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Ira!
Escrito por Abonico Qui, 24 de Abril de 2008 11:40
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Entre o idealismo e a realidade
Depois de mais de vinte anos de aventuras na longa e sinuosa estrada do rock’n’roll, o Ira! acaba de cumprir mais uma etapa: seu primeiro projeto acústico, privilegiando lados B de qualidade, recebendo convidados de primeira (Pitty, Samuel Rosa, Paralamas do Sucesso), remodelando clássicos e recriando Zé Rodrix e Clash entre as composições inéditas. Contudo, segunda participação em projeto feito em parceria entre a MTV e gravadoras coloca em questão a postura idealista sempre defendida pelo grupo. Ricardo Schott comenta a atual fase. Fábio Elias, guitarrista/vocalista da Relespública e fã confesso do grupo paulistano desde a adolescência, fala sobre as gravações do álbum/DVD.
Acústico MTV privilegia.
O Ira! acaba de lançar o CD e DVD Acústico MTV (Sony). Isso provavelmente você já soube, de tanto ler e ouvir sobre o assunto – já que este é o disco mais divulgado da banda desde Vivendo e Não Aprendendo, o segundo álbum da carreira, de 1986. É a segunda vez que o grupo paulistano produz um disco junto com o canal de música, já que lançaram um Ao Vivo MTV no final de 2000. Dessa vez, porém, o clima é outro. "Girassol", música que vem erradamente sendo apontada como inédita por muita gente (na verdade pertence ao obscuro álbum 7, de 1996, lançado pelo selo independente Paradoxx music) vem tocando até mesmo em rádios mais soft, como a MPB FM, do Rio de Janeiro.
Quem ouviu o disco já deve ter percebido que a ótima idéia de lançar um CD acústico da banda (descontando-se o fato de que o formato já encheu um pouco o saco) foi extremamente mal-aproveitada, talvez graças às possibilidades que os lançamentos simultâneos em CD e DVD proporcionam. Assim como discos eram lançados nos anos 90 com faixas bônus em CD (e, conseqüentemente, músicas faltando na edição em vinil) o álbum do Ira!, talvez para chamar a atenção para o DVD, corta todos os diálogos entre as músicas e deixa que os convidados simplesmente "apareçam" nas músicas, como um disco de estúdio. Os Paralamas do Sucesso, que tocam em "Envelheço na Cidade", sequer são anunciados. O mesmo acontece com Samuel Rosa em "Tarde Vazia". O ouvinte não se sente em um show, como ocorre com a maioria dos (bons) disco ao vivo. Sente-se, talvez, com vontade de ir comprar o DVD e encher o bolso dos donos da gravadora (isso se a pessoa for muito fã da banda).
O Acústico MTV é coisa nova para a banda. Já registros ao vivo, como o do Ao Vivo MTV, eram planejados de leve desde a época de Clandestino (1990), quarto álbum do Ira!. E vários fãs do quarteto já perderam o sono por ver envolvido com dois projetos da MTV um grupo que sempre se notabilizou por uma postura idealista e "do contra" (o Ira! é o primeiro grupo nacional a participar dos projetos Acústico e Ao Vivo – somente os Raimundos haviam feito antes um Ao Vivo e um Balada MTV, mas este nunca chegou a ser lançado em disco). E, talvez pelo fato do Ira! sempre ter tido essa postura, o patrulhamento na carreira deles não vem de hoje.
Quando lançou seu primeiro álbum, Mudança de Comportamento (1985), o Ira! acrescentava o famoso ponto de exclamação ao seu nome e demarcava que algo havia mudado na banda. A postura mais pesada, pós-punk, que a banda (segundo testemunhas) tinha em seus primeiros shows, pouco havia chegado ao disco. Só o primeiro single, lançado sem repercussão em 1984, flagrava um Ira ainda simplificado, marcial (com Charles Gavin na bateria mais um tal de Dino no baixo). Mudança de Comportamento era um trabalho mod, romântico e pesado na medida certa, com uma gravação/mixagem precária, que destacava os instáveis vocais da dupla Nasi-Edgard e o forte registro de bateria, bem à frente dos demais instrumentos. Além, lógico, da guitarra de Scandurra. A chegada a uma gravadora grande, ainda que nem ajudasse o grupo a ver seus trabalhos divulgados (Mudança... suou para chegar às 50 mil cópias) foi mal vista também por muita gente. A antiga revista Rock Stars, da Imprima, em texto não assinado (provavelmente escrito por Leopoldo Rey ou André Mauro), provocou a banda em um exemplar de 1985, ao afirmar que o Ira! preferira passar "a fazer o que a gravadora ditava", além de dar pêsames pelo fato do grupo ter "caído nas garras" de Pena Schmidt, produtor do álbum (e parceiro da banda na faixa "Por Trás de um Sorriso").
