma verdadeira experiência lisérgica, com a ciranda roqueira "Mágica". Era aberta com acordes de harpa seguidos por riffs de guitarra e loops de risadas, em climas sonoros que se sucediam e se superpunham como imagens. "Qualquer Bobagem", regravada nos anos 90 pelo Pato Fu, era outro som mais tranqüilo – só que com Arnaldo cantando e gaguejando (!) a irônica letra de Tom Zé, que comparava certas canções com "bobagens". E se Sgt. Pepper's ainda calava fundo no coração do trio, a "A Day In The Life" de Mutantes era bem mais criativa e irônica. A minissuíte "Caminhante Noturno" misturava rock psicodélico, marchas militares [opa!], nostálgicas valsas, efeitos de estúdio e outros detalhes que não seriam igualados nem no rock lá de fora. E, ah, os últimos sons do disco consistiam em uma voz de robô gritando "Perigo! Rota de colisão! É proibido proibir!" e uma platéia berrando "Bicha! Bicha!".

Após Mutantes, o grupo se transformaria cada vez mais em uma banda de rock típica, com a definitiva adesão de Ronaldo e o baixista Liminha. A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado traria no ano seguinte um som bem mais pop, elétrico e pesado, de criatividade ilimitada. Curiosamente, a fase de maior deslumbre com as drogas psicodélicas, iniciada após 1970, daria em um disco mais ou menos [Jardim Elétrico, de 1971, com conteúdo inferior ao trabalho gráfico] e em outro [Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, de 1972, no qual a banda deixava a criatividade na gaveta e passava a macaquear as novas ondas do rock estrangeiro – como o pop de piano de "Balada do Louco" e o som prog da faixa título]. Faltava ao grupo no País do Baurets a centelha criativa que aquele trio recém saído da adolescência e ainda longe detrips egocêntricas imprimiu aos sulcos de Mutantes. Pena que não tenha rolado um aprendizado na marra.
Ricardo Schott*



Ficha Técnica

Título: Mutantes
Artista: Mutantes
Lançamento: fevereiro de 1969.
Gravadora: Polydor
Produção: Manoel Barenbein [direção da produção]
Faixas: "Dom Quixote", "Não Vá Se Perder Por Aí", "Dia 36", "Dois Mil e Um", "Algo Mais", "Fuga Nº II", "Banho de Lua (Tintarella di Luna)", "Rita Lee", "Mágica", "Qualquer Bobagem", "Caminhante Noturno".
Curiosidades: Além das músicas do grupo, os Mutantes contavam com alguns amigos colaboradores no disco. Um deles era Tom Zé [que assinou "Dois Mil e Um" com Rita Lee e "Qualquer Bobagem" com a banda]. Johnny Dandurand, o hippie americano que invadira o palco do Festival Internacional da Canção enquanto Caetano e os Mutantes cantavam "É Proibido Proibir", colaborava em "Dia 36". Rafael Vilardi e Roberto Loyola, chapas de adolescência da banda, compuseram "Não Vá Se Perder Por Aí". E Rogério Duprat, claro, cuidava dos arranjos. *** Apesar de só ter entrado para o grupo um ano depois, Liminha aparecia no disco tocando viola caipira em "Mágica". *** A dupla caipira que tocava viola e cantava em "Dois Mil e Um" era o casal Zé do Rancho e Mariazinha. O que pouca gente sabe é que os dois são pais de Noely, esposa de Xororó, da dupla com Chitãozinho. Ou seja: os avós de Sandy e Junior tocaram com os Mutantes. Zé, por acaso, é autor da moda de viola que deu nome à dupla, "Chitãozinho e Xororó". *** Em 1969, pelo que consta, os Mutantes ainda não tinham descoberto o LSD nem moravam em comunidade. A doideira do disco era natural mesmo, ainda que temperada com doses de maconha. *** "Fuga Nº II" já foi regravada pelo Kid Abelha e pelos Titãs *** A foto da contracapa, clicada por Cenyra Arruda, mostrava o trio maquiado como alienígenas, com cabeças redondas cobertas de veias. O efeito foi conseguido com bolas de plástico cortadas pela metade e barbantes. Todos apareciam com seis dedos nas mãos. Aliás, por pouco o disco não se chamou O sexto dedo, nome de um filme de ficção científica que os músicos haviam visto. *** Mais experimentações: Rita Lee tocava theremin [instrumento definido por eles como "o tetravô dos sintetizadores"] em "Dois Mil e Um" e "Banho de Lua". Cláudio Cesar, irmão de Arnaldo e Sérgio, era responsável por este instrumento e pelos pedais usados pela banda, além de outros efeitos de estúdio.



* Ricardo Schott é o editor do site Discoteca Básica


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  • 25/04/2008 15:08 - GIG

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