Segunda Set 06

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Bidê ou Balde

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Face new wave abrandada, guitarras furiosas e um punhado de novas boas melodias marcam o novo álbum.

E vai rolar a festa

ReproduçãoEm seu terceiro álbum, a Bidê ou Balde propõe uma nova sonoridade, deixando um pouco os teclados e a face new wave de lado e imprimindo mais peso nas guitarras. Reduzidos a sexteto, os gaúchos, porém, mostram que construção de boas melodias ainda é com eles. Abonico R. Smith destrincha É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos. Por sua vez, a ex-tecladista Katia Aguiar relembra, a pedido do Bacana, glórias, podres e curiosidades sobre a sua banda do coração.

Cenas do videoclipe em animação feito para a regravação de “Hoje”.

A Bidê ou Balde não nasceu para o mundo ou encabeçar revoluções mas, a exemplo de outras bandas que revolucionaram a história em várias décadas de rock’n’roll, também nasceu predestinada. A fazer festa. Por onde os gaúchos passam não há qualquer chance para o baixo astral. E toda esta energia dos shows acaba sendo transmitida com fidelidade aos discos. Seja no palco, platéia, quarto, sala ou até mesmo no banco de motorista do carro, não há quem fique imune às batidas e melodias irresistíveis que vêm jorrando aos montes desde os idos do primeiro single, que trazia o hit “Melissa” [1999]. Também não é possível que algum corpo ou mente em estado perfeito de sanidade que consiga resistir a um grupo com um pé fincado na new wave e o outro na paixão pelo melhor do rock alternativo desde os anos 90 [Weezer, Blur, Flaming Lips, Ween, Ben Folds Five, Strokes, Hives, entre tantas outras preciosidades].

Com o terceiro álbum da carreira, É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos (Ufa!) não poderia ser diferente. É festa do começo ao fim das onze faixas. Mais do que isso. O novo trabalho é uma verdadeira alegria regada a guitarras supersônicas, arranjos irresistivelmente dançantes e melodias que grudam no cérebro feito chiclete.

A BoB mostra um pouco de sua nova cara, com a face new wave abrandada e uma aceleradíssima pungência punk/garage/pós-punk. Enquanto Pedro Hahn esmurra o kit de bateria e faz muito esporro, as guitarras assumem a linha de frente. Leandro Sá, um dos compositores principais da banda, preocupa-se com acordes, dedilhados e outros componentes da parte mais harmônica. Por sua vez, Rodrigo Pilla prova de vez que sua contratação foi o grande achado da banda – ele derrotou outros 400 candidatos em um concurso promovido há dois anos entre os fãs da Bob. O garoto constrói riffs supersônicos (até mesmo no contrabaixo, como em “O Que Acontece No Escuro”) e imprime o peso necessário para a guinada na sonoridade. Talvez daí venha uma proximidade maior com nomes como Strokes, Hellacopters e Hives na parte inicial do disco.

Com a predominância das guitarras – um dos pontos fortes do disco, aliás – os teclados passaram a segundo plano. Antes elementos de frente na construção dos arranjos da banda, eles agora aparecem apenas em metade das faixas, comandados por Sá, pela vocalista Vivi Peçaibes ou mesmo pela ex-tecladista Katia Aguiar – uma das fundadoras do grupo, que no início do ano pediu seu desligamento por motivos extra-musicais.

Outro fator surpreendente foi a mudança dos vocais. Pouco resta dos fraseados femininos que marcaram sucessos dos discos anteriores, como “Melissa”, “Cores Bonitas”, “Matelassê”, “Microondas” e “E Porque Não?”. Poderia soar uma descarcaterização, mas não. Pelo contrário. A BoB, inclusive, ganhou mais opções. Momentos mais melódicos, como “Vamos Para Cachoeira”, e “Não Seja Assim”, ainda batem ponto. Mas os gaúchos também passam a apresentar momentos viscerais e de berros extremos, como na trinca inicial “É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos”, “Mais Um Dia Sem Ninguém” e “Hoje” [regravação do hit eightie do Camisa de Vênus, com a participação do próprio Marcelo Nova]. Sem falar que versos como “Então você já soube das fofocas/ Mas quem lê caras não vê coração”, “Mais um dia sem ninguém/ Nunca me senti tão bem” ou “Pra que escolas e faculdades/ Já não há nada mais para aprender/ Eu já não vejo, eu já não penso/ Eu já não consigo escrever/ (...) Olhe pro trânsito, olhe o sinal/ Tá tudo engarrafado/ Videocassetes, computadores/ E homens codificados” ainda revelam uma banda que não é hardcore, não faz música para o filão adolescente, só que é muito mais contundente e questionadora do que alguns ícones populares do novo rock nacional.