Se o tal escriba conseguia se incomodar com a presença de Pena (figura de proa do rock nacional desde os anos 70 e grande incentivador da música independente), é de se imaginar o que ele escreveria ao saber que Vivendo e Não Aprendendo, o segundo disco, seria produzido por ninguém menos que o timoneiro pop Liminha. No lendário estúdio carioca Nas Nuvens, o ex-Mutante comandou apenas parte dos registros (desentendimentos com a banda fizeram as gravações serem transferidas para São Paulo, com Paulo Junqueiro conduzindo os trabalhos) mas deixou suas marcas na formatação "radiofônica" da maioria das músicas. Durante o show de lançamento do disco, realizado na Praça do Relógio da USP, Edgard Scandurra aproveitou para soltar que "ninguém precisava "de armação nenhuma para reunir uma galera em um puta show de rock". Vivendo... seria o álbum do Ira! com maior execução em rádio, renderia uma música em novela ("Flores Em Você", tema da abertura de O Outro) mas não deixaria a banda milionária – disse Nasi em uma entrevista: "quem recebe o retorno de "Flores..." é o Edgard, que é autor da música; o que a gente recebe é insignificante".
O mergulho no idealismo estaria cada vez mais aprofundado a partir de 1988, com o famoso entrevero com a produção do festival Holywood Rock (o grupo declarou que nenhuma banda brasileira recebera cachê para participar do show, Edgard quebrou a guitarra no final da apresentação e o grupo destruiu o camarim). Psicoacústica, disco desse ano, era o Sgt. Pepper's que o rock brasileiro precisava, com muita psicodelia e experimentações de estúdio, além de (ainda) muito investimento da gravadora, que mandou o álbum ser cortado digitalmente fora do Brasil e bancou uma capa dupla, com um óculos 3D de brinde. Na entrevista de lançamento, feita na Bizz (também extinta), André Jung soltava essa para cima de Liminha e dos Titãs hiperproduzidos de Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas: "tem gente vendendo qualidade pelo preço do equipamento que tem. Criatividade se faz com três instrumentos".
Difícil de se impor, Psicoacústica vendeu pouco. A partir daí, a carreira do Ira! na gravadora estava ameaçada. Brechas no contrato possibilitaram a Edgard lançar seu primeiro solo, Amigos Invisíveis (1989), com qualidade indiscutível e vendagem ridícula. Clandestino (1990), disco pesado, experimental e um tanto quanto deprê, emplacou "Tarde Vazia" a duras penas. O álbum era aberto com a propaganda de um filme nacional que não existia ("Melissa", narrada por Paulo Villaça, que interpretava o Bandido da Luz Vermelha no filme homônimo de Rogério Sganzerla), seguia com tristes baladas acústicas ("Boneca de Cera" e a própria "Tarde Vazia") e tinha até um insólito sambão-rock ("Cabeças Quentes"). Já em Meninos da Rua Paulo (1991), a banda tentava voltar ao mercado a bordo de uma versão dos Beatles feita por Raul Seixas ("Lucy In The Sky With Diamonds" virava "Você Ainda Pode Sonhar" e ainda trazia batida sampleada de “We Will Rock You”, clássico do Queen). Vale lembrar que em 1989 a EMI sugerira versões de Raul e Cazuza à Plebe Rude, que recusou o toque e teve sua carreira na gravadora abreviada. Música Calma Para Pessoas Nervosas (1993) era o fundo do poço, gravado entre drogas, crises da banda e problemas com a gravadora. Várias músicas pareciam demos (como "Campos, Praia e Paixões"). O grupo ainda gravaria dois discos pela minúscula Paradoxx (7, de 1996 e Você Não Sabe Quem Eu Sou, de 1998) antes de ir para a Abril Music.
