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ESPECIAL - Wander Wildner
Escrito por Abonico Ter, 29 de Abril de 2008 11:57
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O último romântico
Seis anos se passaram para completar e lançar o tão aguardado Paraquedas do Coração. Neste meio tempo, Wander Wildner foi tocando a vida. Gravou outros dois álbuns e ainda lançou uma coletânea. Fez muitos shows pelo país e firmou sua carreira solo no circuito alternativo. Arrumou ainda tempo para retornar ao posto de vocalista do Replicantes e fazer discos e turnês com a banda que projetou sua carreira musical. Agora, ele colhe os frutos de um disco extremamente sincero, que tenta dar uma solução ao romantismo em sua outra obra-prima, o disco de estréia Baladas Sangrentas [1997]. Grazi Badke conversou com o trovador underground, sempre capaz de escrever diversas baladas pungentes e letras ultraconfessionais sobre o amor e a vida. A conversa é reproduzida abaixo, conservando a característica do bom gaúchês dos interlocutores.
Wander Wildner, durante o show com Flu e Frank Jorge no CPF 2004.
Esse era para ser o teu segundo disco. Por que foi que tu gravou outros discos nesse meio tempo e não terminou esse?
É, começou a ser gravado no Natal de 1998. Então rolou muita coisa, é uma longa história. Mas ele é exatamente como era para ser. Por isso que ele demorou tanto tempo, porque eu dependia do tempo do Tom Capone, no Rio.
Primeiro ele iria sair pela Trama. Eu comecei a gravar as bases de bateria entre o Natal e o Ano-Novo. A gente continuaria gravando depois, lá por Abril. Aí teve uma recessão em 1999. Foi quando o dólar subiu pra caramba. A Trama parou de produzir e o Miranda me falou que eles não iriam mais lançar nada naquele ano. Eu fiquei puto da cara com isso. “Pô, e agora?”. Acabei vindo para Porto Alegre, o disco parou e comecei a tocar com a Chulé de Coturno. Chegou uma hora em que eu tinha mais músicas novas, mais versões e eu falei: vamos gravar um outro disco. Que é o Buenos Dias.
E não poderia ter acabado o Paraquedas?
Não, aquele eu gravei aqui, baratíssimo. O Paraquedas é uma produção do Tom, que eu tinha que terminar com ele, porque o disco era meu e dele. O disco era para ter quarteto de cordas e para isso eu precisava de dinheiro. Então eu não iria lançar ele de qualquer jeito. Quando a gente começou a gravar ele, a gente tinha uma idéia. Então eu deixei, pra ver o que iria acontecer. Quando o Buenos Dias ficou pronto e eu ia lançar, o Miranda disse “vai dar problema com a gravadora”. Aí saiu pela Trama. Eles pagaram a gravação, pagaram os músicos, deram mais grana, fizeram toda a história bacana. Prensaram o disco e aí eu fiquei trabalhando ele.
Depois eu acabei saindo da Trama e fiquei com o que eu já tinha das bases do Paraquedas. Com o tempo eu continuei gravando com o Tom. Ia para o Rio, gravava as guitarras. Só que o Tom trabalha muito. Às vezes a gente marcava e na última hora não dava. Nessas, depois de marcar uma gravação, uma semana antes ele disse que não ia dar. Eu fiquei tão puto da cara. Eu já tinha mais músicas, entrei no estúdio e gravei o Eu Sou Feio Mas Eu Sou Bonito, lancei e fiquei um tempo trabalhando ele. Daí fui morar em Florianópolis, depois no Rio, em São Paulo. Fiz muita coisa. No tempo em que morei em Florianópolis, eu fiz outro disco. As músicas já estão prontas. Ano passado, depois que o Paraquedas ficou pronto, enquanto eu fiquei negociando com quem eu iria lançar, eu fiz uma temporada no Bar Ocidente só com essas músicas novas. O show se chamava La Canción Inesperada. Com músicas novas, duas do Paraquedas e algumas antigas. Na verdade, duas dessas músicas novas entraram na coletânea da revista Outra Coisa.