Logo em seguida, “Mesmo Que Mude”, uma das melhores faixas do novo álbum, cai para um neo-pós-punk. Alguém vai poderá fazer correlação com os Strokes, claro. Aqui, contudo, há mais do que os nova-iorquinos podem oferecer. É a “Bidê bossa nova”: algumas dissonâncias, melodia aconchegante [que Carlinhos pode vir a sussurrar, se quiser] e versos que tangem a ingenuidade de um relacionamento amoroso [“Para conversar/ Nunca é muito tarde pra ligar/ Ele pensa nela/ Ela tem saudade/ Mesmo sem ter esquecido que/ É sempre amor, mesmo que acabe/ Com ela aonde quer que esteja/ É sempre amor, mesmo que mude/ É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou”]. Reza a lenda que a letra teve a ex-tecladista como musa inspiradora – o que nunca se sabe, já que verdades, mentiras e histórias curiosas sempre acabam se fundindo na história da banda.

Depois, “Não Seja Assim” leva a BoB para o groove das guitarrinhas ska e refrão-irresistível-com-bongô. E “Pelo Menos Isso” representa o momento psicodélico do disco [dedilhados e pandeirinho que lembram a Califórnia dos mid-sixties]. Segue a conexão Mutantes-Jupiter Maçã de faixas dos álbuns anteriores e traz Carlinhos em seu momento mais melódico e romântico [“Eu não tenho ninguém mas eu quero você/ Todos seus inimigos serão meus também/ E eu não pretendo parecer um leviano/ Estarei ao seu lado até o fim”].

Daí o power pop “O Que Acontece No Escuro” faz a transição que vai agradar aos fãs mais antigos, iniciando uma seqüência que lembra a Bidê dos dois primeiros discos. A letra – com direito a falsetes para fazer a voz da personagem feminina – também relembra as ironias que sempre permearam as composições da banda: “Eu não nasci pra ler legenda/ Quem sabe o Tubarão dublado/ - Te encontro às oito no cinema/ Melhor às sete no meu quarto/ (...) O que acontece no escuro? - No escuro/ Eles descobrem a verdade - A verdade/ É quando esquecem o que dizem - O que dizem/ E dão valor ao improviso”.

“Exijo Respeito!” e “Isso É Que É Sábado!” também mergulham no clima retrô. Na primeira, novas referências explícitas a B-52’s [cortantes guitarras billies e vocais “uh-uh” remetem à fase de “Private Idaho”] e sacadas divertidas como a estrofe inicial [“Respeitar mulher é mesmo complicado/ E elas passam em TPM quase o tempo inteiro/ Quando não estão menstruadas tão com dor de cabeça/ E quando não é a cabeça elas tão com cistite”]. Na outra, uma grande celebração às noites pré-dominicais, surge um quê de Cars surge nos sintetizadores.

Do Blondie vêm alguns dos ecos encontrados em “Vamos Para Cachoeira”, outra das grandes faixas do disco. Hit nato, a música é trunfo para qualquer pista. Batida disco, riffs de guitarras e teclados que se entrecortam, refrão eficaz. Para completar, aqui Carlinhos chega ao ápice de sua veia debochada: “Vamos mudar de ramo/ Vamos pra Nova York/ Tudo vegetariano/ Cabelo dreadlock/ Vamos casar, ter filhos/ Vamos mudar de planos/ Fazer um rave trance/ E regravar Caetano”.

É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos poderia muito bem parar por aqui. Mas a imprevisibilidade da Bidê continua. “PS: Calma!” é a coda que poderia ter saído de um disco do Chemical Brothers. A linha de baixo de André Surkamp – na verdade, o grande motor dos shows do sexteto – gera um crescendo cheio de efeitos e nuances de guitarras e sintetizadores. Até a voz de Carlinhos [“Tem jeito de ser pra me animar/ Tem jeito de ser pra me animar/ Às vezes ela quer ganhar/ Às vezes ela quer perder/ De dia ela quer me matar/ De noite ela quer me prender/ Calma!”] entra como mais uma textura da espiral psicodélica que atordoa e paralisa.

