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PJ Harvey

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Novo álbum, feito tocado quase integralmente pela cantora, revela como o primitivismo pode ser libertador.

Canto primal

Depois de ter se livrado das sobrancelhas de taturanas, PJ Harvey resolveu simplificar tudo em seu novo disco. Uh Huh Her é direto ao extremo, dos riffs à sua essência poética. Produzido pela cantora e tocado quase integralmente por ela, o álbum revela como o primitivismo pode ser libertador. Como uma escultura que é exposta e admirada mas não adquirida. Quem explica é Ana Luiza Pimentel.

Depois da recauchutada visual, PJ Harvey promoveu um downsizing na sonoridade.

Passar um tempo no deserto participando do Desert Sessions em parceria com Josh Homme (do Queens Of The Stone Age) parece ter feito PJ Harvey retornar à simplicidade. Uh Huh Her (island/Universal) é simples e direto, desde os arranjos e riffs até a sua essência poética. A base é o primitivismo. Não tome o ‘primitivo’ como pejorativo. Ser primitivo é libertador. Pelo menos é o que parece para PJ.

One woman band. No comando total, PJ tocou todos os instrumentos (exceto bateria, que ficou a cargo de Rob Ellis, seu fiel escudeiro baterista) e ainda produziu o disco. Produzir o próprio trabalho é um luxo que poucos têm. Agora, será que ela resolveu dar uma simplificada no próprio som por ser uma produtora iniciante?

Uh Huh Her não é bem um disco tradicional de rock. As melodias e arranjos se transformam em meras ilustrações das letras de Harvey. O que se passa é que PJ, vanguardista até a raiz dos cabelos, faz música do jeito que ela bem entende e para quem quiser gostar. É como se sua música fosse uma escultura que está exposta mas não à venda. Não seria uma peça de decoração, mas expressão artística. Vanguardista assim também é o Sonic Youth (uma das minhas bandas favoritas na adolescência) e com o álbum de PJ acontece a mesma coisa que com os álbuns deles: pesca-se algumas músicas no trabalho, mas muita coisa passa batida pelo alto grau de dificuldade de digestão. Ame ou odeie. Por causa do excesso, o Sonic Youth não é digerível, o que sempre parece ser mais justificável. Nesse caso, a diferença é que em Uh Huh Her PJ consegue fazer com que até o pouco não seja facilmente digerível. Se isso é bom ou ruim, vai ficar a critério do freguês.

O clima do disco é muito característico, autêntico, uniforme, promove proximidade automática com quem ouve por ser simples e direto. É isso que o faz chamar a atenção. Mas nem só de clima sobrevive um disco. Algumas faixas são muito cansativas, o que vai fazer com que o botão de skip seja usado em certas ocasiões. Sinceramente? Ouvir "Crawl Home" do Desert Songs (até piano e sax ela tocou nessa história!) vale mais a pena que um Uh Huh Her inteiro, mas eu sou suspeita para falar uma coisa dessas. Sou fã do Josh Homme.

Gostei de ela ter se despojado da frescura do glamour cult e de seus peculiares e constantes berros peruescos. Por outro lado, fiquei um pouco entediada com o conjunto da obra. Decepcionada, não, porque venho nutrindo uma certa antipatia pela moça há alguns anos, por seus trabalhos anteriores. Até bem pouco tempo achava que a melhor coisa que PJ Harvey havia feito em sua carreira era ter se livrado das sobrancelhas de taturana. Depois de ouvir Uh Huh Her, deixei de lado essa repulsa total por Polly Jean Harvey.

Uh Huh Her é ok. Algumas faixas o salvam e tornam-no muito legal de se ouvir. É até gostoso de se ouvir baixinho no ambiente.



Para apreciar esse disco, você precisará:

1) Gostar de mínimo minimorum sonoro, arranjos simples, sem firulas; 2) Ouvir o disco acompanhando as letras. Preste muita atenção porque elas são o eixo das canções. Destaque para as sutilezas (e para a sutileza na falta de sutileza também! – ouça "Who The Fuck"); 3) Ter prazer em ouvir a música até o fim da faixa. [ALP]



Faixa a faixa

”The Life And Death Of Mr Badmouth”
Blues com uma boa pitada grunge. No refrão “Wash it out”, a dureza do riff dos versos é quebrada por suavidade (amarga), como se bolhas de sabão lavassem todo o rancor. Poesia musical, essa é PJ. Nota-se aí que os riffs acompanham o clima das letras. Essa é das boas.

“Shame”
Essa faixa é mais cara de PJ Harvey. Todas as características que compõem uma musica PJ Harvey (berrinhos nas suas performances vocais, dramaticidade, guitarras corridas) Rola um acordeão.

“Who The Fuck?”
À primeira instância poderia muito bem ser uma música do Sonic Youth em um momento Kim Gordon. É a canção cujo refrão quase justifica a essência primitiva do nome do álbum (“Who who who who?/ Fuck fuck fuck you”). Há sutileza na falta de sutileza. Muito energética, o que a destaca entre as outras canções mais cabisbaixas. Essa deve ser a próxima a fazer sucesso, especialmente entre as riot-fãs de carteirinha.

“The Pocket Knife”
Garantindo uma seqüência marcante, “The Pocket Knife” tem uma levada mais folk. A letra é linda. A temática da maior parte das canções desse trabalham mostram que PJ parece desopilar todas as minhocas da juventude durante sua maturidade.

“The Letter”
O primeiro single de Uh Huh Her é, de longe, a melhor canção deste álbum. Desde o riff queen-of-the-stoneageano marcante até a letra que evoca sensações de tato, olfato e até tesão.

“The Slow Drug”
Levada toda no sintetizador. Suave. Fala de amor. Boa pra ouvir em uma viagem de ônibus a noite, vendo a estrada passar, quase dormindo. É uma canção visual. Pede um clipe. Não um clipe de divulgação, mas sim um vídeo de arte. Poderia ser trilha sonora de filme.

“No Child Of Mine”
Vinheta folk.

“Cat On The Wall”
A introdução é muito boa, com a voz de PJ no fundo (“Turn up the radio”). Ela canta desengonçada.

“You Come Through”
Canção solene, com ar tribal.

“It's You”
O piano lembra as trilhas de filmes do Tim Burton, meio terror freak fantástico… Canção dark, sombria, obscura. Fala de dependência.

“The End”
Instrumental. Guitarra e harmônica.

The Desperate Kingdom Of Love”
Mais uma canção folk. Ela canta quase sussurrando acompanhada por um violão de cordas de nylon.

“Seagulls”
Um minuto ligeiramente soturno, porém pacífico, ao som de gaivotas. Elas não estão aí à tôa. É ai que se percebe o clima do disco. Dá uma sensação de solidão...

“The Darker Days Of Me And Him”
A arrastada canção ganha pontos pela bela letra, que retrata alguém que luta para recuperar um relacionamento mal sucedido. A esperança também é amarga? [ALP]


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