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Ao Vivo - Replicantes e BAAF

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Quarenta históricos anos de punk rock reunidos em uma mesma noite no palco do não menos histórico 92 Graus.

Ao Vivo

Fotos: iaskaraReplicantes + Beijo AA Força
92 Graus [Curitiba] :: 15.09.04

Replicantes e BAAF: duas décadas de amor ao punk rock.

Na mesma noite em que o punk rock chorava a perda do terceiro ramone original em apenas quatro anos, o templo sagrado da música underground de Curitiba celebrava um encontro histórico. Pela primeira vez nos vinte anos de carreira de cada banda, os gaúchos do Replicantes e os paranaenses do Beijo AA Força tocavam em um mesmo palco e faziam a festa de muitos moleques,jovens, trintões e quarentões que tiveram muitos noites de alegria, festa, frustração e tristeza embaladas ao som de vocais berrados, batidas urgentes e três básicos acordes. O quarteto porto-alegrense – com Wander Wildner de volta aos vocais, mas sem um de seus fundadores [o ex-baterista e frontman Carlos Gerbase é reconhecido como um dos grandes diretores de cinema nacional] – veio à capital paranaense para lançar em dois dias Em Teste (Antídoto), o décimo disco da carreira. Na primeira noite, tiveram a abertura de uma nova formação punk da cidade, o Acid Eaters. E a participação especialíssima dos contemporâneos do BAAF em um set completo.

Rodrigo Barros (guitarra e voz), Ferreira (guitarra e voz), Renato Quege (baixo e voz) e Mola Jones (bateria) subiram ao palco com o objetivo de bater um recorde inusitado: espremer dezoito músicas em um set de quarenta minutos. O repertório veio do mais recente álbum do grupo [Companhia de Energia Elétrica Beijo AA Força, 2003, lançado também em comemoração de duas décadas de carreira], com o acréscimo de alguns hits espalhados pela história dos porões da cidade (como “Homem de Ferro” e “No Tempo das Diligências”), músicas de vários períodos da banda mais a sempre recorrente dobradinha dos ídolos do Clash (o reggae “Guns Of Brixton” e o billy turbinado “Brand New Cadillac”).

Ao vivo, a força das guitarras e a energia que inconscientemente acelera o andamento de várias músicas (“Se Marcos Prado Fosse James Joyce”, por exemplo, deixa de ser rockabilly para se transformar em um quase-hardcore) fazem o BAAF soar mais punk do que dezenas de formações posteriores da cidade. Também colabora a postura tô-nem-aí de Rodrigo – que interrompe o show para entregar fichas de cerveja para alguém da platéia buscar as bebidas no bar e acaba o set pedindo desculpas àqueles que “agüentaram a banda”.

Contudo, a principal característica vai além da simples questão “ser ou não ser punk”. Acima de tudo, este é um grupo curitibano. Assim como a capital paranaense é composta pela variedade e fusão de etnias e colonizações, o BAAF representa o verdadeiro rock do polaco doido. Toca hardcore com um incrível refinamento de letras e fraseados de guitarra. Faz dos versos – compostos pelos poetas marginais que vagavam pela cidade nos anos 80 – um festival de referências (diretas, indiretas, citações, hipérboles, metáforas) pouco usuais para o apreciador comum do formato guitarra-baixo-bateria. Hipnotiza com riffs certeiros (como as linhas lentas de guitarra de “Homem de Ferro”) ao mesmo tempo em que pode jogar tudo para o alto e promover uma algazarra inaudível em “I.K.M. – Indivíduos da Kanhota Militante” (cuja fina ironia da letra só pode ser percebida com o encarte do álbum em mãos). Por tudo isso, o Beijo AA Força é a banda das muitas caras que compõem uma só identidade. Como ensina a história de Curitiba. Por tudo isso é amada por muitos e ainda completamente desconhecida para milhares de outros. Como manda a tradição de Curitiba.

Na seqüência do BAAF, os irmãos Cláudio (guitarra) e Heron Heinz (baixo) mais Cleber Andrade (bateria) e Wander Wildner vieram para contar, à sua maneira, mais vinte anos de heroísmo punk rock. Ao contrário dos paranaenses, os gaúchos nunca chegaram a interromper temporariamente suas atividades [tanto que o título de um álbum recente é a irônica frase A Volta dos Que Não Foram], tanto que hoje computam dez lançamentos em sua discografia. Outra diferença é na forma de fazer – e sentir – música. Os Replicantes são, de fato, muito mais crus. Uma única guitarra. Vocais pouco melódicos e bem gritados. Arranjos monolíticos. Versos mais diretos, bem mais diretos. Tudo rápido e rasteiro. Pancadaria comendo solta com o puro espírito punk de gozação, insatisfação e sobretudo negação.

Para uma platéia ávida por incendiar uma roda de pogo, ouvir as composições mais novas até que não foi tarefa difícil. Músicas como “Lembrar de Ver Você Agora” não deixaram o show ter barriga. Os versos não foram cantados com o mesmo uníssono dos velhos hits mas riffs e levadas conseguiram prender a atenção de todos. Sobretudo a presença de palco do vocalista.

Wander Wildner, aliás, é um caso à parte. Primeiro porque ele consegue se distanciar da imagem punk-brega-mariachi com a qual firmou sua carreira solo e é venerado como um dos maiores artistas atuais do circuito indiebrasileiro. De camiseta podre, cabelo suado na testa e tatuagens do braço à mostra ele mostrou no 92 que o tempo em que ficou afastado de sua banda original em nada afetou sua performance. O palco pequeno e a idade avançada [sim, heróis do punk também envelhecem e deixam de ter a mesma energia teenager de outrora[no caso do 92, Wildner surpreendeu a todos vociferando “Killing Moon” e iniciando o refrão com a sonora frase “Vem com a luz da lua”]

Para que a platéia pogasse feliz no porão, os grandes hits dos primeiros álbuns, sempre tão esperados, bateram ponto – a maioria estrategicamente relegada ao final. “Sandina”, “Festa Punk” e “Hippie-Punk-Rajneesh” (hardcore em estado bruto, bem diferente da releitura billy-melódica do último álbum de Wander, Paraquedas do Coração) não poderiam ser deixadas de lado. Para o bis, foram reservadas outras duas pérolas dos primórdios da carreira: “Nicotina” e “Surfista Calhorda”. Este, um dos maiores hinos do punk rock brasileiro de todos os tempos, nunca deixa de ter o efeito de um sopapo na cara. Começa com a levada chupada de “Bela Lugosi’s Dead” (standard do Bauhaus nos tempos oitentistas do pós-punk) e descamba para os nervosos versos que conflitam personalidade e poder econômico avantajado (“Tem uma surf shop que só abre ao meio-dia/ Vive da herança milionária de uma tia/ Diz que vai para Nova York estudar.../ Advocacia!!!/ É mas quando entra n’água/ É, na primeira braçada/ (...) É, ele não surfa nada, ele não surfa nada, ele não surfa nada”).

Anos antes do Nirvana, uma banda brasileira já berrava contra o sistema, dizia não a elementos externos que pudessem afetar sua integridade artística e zombava do mainstream, da gravadora e de muletas comportamentais. Mostrava que ser underground era mais do que uma mera diversão. Era uma questão de honra, que vinha antes de todas as outras coisas (sucesso, fama, dinheiro...). Vale mais, afinal, cravar o nome na história e conquistar a veneração ininterrupta de duas décadas e mais de uma geração. Por tudo isso os Replicantes permanecem eternos.
Abonico R. Smith


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