E como é que rolou a história da coletânea da Outra Coisa? Funcionou pra ti?
Ah, aquilo ali foi mais uma história. Eu pensei que iria funcionar mais, mas não funcionou o que eu imaginei.
Vendeu bastante?
Não, vendeu só 2 mil cópias. Saíram 20 mil revistas. Eu imaginei que, sei lá, iria vender umas 10 mil. Mas foi legal. De certa forma a divulgação valeu, qualquer divulgação é legal. Qualquer trabalho é legal. Tocar com o Ian McCulloch é legal, participar do show do fulano é legal, porque é música. Eu sou músico, quanto mais eu tocar e fazer coisas diferentes, melhor. Eu tenho um projeto que tem eu o Flu [Flávio Santos, ex-DeFalla] e o Frank [Jorge, ex-Graforréia Xilarmônica e ex-Cascavelettes], e que a gente deve fazer mais shows [Nota do Editor: apenas Porto Alegre e Curitiba, durante o último Curitiba Pop festival, puderam ver esses três heróis do rock de Porto Alegre em ação juntos]. Agora está difícil de conciliar a minha agenda com a do Frank e do Flu, que agora foi morar no Rio. Mas é um show muito legal, com certeza a gente vai voltar a fazer. É um show de clássicos da música gaúcha.
Como foi que rolou o cover de “Hippie-Punk-Rajneesh”, dos Replicantes? A versão de Paraquedas é bem diferente da gravação original...
Não tem muita história. É o que está acontecendo no momento, poderia ter outras músicas. Gravei as músicas que estavam rolando no momento.
Tu já pensava nisso antes mesmo de ter voltado para os Replicantes?
Não, na época em que eu fui gravar o disco, eu morava no Rio e tocava ela. Na hora de gravar, poderia ter entrado essa, como poderiam ter entrado outras. E eu optei por essas dez músicas. Achava que era legal, a letra tinha a ver com a história das outras letras. Tem o lance da letra se encaixar com a história que eu queria contar. O disco tem uma história. É um grande longa com vários curtas.
E qual é essa história?
Assim... O Baladas Sangrentas é um disco sobre relacionamentos que não dão certo. Muito em cima do romantismo do Roberto Carlos. Só que depois eu fui me dando conta que era uma merda esse romantismo, que não era real. Era um romantismo que foi institucionalizado, mas o amor não é isso aí. O verdadeiro amor não é esse do Roberto Carlos. Pô, tô me dando mal sempre, alguma coisa está errada. Então a forma de amar não é essa, a forma de amar é outra. Eu comecei a descobrir o que é que era. O Paraquedas é o antídoto. O Baladas é o veneno. O Paraquedas já é eu colocando uma saída paras coisas.
É mais otimista?
É, tem os problemas de relacionamento, mas as músicas terminam melhor. Em “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro”, no final a música sobe e canto "Eu sou o rei do iê-iê-iê". Tanto que o clipe mostra isso.
Tu faz os roteiros dos clipes?
Eu tinha umas idéias e a Laura [Castilhos], que dirigiu, veio com outras. Eu queria que ela trabalhasse comigo há um tempo. Eu contei a idéia que eu tinha, que era a do cara arrastando um violão. Em um final de semana ela trabalhou a idéia e segunda-feira ela tinha o storyboard pronto do clipe. É para ser um clipe de novela. Aquela cena que entra a música, aparecem os personagens e fica ali dois minutos na novela das oito. Ele é cru, aparecem as feições do rosto, sentimento pra caramba, bem como novela. A gente queria isso, uma coisa bem dura, para parecer que o cara tá sofrendo mesmo. Eu adoro ele, é o melhor clipe até agora.
Tu já tens idéia para algum outro?
A gente vai fazer o de “Candy” agora, que é no show. Já foi filmado no Bar Opinião [durante o show de lançamento de Paraquedas do Coração, em Porto Alegre, no dia 12 de julho]. Esse é o Marcelo Ferla quem está fazendo, junto com o Caco, que foi quem fez a fotografia do clipe de “Empregada”.
Quando tu começou a carreira solo, veio com essa história do punk brega, de cantar em paraguaio. Tu já chegaste a tocar em algum país Hermano?
