Sábado Nov 01

Arquivo

Pelebrói Não Sei

Atenção, abrir em uma nova janela. ImprimirE-mail
Twittar este Artigo
Oneide Dee Diedrich volta à cidade natal, faz um grande show e dá a entrevista mais sincera de sua vida.

Filho prodígio

Fotos: Cristiano ViteckQuatro anos depois, Oneide Dee Diedrich está de volta à cidade onde nasceu. Durante a nova passagem do Pelebrói Não Sei por Cascavel, o grupo não fez apenas um grande show ao lado de seus amigos de banda. Oneide também conversou com o Bacana em uma entrevista no qual o vocalista se abre e prefer responder às perguntas com sinceridade, deixando de lado suas habituais histórias. Cristiano Viteck esteve no município do sudoeste paranaense e conta como foi a aventura.

Oneide: pose de rockstar no palco de Cascavel.

No dia 5 de setembro, o Pelebrói Não Sei levou a anarquia em forma de música para Cascavel, cidade situada no sudoeste do Paraná e onde o vocalista Oneide Dee Diedrich nasceu. Após rever a parentagem que não via há muito tempo, Oneide e seus colegas pelebróis fizeram um show que só não foi perfeito pelo pequeno público (fraca divulgação). A banda curitibana desfilou pérolas alternativas como “Lágrimas Alcoólicas”, “Céu Sem Cor”, “Mais Um Blá Blá”, “A Sádica e a Rosa” (essa sem nenhum entusiasmo) e “Fantasminha”, presentes em seus dois discos [Positivamente Mórbido e Lágrimas Alcoólicas, ambos lançados pela gravadora independente curitibana Barulho Records].

Diferentemente dos dois primeiros shows do Pelebrói Não Sei que este colaborador viu, a apresentação de Cascavel mostrou uma banda muito mais à vontade. Na primeira vez, em 1999, a banda era bastante inexperiente, apesar de já apontar a postura catártica que iria adotar nos palcos. Em 2000, quando o grupo abriu o para Marky Ramone & The Intruders, eles estavam visivelmente nervosos e fazendo um set bastante frio. Porém, desta vez o bicho pegou. Mesmo turbinados por algumas latas de cerveja a mais, o Pelebrói Não Sei mostrou porque é considerada uma das principais bandas em ascensão no país. Paulo [baixo], Joca [guitarra] e Guilherme [bateria] têm tamanha coesão que o vocalista Oneide Dee Diedrich fica livre para levar a platéia na palma da mão com seus discursos e neuroses que entrecortam o espaço entre uma música e outra.

E os comentários do vocalista são mesmo um show à parte. Na apresentação do Curitiba Pop Festival deste ano, o Pelebrói Não Sei caiu nas graças do público e da crítica quando incentivou as pessoas a ultrapassarem a barreira que separava aqueles que haviam comprado a primeira e a segunda leva de ingressos. Em Cascavel, Oneide começou a performance anunciando: “quem pagou o ingresso para ouvir CPM 22, cai fora! Eles fazem letras como eu fazia quando estava na 3ª série”. Mais adiante esculhambou com o Skank, passou o microfone para o público cantar os refrões de algumas músicas e com muito entusiasmo tomou um banho de cerveja dado por um fã... Diversão total.

Antes do grupo subir ao palco, o Bacana conversou com Oneide Dee Diedrich, que falou sobre o novo disco, o bom momento da banda, suas ligações com o oeste paranaense, a origem esdrúxula do nome da banda e muito mais.



Para começar eu gostaria que tu falasse um pouco a respeito da formação banda, quando foi que elacomeçou e tudo mais a respeito do Pelebrói Não Sei...
A gente começou em 1995. Eu disse pro Joca, que é um grande amigo meu, paixão da minha vida: “eu tenho um baixo, não sei cantar e não sei tocar, topa?”. Ele topou. Aí já era. Depois entraram os nossos brothers e hoje a gente se dá muito bem. A gente briga de vez em quando para ensaiar, essas coisas, mas quando a gente senta para beber, as nossas mulheres e namoradas ficam com muita inveja...

Como assim?
Porque é uma amizade foda... Posso falar [piiiiii] foda? É uma amizade muito legal assim, porque as mulheres geralmente não entendem porque os homens vão jogar futebol. Um dos motivos é para falar das mulheres. Outro é para ficar com saudades das mulheres. O outro é para ficar com os amigos. E a gente se entende muito bem, cara. Na verdade a gente se ama... e se odeia, lógico.

De onde surgiu o nome Pelebrói Não Sei?
Pelebrói? Não sei...

Não sabe? Não tem uma história de Paraguai no meio?
Aaahhhhh, você está informado... Eu já ia te sacanear e inventar uma história esdrúxula. Mas eu tinha um primo lá no Paraguai, que está lá até hoje. E ele me xingava. Eu morei no Paraguai até os 12 anos... “Sai daqui, seu pelebrói! Vai para lá, seu pelebrói!”, me xingava. Até hoje eu não sei o que quer dizer esse pelebrói. Outro dia encontrei com ele e disse “me conta aquela história, por que você me chamava de pelebrói?”. Ele: “eu não sei, é um outro primo que chama...” Então, eu não sei, velho... Pelebrói é não sei.