Assim que a faixa acaba vem a inevitável vontade de apertar novamente o play e começar a festa toda de novo. Afinal, é preciso dar vazão aos sentimentos...
[ARS]

***

”Eu, Bidê”

É muito difícil pra uma pessoa extremamente anti-umbiguismos conseguir escrever sobre as suas experiências passadas. Outra dificuldade é expressar em poucas palavras uma época intensa e divertida, que renderia um romance de mil páginas. Então, o que tenho na minha frente é um desafio dos grandes. Mas como eu não sou trouxa de contrariar amigos “bacanas”, vou tentar contentá-los neste texto, narrando minhas lembranças e sensações enquanto tecladista da Bidê ou Balde, minha banda do coração.

Para que o tom deste meu “resumo de memórias” seja captado sem equívocos acho melhor começar pelo fim, explicando que saí da banda sem nenhum ressentimento, por iniciativa própria e completamente na boa com todos os integrantes. O que me tirou da estrada foi um problema pessoal (familiar, para ser mais específica) e, embora eu morra de saudades de estar com eles, sei que fiz a coisa certa voltando para a casa dos meus pais. Por isso, ao me lembrar das nossas viagens, madrugadas em estúdio, festas, bebedeiras e afins, me sinto leve e feliz, por saber que participei de cinco anos da história dessa banda que eu, modéstia à parte, considero do caralho.

Mesmo depois de ter tomado tantos porres nessa vida roqueira, ainda me lembro nitidamente de coisinhas aparentemente insignificantes, como o dia em que o Carlinhos me contou que eu seria a produtora de um curta que ele queria filmar. O Rossato seria o ator. Uma história simples sobre um cara atravessando a rua com a camisa manchada de sangue. Em menos de uma semana, Carlinhos volta neste assunto, mas para me contar que ele, o Vini (também nosso colega de faculdade e, na época, baterista da Vitrola V8), o Rossato (um ótimo companheiro de farra e para quem eu fazia todos os trabalhos da cadeira de “Ciências Políticas e Comunicação”) e o André (um curitibano que ele conheceu em uma balada) haviam se reunido no dia anterior pra fazer a trilha do tal filme, mas que acabaram desistindo de cinema e resolveram montar uma banda. “Então, estou dispensada?”, perguntei. E o Carlinhos respondeu: “Não, você vai tocar com a gente!”. E eu: “Oba, vou pedir o baixo emprestado para o meu irmão agora mesmo!”. E ele: “Não tão rápido, baby, você vai ser a tecladista”.

Confesso que fiquei meio broxada com essa notícia, mas acabei aceitando, pois estava com saudades de tocar e via na banda uma ótima oportunidade pra encher a cara nas tardes de domingo. De fato. Todos os domingos eu chegava em casa às nove da noite, totalmente torta. Ensaiávamos no “Estábulo” (onde hoje fica a Fun House, quartel-general da Cachorro Grande), estúdio de um pessoal do jazz muito gente boa e de onde fomos expulsos após alguns meses por uma grande cagada que “eu e a minha boca grande” cometemos ao acreditar estarmos salvando a humanidade. Mas não vou contar o que foi que eu fiz, porque isso é coisa de gente humilde e eu não tô com essa bola toda.

Foi nessa época que surgiu o estilo “cigarro numa mão e teclado na outra”. Não poderia ser diferente. Eu precisava da minha mão esquerda pra segurar a cerveja e o cigarro. Mas só me dei conta disso quando fomos gravar o primeiro CD e notei que os meus arranjos eram todos executáveis com apenas uma das mãos. É pessoal, essa pose que a maioria achava um charme foi a cachaça quem criou, não eu. Depois a coisa começou a ficar séria, bem falada, badalada... e paramos de beber durante os ensaios. Os garotos pediram pra que eu não fumasse mais dentro do estúdio, “pois a fumaça já começava da dar nos nervos”, mas eu continuei tocando com uma mão só. Daí já era porque eu queria mesmo.