Não, mas eu toquei em Barcelona [risos]. Mas aí é que tá, esse negócio da língua é o seguinte: não é o espanhol. Eu não falo espanhol, eu não quero falar espanhol. A minha influência é a música que eu ouvia nos anos 70, música gaúcha e muito de música latina. Eu ouvia Mercedes Sosa, Violeta Parra, essas coisas. Eu ouvi muita milonga. E no Pampa, o que é que se fala? o que é o Pampa? Tu pegas Rio Grande do Sul, Argentina, Uruguai, Paraguai... É uma região. E, se tu vai ver, o gaúcho é parecido com o espanhol. só que o que é o espanhol? Na Argentina tem um sotaque; na Bolívia ou no Peru tem outros. Não existe um espanhol, como não existe um “brasileiro”. Vai para o Nordeste ver como as pessoas falam. É diferente. Outras palavras são usadas, os acentos são diferentes. Então não existe falar o português correto. Isso é mentira, não tem um português só.
Não tem que falar uma língua, tem é que se comunicar com as pessoas. Eu tenho músicas como “Guarda Chuva”... Não sei, eu falo “guardarruva”. Não me interessa falar a palavra certa, é poesia. Eu tenho liberdade de fazer o que eu quero, de misturar. Não tenho que falar o português correto do Pasquali. Não tem nada que me obrigue, nenhuma lei. A única lei que existe são as leis fundamentais do ser humano, que são dignidade, respeito, essas coisas. Fora isso não tem lei nenhuma. Essa sociedade não é a minha, eu não vivo nessa sociedade. Eu vivo numa sociedade alternativa. Não voto, não concordo com o governo, não concordo com o que é a sociedade, não tem nada a ver comigo. E eu não preciso aceitar isso, fazer igual ao que todo mundo faz.
A banda tá fechada hoje? Como rolam as composições?
Sim, há quatro anos. Tem o Bolada [bateria], o Sting [baixo], o Jimi [Joe, guitarra] e agora o [Astronauta] Pingüim [teclados]. A música nasce no violão e quando levo para o ensaio a música se transforma. Às vezes eu digo: “é mais tranqüilo ou essa parte fica pesada”, conforme a letra. Eu faço cinema, na verdade. Cinema em forma de música. Então cada música fica um curta-metragem. É a letra que pede que pese ou não. Conforme a ação do que está acontecendo na letra.
O teu processo de criação então é visual...
Totalmente visual, a música sai de cenas de uma história.
Foi daí que surgiu a história de ter as ilustrações para as músicas? Era para sair uma revista junto com o Paraquedas...
Iria sair uma revista, mas como a gente ia fazer o disco independente, seria complicado de vender nas lojas. Era o Almanaque Wanderley, que viria com os desenhos e textos, que estão no site agora [clique aqui]. Como eu tenho muitos amigos ilustradores, eu dei uma música para cada um.
E a leitura deles bateu com o que tu tinha imaginado?
Não, é totalmente diferente! Os caras são loucos. Cada um viajou em uma história. Algumas até tem a ver, como em “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro”. Mas faz parte. Eu quero me surpreender, quero que o cara faça um troço que tu não imagine.
E o novo disco dos Replicantes? Vai rolar outra turnê pela Europa?
O disco tá pronto. Agente deve voltar lá em Julho de 2005.
Como é que surgiu a história de ir pra lá?
Eu queria fazer uma turnê lá e aí tem esses amigos meus que viveram lá um tempo, que é o pessoal da banda No Rest. Eles viveram lá dois anos. Daí eu comecei a falar com o Zé, que é o guitarrista. Isso antes de voltar para os Replicantes. Quando voltei com os Replicantes, vi que, com o que ele tinha me dito, que era o que ele conhecia, o circuito Punk, eu vi que era melhor fazer a turnê com os Replicantes.
E como Wander, tu não pensa em fazer turnê na Europa?
Eu devo ir fazer uma turnê minha ou antes ou depois dos Replicantes. Mas eu devo fazer uma turnê sozinho ou tocar com pessoas de lá. Estou começando a pensar nisso agora.