Talvez os problemas enfrentados na época em que o idealismo exacerbado era uma das maiores armas da banda, tenham feito com que os músicos revissem várias posições. Em 1999, uma matéria do Jornal do Brasil enfocava o fato do Ira! e dos Titãs estarem lançando discos de covers ao mesmo tempo (respectivamente Isto é Amor e As Dez Mais) e destacava que, pela primeira vez, sugestões da gravadora eram aceitas pelo grupo paulistano. Em 2000, uma matéria do tablóide International Magazine feita pela jornalista Aline Rios revelava que ambos os discos haviam sido concebidos com base em um listão de FM, afirmativa que nunca fora comentada por nenhum integrante das duas bandas. E agora com o Acústico, a banda parece mudada. O Ira! ainda é o Ira!, só que mais comedido na rebeldia. Sabedoria, podem dizer alguns. Comercialismo, podem dizer outros.
Talvez seja só fase, antes que a banda volte a conseguir o sucesso de 1986/87. O fato é que a situação do Ira! em tempos atuais lembra que hoje em dia é cada vez mais difícil ser rebelde no rock nacional. O preço a pagar parece sempre muito alto. Aliás, é assim em todo o mundo, não? [RS]
Lados B de uma banda classe A Sou o cara mais suspeito para escrever algo sobre o Ira!, pois sou fã incondicional desde garoto, lá nos idos de 1986. Como fã que se preze, vou mais uma vez despejar elogios ao mais novo projeto, que se tornou realidade no final de março (24 e 25), em São Paulo: a gravação do álbum/DVD Acústico MTV (Arsenal/Sony).
Fui em um Cometa para Sampa às 6 da matina do dia 24. Cheguei meio-dia na cidade. Peguei um metrô até Paraíso. Fiquei em um hotel na Avenida Paulista, onde pude bodear até próximo do horário do show. Acordei, coloquei a gravata e o paletó e fiz a linha Paraíso/Sé/Barra Funda/Imperatriz Leopoldina, próxima da Lapa, onde ficava o estúdio de filmagem. Lá chegando dei de cara com uma fila de umas 200 pessoas e pensei: “Tô fudido! Não vou ver o show!” Mas, graças ao fã clube Família Ira!, eu pude furar a fila e entrar logo entre os dez primeiros. Sorte de fã...
Quando o VJ Edgard Picoli anunciou a banda, senti que aquele dia iria ficar pra sempre na minha memória. Sob muitos aplausos da platéia, Nasi, Edgard Scandurra, Ricardo Gaspa e André Jung, acompanhados de um segundo violão folk, mais cello, piano Hammond, percussão e backing vocal, subiram no palco. Sem delongas contaram até quatro, mandando ver uma versão alucinante de “Train In Vain”, do Clash. Estava aberto o que seria uma seqüência de canções com a marca Ira!: melodias puramente perfeitas com pegada fenomenal para o formato acústico.
Foi bonito ver André detonando com garra e dinâmica. Gaspa , no baixolão, passava a maior tranqüilidade aos demais músicos. Edgard, minha maior influência como guitarrista, cantou e tocou como nunca os seus violões de nylon, aço e um 12 cordas. Nasi entoava com muita emoção clássicos (“Dias de Luta”, “Flores em Você”, “Rubro Zorro”) e pérolas “lado B” do repertório (“Saída”, “Tanto Quanto Eu”, “Girassol”). Entraram ainda novas composições (“Ciganos”, “Flerte Fatal”, a parceria com Arnaldo Antunes “Muito Além do Jardim” e “Por Amor” – inédita de Zé Rodrix, com arranjo bem The Who). Banda e produção acertaram na escolha do set.
Não poderiam faltar os convidados, tradicionais nos projetos desse formato. Eles compareceram com muita competência e talento. Primeiro veio Pitty, cantora e compositora da minha geração do rock brasileiro, cantando “Eu Quero Sempre Mais”. Depois, Samuel Rosa (Skank) cantou e tocou violão em “Tarde Vazia”. Muito bom! Mas de arrepiar mesmo foi a participação do Paralamas do Sucesso em “Envelheço na Cidade”. Da mesma safra do Ira!, eles emocionaram tanto a si próprios como a todos os presentes. Foi o encontro de duas das maiores bandas brasileiras de todos os tempos. E eu estava lá, nas duas noites.
Programada para o encerramento, “Núcleo Base” deixou a certeza de mais uma etapa cumprida nessa longa, sinuosa e alucinante estrada do rock’n’roll (se fosse fácil...). Longa vida ao Ira! [FE]
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