Neste ano vocês estão muito na mídia, principalmente depois da apresentação no Curitiba Pop Festival na mesma noite em que tocou o Pixies. Como está o momento da banda?
Cara, a gente sempre vive... É igual para nós. Com todo o respeito, danem-se os Pixies. Foi muito legal eles terem vindo só para fechar o nosso show, mas a gente sempre quis ter uma banda para fazer festa, para estar com amigos, para beber cerveja, para ver as mulheres bonitas. Então a gente não está nem aí para os gringos. É legal, a gente abriu o show dos Dead Kennedys, do Marky Ramone, mas o mais legal é que, de repente, alguém te manda e-mail e a gente sabe que está tocando em Medianeira, no Paraguai, em Cascavel, Foz do Iguaçu. Daí a gente recebe e-mail de Marcehal Cândido Rondon, Guaíra. A gente faz um rock muito singular, não tem essa história de “galera, a gente vai fazer uma coisinha para vocês gostarem”. Não! É para vocês odiarem, é para doer no ouvido. Acho que tem uma coisa de interior nisso...

Agora vocês estão trabalhando na gravação do terceiro disco. Tem alguma previsão de lançamento, como está esse novo álbum do Pelebrói Não Sei?
Isso é legal. A previsão é uma coisa que... Eu posso te dar uma previsão... Mas previsão é igual diziam lá no Paraguai: “hoy puede chover como no puede chover”. A gente vai gravar mais, porque eu preciso dizer das minhas dores, eu preciso dizer dos meus amores. Então a previsão é essa: vai ficar nublado e o bicho vai pegar. Mas para o CD sair, não sei. A gente gravou seis músicas. Sinceramente, estão lindas, lindas, dor-de-cotovelo violenta. A gente está gravando lentamente, com muito respeito ao Pelebrói... Eu diria que a gente está cada vez mais parecido com o Pelebrói.

Você falou que o disco novo está nublado. Vocês têm um lado meio humor negro: o nome do primeiro disco é Positivamente Mórbido e o do segundo, Lágrimas Alcoólicas. Como é esse espírito do Pelebrói?
Lágrimas alcoólicas... Eu achei essa frase na música de um gaúcho, de um CD que eu ouvi e achei fantástico. Tinha de fazer uma música falando disso porque eu me encontrei nessa frase, encontrei meus amigos, encontrei meus pais, meus primos. Sabe aquela coisa que você não tem coragem de dizer para o teu amigo e quando você toma umas você diz, abraça e volta a conversar. Porra, por que a gente precisa ser tão hipócrita? Não é que a gente precisa ser bêbado, mas como a gente é fraco, né, cara? A gente tem de tomar um gorozão para abraçar a pessoa que mais ama... Lágrimas alcóolicas! E um pouco também para encher o saco dessa vida medíocre que a gente leva. Nós somos medíocres. Não sei se isso é bom ou ruim, mas isso é medíocre.

Como é pra alguém que nasceu no interior do Paraná, de repente estar conseguindo mostrar o seu trabalho nacionalmente?
Na verdade, eu nasci no interior da música, meu pai foi músico durante vinte anos. A gente precisa sonhar. Os sonhos são fundamentais. Eu me lembro de quando eu tinha uns 9 anos, uma imagem perfeita da minha vida... Eu nunca fui tão honesto em uma entrevista, sempre invento histórias... Um amigo meu dizia assim: “eu estou indo embora, senão nunca vou sair do Paraguai”. Então me lembro com muita propriedade daquele sonho, daquela primeira foto que eu tirei com uma guitarra de madeira, com as pernas abertas. Depois eu vi o Johnny Ramone uns 15 anos depois... Cara, eu fui um adolescente problema, fui uma criança brilhante, era o primeiro da minha sala. Quando eu fui pra Foz do Iguaçu eu fiz três vezes... Isso eu também nunca falei... Fiz três vezes a 7ª série, mais duas vezes o 1º ano... E eu aprendi que reprovar não é burrice. Burrice é... bom, deixa pra lá, não vamos falar disso. Voltando, eu sempre sonhei com isso. Os anos em que eu reprovei eu ouvi pelebrói, foram os anos que eu aprendi a fazer punk rock.