Lembro o nosso primeiro show. Foi em um bar de um pessoal do rap de Porto Alegre. Virtual era o nome, se não me engano. A formação da banda naquela época era o Carlinhos, o André, o Rossato, o Caveira (que tinha entrado para substituir o Vini) e eu. Naquela época eu ainda tocava sentada em um banquinho só com o meu “Cássio SK8”, um teclado de brinquedo com sampler, apoiado no colo. A gente abriu um show para a Groove James, banda de uns amigos nossos da faculdade que faziam (e fazem até hoje) um som mais para o lado do hip hop do que para o rock. Eu tava morrendo de medo de ser apedrejada aquela noite, mas quando cheguei no bar, vi que tava cheio de amigos nossos e fiquei mais calma. O repertório era curtinho porque tínhamos só uns dois meses de banda, mas lembro que tocamos “Lucinda”, “Me Envergonha”, “Sr. Promotor”, “Excursão”... E todo mundo que ouviu ficou com os refrões grudados na cabeça depois do show. Só me lembro disso, porque depois fiquei bêbada e não tenho mais memórias dessa noite.

Depois desse primeiro show, a Groove James sempre nos chamava pra abrir pra eles. O que era ótimo para nós, pois eles eram a sensação da faculdade e lotavam todos os lugares onde tocavam. Costumávamos chamar a dobradinha “Groove + Bidê” de “Noite da Elegância” e a mais memorável de todas foi uma que fizemos em Gramado, durante o festival de cinema. Éramos amigos do pessoal do Super8 (que hoje já tão ganhando grana para fazer 35mm) e eles queriam fazer uma festa na noite da premiação dos filmes deles. Já tinham encontrado um bar e divulgado que a festa seria lá, mas se pilharam de fazer a Noite da Elegância na manhã da festa. O Lao, um dos vocalistas da Groove me liga as oito da manhã pra dizer: “Ó, o pessoal tá querendo fazer uma Noite da Elegância em Gramado hoje à noite.” Fico superfeliz e pergunto: “Beleza! De onde sai a van e a que horas?” Ao que o Lao responde: “Calma, o lugar não tem estrutura nenhuma para show. Só tem uma daquelas caixas de som onde se pluga um violão e um microfone.” Broxada, digo que vou falar com o pessoal da banda e depois dou uma resposta. Peguei os caras almoçando juntos, o que tornou a assembléia muito mais rápida. Expliquei toda a situação e eles disseram que estavam preocupados com outras coisas e que só tocariam se não tivessem que se envolver em nada da produção. Colocaram seus carros a disposição para chegar até lá, mas disseram que eu teria que ir atrás de bateria, amplificadores, microfones, etc. Desliguei o telefone pensando: “O quê? Perder um festão em Gramado só por causa de uma meia dúzia de microfones? Nem fodendo!”

Foi uma tarde atribulada. Imaginem, naquela época nenhum dos garotos tinha seu próprio amplificador. A gente já não tava mais em clima de brincadeira, mas também não tínhamos grana suficiente para nos equipar. Cheguei até a pegar o carro do meu irmão emprestado, mesmo estando há quatro anos sem dirigir e toda borrada de bater aquela merda. Mas tinha de buscar um ampli num lado da cidade, microfones no outro... Fazer o quê?

Depois de tudo pronto, rumamos à terra dos chocolates artesanais. Mas antes de saborear o sucesso que aquela noite nos atribuiria tivemos o dissabor de tomar uma multa por estarmos sem cinto de segurança no banco de trás, na entrada de Gramado. Estávamos no carro do Pedro, um amigo de trabalho do André que sempre foi em TODOS os shows com a sua querida esposa, Zéti, até o nascimento de seu primeiro filho, que, se não me engano, veio ao mundo no mesmo dia que o nosso ilustríssimo baixista.

Fico me lembrando de nós ali, tocando nosso som e aquele bar enchendo cada vez mais de pessoas conhecidas, algumas em êxtase por terem tido seus filmes premiados. Entre elas, reconhecemos putas velhas do rock, rindo com a gente e curtindo o nosso show. Teve até uma hora que o Caio Blat apareceu por lá e o Carlinhos fez uma piadinha no microfone que o fez retroceder e ir embora do bar. Não me lembro qual foi a piada, mas tinha a ver com o Ulisses, de James Joyce.

Depois desse evento inesquecível, fomos chamados por este mesmo bar de Gramado pra tocar lá de novo. Dessa vez com van e equipamento por conta deles. O bar estava vazio, mas o Pedro e a Zéti estavam lá, contentíssimos, cantando nossas músicas ainda não gravadas. Isso me faz lembrar “Totalmente Gay”, uma música totalmente nonsense que não fazia qualquer menção a homossexualidade, exceto pelo final, onde o André gritava “Aaaaaaaaaaai ...” e o Carlinhos emendava: “Quebrei minha unha”.