E disco dos Replicantes, está saindo como?
Sai pela Acit, com distribuição nacional pela Trama. Já temos uma turnê marcada para setembro.
No teu disco tem versões para “Candy”, do Iggy Pop, e “I Believe In Miracles”, dos Ramones, que virou “Eu Acredito em Milagres” e ganhou letra em português. Li que tu estás fazendo uma versão agora para “Common People”, do Pulp...
Tô fazendo sim, essa música é sensacional. Uma vez eu estava vendo um programa do Multishow, que apareciam as legendas e eu achei muito legal a letra. E a música é muito linda também. Eu gosto muito de Pulp. Eu já estava há horas com essa idéia. Aí um dia, pesquisando na internet, eu encontrei a letra e passei ela para o Jimi Joe. E ele fez uma versão em português. Eu comecei a fazer uma versão só com o que eu me lembrava da música e quando fui ouvir eu tinha feito muito diferente. Eu vi que estava fazendo uma melodia completamente diferente... [risos] Comecei a gravar o disco dos Replicantes e parei um pouco com ela. Mas eu vou fazer e vou botar no show. Vai ser umas das vesões, com certeza.
Estou fazendo uma versão pra “Heroes” também. Mas “Heroes” não tem nada a ver com a letra. Só a idéia. Até o refrão é diferente. Essa eu devo botar na minha próxima temporada no Bar Ocidente. “Common People” vai demorar, preciso de tempo, a letra é muito grande, tipo Bob Dylan... [risos]
Por causa dos Replicantes, muita gente imagina que a tua formação seja o punk rock.
Não... [risos] os Repli são de 1983 e eu comecei a ouvir rock em 1975! Nem rock... No bairro onde eu morava, o pessoal ouvia rock e eu ouvia a Rádio Continental, que tocava os grupos daqui e folk. Eu gostava mais disso, ia aos shows. Então tenho muita influência das baladas. Por isso que eu faço tudo no violão. Na época em que eu ouvia a música gaúcha feita em Porto Alegre, os grupos todos tinham violão e percussão. Então as minhas maiores influências são a Jovem guarda e as coisas que eu ouvia na época.
Tem alguma coisa diferente que tenha feito a tua cabeça nos últimos tempos?
Ah, muitas coisas. O Los Hermanos é foda, é uma coisa diferente, é MPB com rock. Esses dois discos mais recentes deles são obras-primas. Ali tem uma coisa que não tinha. Eu sempre gostei muito de Legião também, acho muito bom.Beck foi uma coisa diferente, porque tinha balada com música eletrônica.
Beck foi... Caramba! Porque ele partia do violão e ia colocando coisas em cima. Como eu parto do violão... Achei muito interessante. Das bandas novas, Biônica é muito bom. Biônica me surpreende porque a forma da música é diferente. Eu tava falando para o Ramone (guitarrista). “cara, não tem aquela coisa, primeira parte, segunda parte, refrão, que é a minha escola”. A maneira como eles compõe é diferente e eu gosto disso. O disco mais recente do Bob Dylan também é foda, é muito diferente de tudo que ele fez, é um disco de vaudeville. Não tem refrão, o refrão é musical [instrumental]. Eu disse “o que é isso?”. Isso é muito interessante. Eu, casualmente, compus uma música assim, há muitos anos. É uma música antiga, que eu nunca coloco no show porque ela é diferente. Eu canto só uma história e o refrão é musical.
Mas tudo é cinema. Na verdade, eu queria fazer cinema e teatro, aí o show agora é mais teatral. Porque eu interpreto o personagem da música. Nos Replicantes é mais teatro ainda, porque eu estou só cantando, então eu consigo pirar mais com o corpo. Mas a minha idéia é colocar mais texto entre as músicas e ir contando histórias.
Isso para o próximo disco ou para os shows?
Para os próximos shows.
E que tipo de texto?
Coisas de menestrel. Juca Chaves, sabe? Ir contando a história. Às vezes rola isso naturalmente, às vezes não. Então a minha idéia é me comunicar mais com as pessoas, para pegar mais a atenção delas.
