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Bem-vindo ao Clube

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Rock em transformação e uma Inglaterra mergulhada em crise são o cenário do livro de Jonathan Coe.

Durante a turbulência

Record/DivulgaçãoO fim do rock progressivo de longas e pretensiosas canções e o início do punk com suas músicas de três acordes e três minutos. A decadência da era trabalhista, que leva o país a uma grande crise econômica e proporcionará em breve a grande derrota dos sindicatos para o conservadorismo representado por Margaret Thatcher. É nesta confusa Inglaterra dos anos 70 que se situa Bem-vindo ao Clube, uma das melhores obras da recente literatura pop britânica. Fabrício Muller destrincha o livro de Jonathan Coe.

Narrativas diferentes e coerência em todos os personagens são os destaques do livro de Coe.

Não é exagero dizer que a década de 70 na Inglaterra é o personagem principal de Bem-vindo ao Clube, de Jonathan Coe (Editora Record, 496 páginas). Contando as histórias de alguns estudantes – e alguns de seus pais – vivendo na cidade de Birmingham entre os anos de 1973 e 1979, o autor traça um bem-sucedido painel de uma época.

A Inglaterra mostrada por Coe é um país que vive o fim de uma era, a trabalhista. Os sindicatos, poderosíssimos na década anterior, começavam a perder sua influência – prenúncio da derrota inapelável que viriam a sofrer na era Thatcher. A decadência do trabalhismo, que levou a Inglaterra a uma forte decadência econômica, é mostrado principalmente nos problemas vividos pelo sindicato do personagem Bill Anderton. Enquanto isso o conservadorismo é representado, entre outros, pelas idéias do insuportável Paul, irmão mais novo do personagem principal do livro, Ben Trotter – este um rapaz tímido, sensível e bom aluno.

O fim da era do rock progressivo, de longas e pretensiosas canções, e o início do punk, com seus três acordes em músicas de três minutos, não são esquecidos em Bem-vindo ao Clube. Principalmente em uma passagem particularmente dramática: uma longa e estranha suíte do personagem Phillip tem execução simplesmente recusada pela sua banda. Motivo: o baterista e baixista, depois de pouco tempo tocando aquela música progressiva, começaram a tocar insanamente um tema punk – no primeiro e único ensaio do grupo.

Os temas polêmicos dos movimentos pela independência da Irlanda do Norte e do País de Gales também são mostrados por Jonathan Coe. Enquanto a irmã de Ben fica perturbada mentalmente após ver seu noivo ser assassinado brutalmente por uma bomba do IRA [Exército Republicano Irlandês, organização terrorista e política que luta pelo fim do domínio britânico na Irlanda do Norte], o próprio Ben é obrigado a ouvir um longo e violento discurso contra os ingleses feito pelo tio de sua namorada – partidário da independência do País de Gales.

Mas Bem-vindo ao Clube não seria tão bom se procurasse se concentrar apenas em mostrar um retrato da Inglaterra dos anos 70. A verdade é que o livro de Jonathan Coe consegue prender a atenção do leitor da primeira à última página também por diversas outras qualidades. O autor não se perde com o grande número de personagens apresentados: Praticamente todos – principais e secundários – são interessantes e coerentes; a aparição deles raramente parece forçada. Coe também apresenta algumas técnicas diferentes de narração durante o desenrolar da obra [por exemplo: em primeira e terceira pessoas; narrativas jornalística e epistolar], mas sempre de forma justificável, além de não dificultar demais o trabalho do leitor.

A verdade é que Bem-vindo ao Clube é um excelente livro, muito bem escrito, mas com um viés um pouco melancólico. Dá a impressão, às vezes, que Jonathan Coe parece saudoso da velha Inglaterra. Estou ansioso, aliás, para ver se esta impressão se confirma em O Círculo Fechado, lançado recentemente no exterior).Afinal, a continuação de Bem-vindo ao Clube situa os mesmos personagens no final da década de 90.


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