As coisas foram acontecendo muito rápido. Mas eu era sempre a última a saber, porque os garotos tinham medo de que eu saísse espalhando que tinha gravadora atrás de nós e que o negócio era sério e tal. Esse medo tinha fundamento. Eu já usei o termo “eu e minha boca grande” neste texto? É, comigo eles aprenderam errando. E eu também. Depois de algum tempo, deixei de ser tão deslumbrada e achar que todos os meus 1.345 amigos tinham de saber de todas as novidades sobre a banda no exato momento em que me eram contadas. Mas é que, pôxa, isso nunca tinha me acontecido antes. Eu ficava radiante. Tinha de contar pra alguém. Já pensou? Você tá lá na maior farra com seus amigos, fazendo um som e tomando umas cervejas de graça quando, de repente, alguém vem com a notícia de que tem gente querendo gravar seu disco e você não vai ter que pagar por isso...

Depois disso acabou a farra. Virou profissão. Rossato largou o emprego e a faculdade. Caveira largou a banda para não largar o emprego e a faculdade. Carlinhos e eu estávamos quase nos formando. Então conciliávamos nosso trabalho de conclusão (durante o dia) com as gravações (durante a noite) e conseguimos nos formar um mês antes do lançamento do CD. Na época da gravação, a formação já era Carlinhos e Vivi nos vocais, Sá e Rossato nas guitarras, André no baixo, Pedro na bateria (embora o Caveira tenha gravado quase todas as bateras do disco) e eu nos teclados. Todos já completamente desimpedidos para seguir com a banda.

Também foi nessa época que eu e a Vivi paramos de usar vestidos longos de festa de gala para aderir a um figurino mais new wave. Adeus às “Noites da Elegância”. Olá aos porres desenfreados.

CD pronto debaixo do sovaco e nos metemos num avião com grana do próprio bolso para ver qual era a do Goiânia Noise. O ano era 2000, mas não me lembro qual era a edição do festival – acho que a sétima. Pousamos no cerrado e fomos muito bem recebidos pelo Fabrício Nobre, organizador do festival. Chegamos com uns dias de antecedência, então deu tempo pra gente dar umas voltas, conhecer a cidade e ficar amigos do Deuselino, o porteiro do Hotel Príncipe, onde estávamos hospedados. Foi uma experiência do caralho. Meu primeiro festival. Você lá na recepção do hotel jogando conversa fora com o Deuselino e aí vê uma outra banda chegando. Se oferece pra ajudar a carregar algumas coisas e pronto: amigos novos da Bahia ou do Rio ou de São Paulo ou de Curitiba. Talvez eu não tenha todo esse tino profissional dos que dizem que um festival é o lugar ideal pra se fazer contatos, pois eu sempre achei que festival é o lugar ideal pra se fazer amigos. E já no Goiânia Noise conheci pessoas que amo até hoje e que amarei pra sempre. Amigos para debaixo d’água. Éééééé, lá no meio de um monte de rockeiros fedorentos, eu achei. Uma porção deles. E declaro que esse é o meu maior legado dos tempos de Bidê. Porque depois desse, fomos para uma porrada de festivais e de cada um, voltei com, pelo menos, um amigo do peito.

Mas, voltando aos primórdios, depois da viagem apareceu o Lee. Uma coisa cabeluda, com um visual meio hard rock e sotaque de paulista. Me senti em casa por ser paulista e ter amado Bon Jovi na adolescência. Ele nos passou seu currículo em um boteco ao lado do estúdio onde ensaiávamos. Tentou nos dar um panorama do que seria a nossa vida dali pra frente, mas eu não levei muito a sério. Achava que era papo de empresário querendo iludir jovens artistas. Depois fui perceber que ele estava certo. E a responsabilidade crescia na mesma proporção que a badalação.