Você é psicólogo. Como se dá essa relação entre punk e psicologia? O punk é um escape ou a psicologia que é?
Hoje a psicanálise... Freud é a minha linguagem e as minhas letras são neuróticas. Falo do dia-a-dia, das dores de amores, das trepadas... Pode falar “trepadas”? Mal sucedidas... A psicanálise foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, a minha banda também, de fato... Eu até me emociono falando disso. Pelebrói pra mim é uma história muito foda, porque a gente começou a fazer música e a escrever letras absurdas em um momento em que as melhores bandas do Brasil, fora os majors, eram bandas de covers. A gente fez um show em Goiânia que arrebentou, em Curitiba a gente é muito legal. Daí a galera fala assim “hey, você é do Pelebrói!”. Eu sou isso mesmo. “Vamos tomar um chope?”. “Me dá um autógrafo?” “Mas que autógrafo? Vamos tomar uma cerveja, vamos conversar”. Pelebrói foi a coisa que eu já era quando o meu primo me xingou lá no Paraguai, depois eu só fiz ser.

Que caminho deve tomar o Pelebrói? Pintou proposta de gravadora grande, a banda não tem intenção de assumir essa coisa maior e pretende continuar independente? O que está pegando?
A tua pergunta é fantástica pra localizar o que o Pelebrói é e eu, entendendo você como um pelebrói, você vai entender isso. Se for para a gente ir a uma major, para a Sony, para a puta... para a ponte que caiu, a gente vai como Pelebrói. Eu quero gravar as coisas que eu escrevo e mostrar pra vocês as minhas idéias absurdas, que vocês têm medo de dizer e eu tive coragem de jogar na roda. Pelebrói, hoje, eu tenho visto no Brasil, sem prepotência alguma, é uma banda de guerrilha. Eu vejo e-mails de todos os lados. A gente não é uma banda de moda, a gente é uma banda de bêbados. E eu acredito em Baco, em Dionísio, os nossos deuses supremos. A gente vai continuar fazendo isso até não dar mais pé. Mas eu estou cagando pra indústria fonográfica. A minha questão é poesia, se alguém quiser pagar para a gente fazer isso... Estamos bem sossegados. A gente está ganhando dinheiro, paga o nosso aluguel, a nossa cerveja, bebe pra caraaalho... Temos bons amigos. Agora, a banda não pode esquecer o que conquistou, que está aqui, com amigos. A gente sabe que vai ficar aí.

As gravadoras independentes, pequenas, têm o problema da distribuição. Quanto ao MP3, vocês têm alguma restrição?
MP3, pirataria, me mande o papel que eu assino embaixo. O legal é que essas Sony e EMI, essa galera aí não sabe o que fazer. Lógico! A internet acabou com a indústria fonográfica. E eu acho isso o máximo. A gente está em todos os lugares. Se você entrar na nossa página, você pode baixar música. Não estou nem aí para as majors. Se elas tiverem muitos dólares para nos dar, a gente vai aceitar, vamos assinar contrato, vamos entrar no esquema... No nosso esquema. Vocês entendem o momento que está acontecendo? A internet possibilitou a liberdade da música no mundo. Hoje nós somos livres. Qualquer sujeito que tem um computador e faz músicas maravilhosas pode pôr na rede para todo mundo baixar. Por que a gente tem que estar pagando pau para a EMI? Eles estão criando produtos, produtos e produtos pra tentar suprir as poucas vendas deles. Eles têm produtos, não têm mais artistas. Hoje no Brasil todo mundo ganha com música, menos os músicos. Produtos tipo KLB, essas meninas que cantam por aí. Eles criam produtos porque têm de vender, vender, vender! E a arte? Já era? Não era, porque o underground... Eu sei... Na psicanálise, tudo o que é recalcado retorna. Eu, meu Deus, que eu não acredito mas rezo por ele, acredito que o artista tem de ir atrás da sua arte. Se for ir atrás de fazer uma música para agradar fulano, isso dá dinheiro! Mas eu não vou vender minhas letras. As minhas músicas fazem parte de mim.

Para encerrar, mande um recado para os pelebróis que estão espalhados pelo mundo...
A coisa mais legal de ser um pelebrói é que a gente encontra vários em todas as partes. E não são pessoas que adquirem uma moda ou que compram uma nova bicicleta. Aos pelebróis: primeiro, não tornem-se um pelebrói supérfluo. Nós temos de desaparecer embaixo de Cervantes, de Machado de Assis, de Victor Hugo. Leiam! Não fiquem em frente à TV vendo a mesma coisa pasteurizada. Leiam, está tudo lá faz tempo...


Artigos Relacionados:
Artigos Relacionados - Recentes:
Artigos Relacionados - Antigos:

Comentarios (0)Add Comment

Escreva seu Comentario
menor | maior

security code
Escreva os caracteres mostrados


busy

Novos Downloads

Vanilla Dreams (mb extra) Punkake
Vanilla Dreams (mb extra)
Wasabi EP (mb 93) Magaivers
Wasabi EP (mb 93)
Bunch Of Grapes (mb 92) Tangerines And Elephants
Bunch Of Grapes (mb 92)

Videos Recentes

View Video
Lost In The Woods
View Video
Your Love Is Killing Me
View Video
I'm Callin'
View Video
Gone Away
View Video
If You Were Still Around
View Video
Haverá