Trazer o filme para o show?
É, ligar... “Puta, eu tava sozinho aquela noite, cara. Puta, foi... Tava foda, eu tava triste, tava bebendo pra caralho no bar e tal”... Aí começa a música para contar essa história. Fazer textos que liguem uma música na outra. Isso é uma idéia que eu quero aos poucos ir colocando, para tornar o show mais teatral.
Eu achava que a música tinha que ser tudo, mas não. Eu vi um filme semana passada do Beethoven [Minha Amada Imortal] e ele fala isso. Ele diz ali, uma hora, que as pessoas não estão interessadas na música, elas estão interessadas em conhecer a alma do artista. Aí eu digo “caralho!!!”... [risos] Acabou com toda a minha teoria da música valer tudo. Daí caiu a ficha de coisas que eu já vinha sentindo.
Ahhhh, então não vai adiantar nada que eles vão sempre estar vendo o Wander ali? Não é a minha música que interessa, é o Wander que interessa. Então eu vou ter que arranjar um jeito de fuder com eles... [risos] A idéia sempre é fuder com o público. Isso era uma coisa que os Replicantes tinham muito, na primeira fase que eu participei. A gente fudia com o público. Tipo assim, não tocar “Surfista Calhorda” nos shows, massacrar o público, por isso que eles gostavam tanto. No bom sentido isso, claro... [gargalhadas] Mas eu me dei conta, então, de que é a minha alma que eles querem. Bom, então eu vou vender a alma que eu quiser, não preciso ser tão eu, Wanderley. Posso criar um personagem.
Mas tu já não tinha criado esse personagem quando surgiu o cara que é o punk brega ou Mariachi, do cara perdido no mundo?
É, essa história tem... Mas o punk brega foi mais uma maneira de definir o tipo de som. Precisava colocar ali. Que tipo de som tu toca? Punk brega. Mas Mariachi, sim, é o meu lance. Tanto que “Ganas de Vivir” é a última música do Baladas e também do Paraquedas, só que em outra versão. Na época do Baladas, a gente falou “Ganas de Vivir” é a música que define. Porque o Tom entende muito essa história. Y sus Comancheros é um nome que ele inventou. O Tom gosta desse lance, o estilo do estúdio e da casa dele é todo Mexicano, ele adora isso também. Então essa história do Mariachi é muito forte e continua no Paraquedas. Provavelmente esse próximo disco também tenha “Ganas de Vivir”... [risos] Só que com a versão da banda.
Já que tu disse que o primeiro disco era mais sofredor... Esse é mais otimista?
Esse e os outros dois já eram mais otimistas, tanto que o nome Buenos Dias era isso. Eu comecei a me dar conta que, se eu fizer uma música, eu vou viver tocando aquela música e eu vou carregar aquela história. Às vezes, tu carregar uma história triste, que te marcou muito, é difícil, é pesado. Então eu tenho que aprender a me distanciar também das músicas.
O Buenos Dias é um disco que fala muito de Porto Alegre. Eu estava brabo com a história da Trama e aí vim para cá. As músicas falam muito daqui, são só compositores daqui, fora “Beverly Hills”, que é também o cara sonhando com outra cidade. Na hora de dar o nome do disco eu não dei um nome de acordo com o que era o disco. Eu dei um nome para o futuro. “O que é que eu quero? Eu quero buenos dias, eu quero ter buenos dias!” Então eu botei o nome de Buenos Dias. Então a minha idéia é, ao invés de fazer letras sobre o que aconteceu, fazer letras sobre o que eu quero. “No Ritmo da Vida” é isso. É a primeira música que eu compus com essa idéia. De dizer como o que eu estou vivendo o presente para o futuro. Então agora as músicas que eu estou compondo são mais ficcionais. Fiz uma música sobre a Wynona Rider, outra sobre o rock gaúcho, sobre a minha guitarra... Tem a minha história, claro, mas não diretamente o Wanderley.
E qual é o filme que tu vais querer contar com esse disco?
