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Morrissey

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Ídolo mancuniano fala sobre hypes da imprensa, o grau de ironia em suas letras e o sentido da música pop.

"É tudo verdade"

Usar a música pop como algo memorável e inteligente sempre foi um dos maiores objetivos de Morrissey. Em entrevista recente concedida ao semanário New Musical Express, o mancuniano revelou isso e muito mais, como o grau de ironia em suas letras, o que pensa sobre hypes de imprensa e o significado de David Bowie para o então adolescente Stephen Patrick. O Bacana publica a quarta parte das principais entrevistas concedidas pelo cantor por ocasião do lançamento do álbum You Are The Quarry. Além de trechos da NME, você pode ler também uma conversa promovida pela Index com os fundadores da cultuada gravadora DFA.

NME
[Entrevista publicada em edição lançada antes da edição 2004 de Glastonbury, realizada no último fim de semana de junho]

Você está ansioso para se apresentar no festival de Glastonbury?
Esta é a primeira vez que eu me aventuro nessa coisa de festival. Nós tocamos em um festival nos confins distantes da Suíça e foi pavoroso, e tocamos em outro em algum lugar por aí. Então isto tende a ser um desastre completo.

Então você nunca tocou em Glastonbury?
Há 21 anos. Tomara que o fornecimento tenha mudado, mas você nunca sabe.

Quais são as suas memórias disso?
Pedi para ir ao banheiro e me mostraram um buraco no chão. Eu pensei, "isto não é para mim".

Você vai chegar cedo e ficar o fim-de-semana lá?
Sim, eu vou direto para a grama e então... Vou me rastejar até uma barraca.

Michael Stipe diz que quando toca em Glastonbury ele anda pelo local no meio do público sem camisa e ninguém o reconhece.
Sim, o público o reconhece mas, como ele está sem camisa, ninguém quer chegar perto. Isto foi uma piada.

Você deveria tentar isso.
Michael é extremamente simpático. De camisa. Não, é algo que eu deveria tentar. Mesmo! Eu sou inseguro demais.



Index
[Morrissey foi entrevistado para a Index por James Murphy e Tim Goldsworthy, co-fundadores da jovem e crescentemente aclamada gravadora DFA.]

James: Você ia a muitos shows quando criança?
Eu comecei a ir a shows sozinho e muito cedo. Eu amava e ainda amo Velvet Underground. Eu vi Lou Reed em turnê antes de seu primeiro álbum quando eu tinha 12 anos.

James: T.Rex e Roxy Music eram realmente anárquicos, mas sua música eram tão bonitas.
As bandas preferidas de minha mãe são Johnny Mathis e Roxy Music. Isto fala muito sobre eles. E eu vi Bowie em 1972, na turnê de Starman.

James: 1972 foi mesmo um ano para você!
Realmente foi. Eu vi as coisas certas no tempo certo. Mas não há estrelas pop hoje como Bowie era então. Você precisa lembrar a idade dele: tinha só 23 anos. Marc Bolan também. Eu não acho que exista ninguém como ele.

James: Eu não sei se entendi perfeitamente suas letras quando eu era jovem. Em que grau suas músicas são governadas pela ironia?
Bem, eu acho que o humor faz parte, mas em toda a minha vida eu acreditei que eu sou uma pessoa real. Quando algumas pessoas chegam no palco, elas deixam de ser aquilo que elas são nas suas vidas. Mas, realmente, não há artifícios em mim! É tudo verdade.

Tim: Talvez seja por isso que você consegue escrever músicas pop com tanto conteúdo e profundidade.
Bem, eu quero usar a música pop para dizer alguma coisa inteligente e memorável. Isto era muito pouco comum quando eu comecei. Músicos que se consideravam intelectuais não esperavam ser populares, então eles faziam músicas que não poderiam tocar no rádio.

James: Foi uma surpresa quando você se percebeu massivamente relevante?
Bem, os Smiths nunca tocaram no rádio durante o dia.

James: Mesmo assim...
Sim, suponho que fôssemos, sim.

James: Você estava nos programas de John Peel e de Janice Long. É isto a que eu estava me referindo.
Claro, eram outros tempos. As estações de rádio estavam tocando estes ultrapop caros, enquanto nós tínhamos um som um pouco áspero. Eu acho que os programadores tinham uma idéia bem estabelecida do que soava profissional e do que soava amador. E os Smiths soavam amadores.

James: E o que pensavam dos Smiths no começo da carreira?
Nós éramos considerados detestáveis, esnobes, rudes, estúpidos, depressivos e sarcásticos.

James: Você acha que vocês eram mal-interpretados.
De jeito nenhum... (risos)

Tim: O que você procura em um produtor?
É importante ser apto a falar abertamente sem medir as palavras. E eu não sou o tipo de pessoa que fica vagueando em estúdios e jams. (...) É importante para o produtor entender que eu não sou um cantor técnico. Mas não sou fastidioso, não perco um tempo muito grande fazendo takes atrás de takes.

James: E você continua fazendo discos que outras pessoas querem ouvir.
Por algum acidente ou sorte, muitas pessoas gostam da minha música. Muitas pessoas querem falar sobre isto e falar comigo. Mas eu nunca, nem remotamente, tentei cortejar a imprensa.

James: Alguma vez já pensou que deveria fazer isso?
Não, moralmente eu não poderia fazer isto

James: Mas o hype cria artistas que vendem milhões e milhões de cópias.
Eles estão atingindo as pessoas não-pensantes, que só vão comprar CDs que são familiares a eles. E o que elas estão comprando é o retrato que elas se lembram de ter visto. Quando eu vejo um gigantesco vendedor de discos quando estou dirigindo no Sunset Boulevard, eu instantaneamente me afasto.

James: Você ainda vive em Los Angeles? Eu ouvi que você se mudou para lá no início dos anos 90.
Sim. Eu sei o que você vai dizer mesmo antes de você dizê-lo. E você está absolutamente certo.

James: Que lá é um lugar esquisito?
Sim. As pessoas sempre dizem que é um lugar muito peculiar, e eu concordo. Mas tem boas qualidades. Tem muito glamour visualmente, o que sempre é convidativo. Em LA você pode escolher quais elementos da vida da cidade você quer tomar parte, enquanto que em Nova York você não tem escolha, realmente. Eu fujo de praticamente tudo. Eu acho que a idéia toda de celebridade é terrivelmente embaraçosa.

James: Mas Los Angeles é um lugar enormemente embaraçoso, onde ser celebridade vale mais do que tudo.
É terrível. As opiniões das celebridades sobre todos os assuntos são levadas em conta, mesmo quando elas não têm qualquer ponto de vista a respeito.

Tradução: Fabrício Muller


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