Pra lançar o CD, fizemos uma porrada de shows de rádio (ou seja, de graça) e o nome da banda ficou bem conhecido no interior do estado. Por isso o Lee tinha facilidade de vender nossos shows em várias cidades. Mesmo assim, ainda ficamos um bom tempo sem ganhar grana pelos shows para pagarmos pelos amplificadores. É assim, né? No começo tem que investir. O mais louco de tudo foi que depois que havíamos pago todas as dívidas, fizemos um show em Bento Gonçalves que seria o primeiro cachê de verdade pra todo mundo. Na volta pra Porto Alegre, o Lee chamou cada um de nós num canto do ônibus e entregou a grana, com recibo e tal. Neste dia, ao chegar em Porto Alegre, fui descer do ônibus e torci meu pé. Tive de usar muletas durante muito tempo e isso me atrapalhou em várias ocasiões importantes para a banda. Fórum Social Mundial, por exemplo: show com divulgação pesada em vários veículos e em vários lugares diferentes na mesma tarde. E eu lá, me arrastando de muletas para cima e para baixo. Teve também um show de ano novo na praia e minha tala ficou cheia de areia. Mas o pior foi quando fomos conhecer a Abril Music, em São Paulo. Eu cheguei com aquelas muletas e todo mundo ficou me olhando com cara de pena. Que merda. Na mesma noite fomos participar do nosso primeiro programa de tevê em rede nacional. Era o “O Positivo”, com o Otaviano Costa. E era ao vivo. E eu lá, pendurada em uma perna só, pedindo um banquinho durante os intervalos.

No dia seguinte, fechamos um show de última hora no bar Orbital. Foi tudo meio de improviso, mas como tínhamos tocado ao vivo no programa do Otaviano, estávamos com todos os nossos equipamentos. Nosso primeiro show em São Paulo. Foi um clássico. Nós estávamos extremamente empolgados e atendíamos a cada pedido de “mais dez” do público. E eu lá, de tala no pé. Mas isso não foi o pior. O palco do lugar era só um tapete aberto lá no fundão. Acontece que tinha um ralo embaixo do tapete que tava jorrando uma água sei lá de onde. E começou a rolar um alagamento, mas só no palco. O Pedro pisava no pedal do bumbo e eu só via água espirrando pra todos os lados. Adivinhem só: pezinho com talinha no chão e boquinha no microfone... Tomei uns 300 choques na boca antes de me dar conta de que o melhor seria ficar que nem uma gazela (ou um Saci Pererê) durante o show: num pé só. De vez em quando me desequilibrava e buscava apoio nos meus teclados, que se balançavam junto comigo. Foi demais. Suspense, terror e pânico. Mas o show foi do caralho.

Depois de uma turnê extensa pelo Rio Grande do Sul, entrou o Poladian na história. Assim, fomos morar em São Paulo pra intensificar nosso trabalho de divulgação do CD. Aí entrou Jô Soares, Fábio Jr (um fofo, diga-se de passagem), Amaury Jr, Adriane Galisteu (uma vaca, diga-se de passagem) e programas de tevê e rádio no interior de São Paulo mais Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis. Enfim, entramos no “caráter nacional” da história. Fizemos playbacks e rimos da cara de vários apresentadores nesse meio tempo.

Mas o que era legal mesmo era a Mansão do Rock, a casa onde morávamos no Brooklin, em São Paulo. O lugar era gigante. Tinha até um banheiro com sacadão (nunca entendi para que servia aquilo, mas durante as festas que dávamos lá, a sacada do banheiro era sempre um lugar muito freqüentado); a Irene, nossa empregada fã de Roberto Carlos e Lafayette e leitora de Raymond Chandler; e o nosso próprio estúdio no quintal. Bem em cima do quarto do André. Era acordar e ir para o quintal ensaiar, o que na maioria das vezes era muito cômodo. Mas quando estávamos de ressaca, era um cu, porque aí a gente não desculpa para “faltar” no ensaio.

Mesmo que todo o desentendimento com o Rossato tenha partido da nossa convivência diária, tivemos bons momentos naquela casa. Comemoramos a vitória do VMB 2001 (como banda revelação) na sala da Mansão do Rock. Muitos jantares, festas e músicas foram feitos ali. Quase todo o Outubro ou Nada foi composto na sala e no quintal daquele lar. Também foi lá que sentimos muitas saudades da família e dos amigos. E era ali que um pegava na mão do outro e dizia: “segura a onda; estamos todos aqui na mesma”. No final das contas, tínhamos de voltar para Porto Alegre para gravar o segundo disco. O Poladian não queria nos liberar e o que rolou foi quase uma fuga. Pegamos uma carona no ônibus de uma banda gaúcha que estava por São Paulo (a Hard Working Band) para os nossos instrumentos e nos enfiamos em um ônibus da Penha pra voltar pra casa.