...[Risos] Boa pergunta! Isso é o que eu estou vendo agora. Eu não sei ainda como é que é esse filme todo. Tenho as músicas e agora eu estou trabalhando nisso. Porque a maneira como eu vou gravar as músicas é que vai dar essa intenção. Agora é que estou vendo se vou gravar mesmo essa ou aquela música pra fazer a intenção desse longa-metragem.
Mas tu não sabe ainda qual é essa história?
Sim, é a canção inesperada. “La Canción Inesperada” é o nome de uma música que eu fiz em Amsterdam, que é a idéia do disco. Que é a música me surpreendendo. A coisa do futuro, a música inesperada, que vai surgindo andando pelas ruas, diferente de fazer música de aluguel...
E o teu próximo disco como é que vai ser? Independente?
Não, vai ter um selo provavelmente, eu já tenho um produtor interessado, que tem um selo pequeno, mas ele tem contatos na Europa e no Japão. Então é uma história interessante. É bom trabalhar com ele, porque é um grande produtor e amigo. Mas isso vem depois, primeiro tem que fazer o disco... [risos]
Resenha
Teoria da relatividade
Levar seis anos para concluir um álbum pode ser aparentemente um tempo muito grande de gestação. Ainda mais quando, neste intervalo, o mesmo artista acaba concebendo dois outros discos diferentes e mais crus, além de uma coletânea de greatest hits revisitados.
Com Wander Wildner, lógicas como as que regulam o mercado fonográfico não têm muita vez. O que vale são um punhado de canções que, em um determinado instante, fecham um repertório. Ele costuma chamar isso de filme, como na entrevista acima. Para quem tem os seus discos fica nítido o fechamento de ciclos. Eles duram apenas o necessário.
Paraquedas do Coração é a evolução do primeiro álbum de Wander, Baladas Sangrentas. Existem características em comum aos discos: Wander regrava material antigo do rock gaúcho, presta homenagem em covers e encerra o repertório recriando “Ganas de Vivir”. Mas naquela época [1997], lançar-se 100% na independência ainda era uma grande ousadia no país. Articulações entre brasileiros na internet ainda estavam engatinhando, as bandas ainda se formavam sonhando com a rentabilidade do toque de Midas de uma grande gravadora e era praticamente impossível encontrar nas lojas trabalhos que não fossem distribuídos pelas majors. Baladas Sangrentas era uma obra-prima do punk brega [isto é: baladas ao violão + toques de mariachi + letras com personalidade e atitude]. O álbum foi bastante badalado pela imprensa mas suas duas prensagens [selos Fora da Lei e Tinitus, ambos sem ligações com empresas maiores] passaram a completamente em branco.
Se impossibilidades financeiras e de agenda tanto impediram Wander de concluir Paraquedas em um tempo menor, muito provavelmente o mesmo álbum não causaria antes o mesmo impacto de hoje. Belos arranjos de cordas deixam ainda mais belas baladas como “Candy” (surpreendente regravação da faixa mais pop já gravada por Iggy Pop) e “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro”. O rock gaúcho de pérolas como “Hippie-Punk-Rajneesh” (registrada originalmente na própria voz de Wildner em um dos primeiros álbuns do Replicantes e agora transformada em um atordoante punkabilly) já ganhou um livro sobre sua história e um grande show-tributo com figuras carimbadas da capital gaúcha [Wander, Flu, Frank Jorge, Jimi Joe – como no Curitiba Pop Festival deste ano] tocando hits de suas ex-bandas e outros companheiros. Gravar Ramones em português (“I Believe In Miracles” virou “Eu Acredito em Milagres”) soaria oportunismo barato em um período no qual fãs sul-americanos ainda pareciam não acreditar no fim recente da histórica formação punk nova-iorquina.
A figura de trovador solitário incorporada por Wander, por si só, já vale o disco. A voz, rascante e seca, não permite backings. É única. Tropeça em um inglês macarrônico [no caso de Wander, pela sua história e idéias, isso fica até engraçado e vira um charme a mais]. Engole bravamente o choro implícito de versos como “E agora só me resta a saudade com companhia” e “Você me quer só a metade/ Mas para mim você está em toda parte”. Tira sarro das tribos urbanas em versos com perfeitas situações “angeli”-cais. E ainda é capaz de celebrar um mundo melhor “para mim e para ti” traduzindo quase literalmente um sucesso do Ramones – versos, aliás, que poderiam se tornar catastróficos se gravados por outra pessoa.