Passamos todo o verão de 2002 ensaiando e pré-produzindo o segundo disco. Nessas alturas, o estúdio na casa do Sá já havia ficado pronto, o que nos permitia ensaiar por horas, sem limite de tempo. Só que não tinha ar condicionado e o estúdio era todo vedado. Então tocávamos umas cinco músicas e nos jogávamos na piscina para parar de suar. E assim corriam as tardes.

O inverno veio com o Thomas [Dreher], nosso produtor. A gente passava toda a tarde ensaiando as músicas novas e ele aparecia no início da noite para ver como elas tinham ficado. Depois, passamos nossa rotina para as madrugadas do estúdio da Acit, onde o CD foi gravado. Das oito da noite às oito da manhã. Durante mais de um mês. Tentei adotar uma rotina notívaga, mas sempre que chegava no estúdio (depois de ter dormido o dia inteiro), olhava uns colchões que tinham por lá e acabava me aninhando atrás do gravador de rolo. Era tão quentinho ali... Quando chegava a minha vez de gravar algo, os meninos me acordavam. Enquanto isso não acontecia, ficava tendo sonhos com as músicas no fundo. É por isso que na faixa interativa do CD tem uma pasta com os meus sonhos.

Com o Outubro ou Nada fizemos muitas viagens do caralho. Uma delas em um ônibus megaconfortável que saiu de Porto Alegre e foi parar em Goiânia após diversos shows. A mais inesquecível, quando alugamos um motorhome (não sei se aquele ônibus com camas poderia ser chamado assim, mas vai lá) e fizemos o mesmo trajeto, com paradas em Florianópolis, São Paulo para o VMB 2003 (porque nosso site concorria), Rio de Janeiro (onde tocamos com o Marcelo Nova), Belo Horizonte (onde conhecemos o Claudão), Brasília... Na volta paramos em Camboriú e Curitiba. Lindo demais. Nem vou falar do Curitiba Pop Festival senão eu choro... Aquilo foi lindo demais. Outubro ou Nada foi tudo.

Mas, depois de algum tempo, as coisas na minha casa começaram a ficar mal e eu já não conseguia me concentrar nas coisas da banda. Tocar em banda também tem das suas coisinhas chatas. Aturá-las é uma questão de profissionalismo. E eu fui perdendo o saco para essas coisinhas e já nem curtia mais a parte legal da banda, que é viajar, tocar, beber, comer gente, essas coisas.

Fui ficando cansada e pedi permissão para tirar umas férias durante o verão de 2003. Os meninos disseram que tudo bem, pois viram que eu estava me esgotando. Na verdade, fui trabalhar feito camela em um bar de praia em Santa Catarina que eu e umas amigas arrendamos. Estava precisando trabalhar com alguma coisa diferente e que não me exigisse muita concentração. E foi lá, longe de tudo, que eu resolvi voltar pra casa e dar uma força aqui, em Campinas, onde estou morando hoje. Me lembro que chamei o Sá e o André pra conversar no meu apartamento e eles foram muito legais comigo. Eu estava me sentindo culpada por abandonar a banda justo na fase de produção de um novo CD. Eles me tranqüilizaram dizendo que preferiam que eu não saísse, mas que não queriam que eu ficasse na banda se não estivesse me sentindo bem

Uma semana antes de me mudar de lá, fui até o estúdio onde eles já estavam gravando o disco novo (que hoje se chama É Preciso Dar Vazão aos Sentimentos) para fazer meus registros finais. Como uma forma de despedida, gravei teclados em “Não Seja Assim” e vocais em uma composição minha, do Sá, do André e do Carlinhos. Ela se chama “Exijo Respeito” e cuja letra foi feita antes mesmo de gravarmos Se Sexo é o que Importa, Só o Rock é Sobre Amor, numa época em que o Carlinhos e eu costumávamos voltar a pé dos botecos compondo a Ópera Rock do Seu Adão (trabalho esse que um dia gravaremos).

É isso aí. Às vezes, é preciso assassinar algumas coisas que julgamos vitais, para podermos crescer. Quem guia é o coração. É preciso dar vazão aos sentimentos!
[KA]


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