Por tudo isso que os seis longos anos de gestação de Paraquedas do Coração foram extremamente benéficos para o replicante do terno violeta. Hoje ele pode transformar qualquer lugar em que canta em um lugar do caralho. Hoje seus discos são distribuídos até mesmo em bancas de jornal. Hoje Wander Wildner é “o“ homem do rock brasileiro. Só ele é capaz de misturar cellos, violinos, baixos e guitarras com palavras tão díspares como frustração, otimismo, perseverança, raiva, solidão e amor. [Abonico R. Smith]
Disco a disco
Baladas Sangrentas [Fora da Lei/Tinitus, 1997]: Nesta primeira aventura solo, Wander Wildner já começava a moldar a persona pela qual é conhecido até hoje. Aqui começam a parceria com Tom Capone e as histórias do punk brega, com um monte de baladas com letras escandalosamente melosas.
Clássicos: “Bebendo Vinho” I>[que seria posteriormente regravada pelo Ira!], “Lugar do Caralho” [cover de Júpiter Maçã], “Empregada”, “Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo”.
Buenos Dias! [Matraca/Trama, 1999]: Trabalho “de transição”, feito para desebcalhar frustrações e impasses com Paraquedas. Wander se joga às origens. “Assimila” o trio punk Chulé de Coturno como banda de apoio, volta a morar em Porto Alegre e canta os costumes e dia-a-dia de tipos da cidade sob bases punk rock. Tão cru quanto pungente.
Clássicos: “Minha Vizinha”, “Quase um Alcoólatra”, “Refrões”, “Eu Queria Morar em Beverly Hills”, “Jesus Voltará” [hilária versão livre em português do hino religioso “Michael (Row The Boat Ashore)”].
”Eu Sou Feio... Mas Sou Bonito” [Punk Brega/Barulhinho, 2001]: Mais um álbum de “transição” enquanto o trabalho “oficial” não vinha, embora já tenha sido gravado com os mesmos músicos que acompanham-no hoje nos palcos. Mais uma vez o repertório é dividido: metade é formada por inéditas do cantor e a outra reinterpretações de outros autores porto-alegrenses, como Jimi Joe [radialista, joralista e músico das antigas de Porto Alegre; guitarrista de apoio do replicante], Nei Lisboa e Nenung [Os The Darma Lovers]. O título, bem-humorado, vem dos versos de “Mantra das Possibilidades”.
Clássicos: “Mantra das Possibilidades”, “Anjos & Demônios”, “Damas da Noite”.
No Ritmo da Vida [Net Records, 2004]: Coletânea armada “meio às pressas”, para ser encartada no início deste ano na tal “revista do Lobão” - a independente Outra Coisa. A capa é assustadora, no pior sentido mesmo. Wander aparece de topete, suíças enormes [como as do Tio Patinhas], camisa florida e óculos ray-ban. Também segura uma guitarra que “cospe fogo” por três pontos. Enfim, algo entre o visual de um Marcelo Nova cover e um sub-astro do terceiro escalão do hard rock americano do começo dos anos 80. O conteúdo, apesar da capa horrorosa, é de primeira, com versões alternativas de faixas dos álbuns anteriores e duas faixas inéditas: “No Ritmo da Vida” [gravada com programações ao lado do parceiro Flu] e “Ensaístico” [também feita em parceria com Flu, desta vez para a inclusão em um CD com sonetos musicados de Glauco Mattoso].
Clássicos: “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro” [sem arranjo de cordas e linhas vocais diferentes no final], “Ustê” [balada tex-mex, com trechos do filme El Mariachi e gemidos de uma atriz pornô], “On The Road” [inspirada pelo clássico literário homônimo de Jack Keroauc]. [ARS]
- 25/04/2008 09:54 - Gram
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- 25/04/2008 09:52 - Tom Capone
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