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ESPECIAL - Rock de Inverno 5

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Festival dedicado à (nova) música independente de Curitiba chegou à sua quinta edição diversificando estilos. Escalação deste ano contou com revelações da cidade (como o Mordida - foto), experimentalismo e até mesmo a presença de uma banda inglesa.

Salve a diversidade

fotos: iaskaraMesmo com o inverno presente nas frias manhãs e noites atuais, oscilando com um tímido verão em tardes quentes e ensolaradas, folhas e flores preenchendo o espaço vazio dos prédios como na primavera e um quase imperceptível e preguiçoso outono ao entardecer, presenciou-se mais um Rock de Inverno, nos dias 6 e 7 de agosto. Com o perdão do clichê na associação acima, foi um festival misturado e cheio de surpresas, lembrando esses dias de pseudo-inverno em que vivemos. Como já foi dito, o RI5 neste ano tomou uma nova cara. Diversificou na escolha das bandas, mesclando diferentes estilos e atitudes, disciplina e experimentalismo, inovações e (porque não?) momentos entediantes. Foi nos shows e sacou isso? Não sacou? Não foi? Então senta que lá vem a história, contada por Abonico R. Smith, Guga Azevedo e Paulo Biscaia Filho.

Atrações do RI5 (de cima para baixo): Mordida, OAEOZ, Charme Chulo, Wandula, Gengivas Negras, Matema, Sofia e Fluid durante os shows no Cine.

Algumas pessoas já circulavam no Cine por volta das 20h30 da sexta-feira. Músicos, amigos, agregados(as), os documentaristas ingleses mais do que excêntricos e até o gordinho que dormiu a noite inteira nos bancos ao lado do bar estava acordado. Ao abrir das portas do salão principal, já havia indícios do começo deste festival anual da (nova) música independente de Curitiba. Quando o público entrou, deu de cara com um grupo de capoeira. Ok, os ingleses adoraram e foi no mínimo inédita essa atitude. Entre as faíscas dos choques dos facões e os “paranauê paranauê paraná”, mais e mais pessoas se aglomeravam para a abertura oficial, que ficaria a cargo da banda ruído/mm.

Primeira noite

Ruído/mm: Desta vez eles ensaiaram mais. A apresentação lembrou bastante a abertura do CPF do ano passado, feita pelo pessoal do Vurla. As pessoas presentes reagiram da mesma maneira: ficaram quietas e tentaram acompanhar todas as variações, efeitos e quebras rítmicas oferecidas pelos músicos. Com todo seu pós-rock em músicas instrumentais – e mesmo pelo pouco tempo da banda – eles estavam tranqüilos e pareciam seguros para dar o pontapé inicial no RI5. Mesmo desfavorecidos pela hora, foram bem recebidos pelo modesto público, que parecia ter entrado nas viagens minimalistas e visuais propostas nas músicas. O problema era a quebra brusca gerada pelo longo tempo entre uma música e outra. Essas demoradas transições podem ser justificadas pela preparação dos instrumentos, mas também não podem ser melhor trabalhadas? [GA]

Mordida: Apesar do pouco tempo de carreira, esta é uma das bandas que mais crescem em Curitiba – prova disso eram os fãs cantando de cor todas as músicas, apesar do quarteto só ter uma gravação oficial. A Mordida agrada pela combinação dos opostos: tem a ingenuidade (como o ar infantil de Tati Lemos em seus vocais e tic-tac no cabelo) e a sacanagem (as letras escritas por Paulo de Nadal, cheias de sexo e sacanagem); a melodia grudenta do bubblegum e a aspereza sônica do psicodelismo (sobretudo na guitarra saturada de efeito fuzz; o visual que une pompa e desleixo (ternos com tênis All Star surrado e cabelos cheios de pontas). Para completar, a tecladista Andréa Hellena mostrava talento ao se dividir entre os sons de órgãos e as linhas de baixo conduzidas nas oitavas mais graves do mesmo teclado. Pena que tenha sido o show de sua despedida da banda – a vaga será ocupada pela nova integrante Claudia Candy, que já tocou no Cine as três útlimas músicas do set). [ARS]

OAEOZ: Para quem gosta de longas viagens, uma excelente pedida. De formação reformulada, recheou seu set com muito psicodelismo de teclados e guitarras. Ousou ao deixar para o meio canções de batidas mais lentas e vocais arrastados – chegando a lembrar a fase mais antiga do Mercury Rev. O ponto alto foi a música “Lembranças (Não Valem Nada)”, com seus riffs cíclicos que esbarram na tangente do grunge. [ARS]

Charme Chulo: Poucas bandas podem se dar ao luxo de nascer grandes. O Charme Chulo, grata revelação do underground da cidade, está pronta para estourar mesmo antes de lançar seu primeiro disco. Sabe fazer pop de qualidade, calcado em riffs e letras pegajosas, sem abrir mão da construção de uma identidade bem peculiar. Apresentando a viola caipira ao rock e falando de temas bem paranaenses (tanto da capital Curitiba quanto do interior, de onde vieram seus fundadores), o grupo ainda tem postura de gente grande. O vocalista Igor Marcel preenche o palco com suas performances e expressões faciais, o guitarrista Leandro Delmonico toca valendo por três (o que são seus dedilhados e fraseados com explícitas influências de Johnny Marr?) e a cozinha formada pelo baixista Celso Andrei e o baterista Fabiano Ferronato (adicionado recentemente à banda para alguns shows, ele nem parecia um integrante “convidado”). Problemas com o microfone atrapalharam várias canções, mas não chegaram a tirar o brilho de futuros hits como “Ai de Você, José?”, “O Que é Que Foi, Piá?”, “Piada Cruel” e “Polaca Azeda”. [ARS]

Wandula: O culto está crescendo e o Wandula carrega cada vez mais gente para seus shows. O novo repertório – que precisa urgentemente ser registrado em disco – cresceu com a incorporação definitiva de dois integrantes do Excelsior: o baterista JC Branco (que também toca no Svetlana com a vocalista Edith de Camargo e o tecladista Marcelo Torrone) e o guitarrista Rafael Martins. Poemas em francês, um certo ar de trip hop (sem carregar os traços das batidas hipnóticas eternizadas pela turma de Bristol), arranjos repletos de climas e texturas que pedem intervenções de escaleta, acordeão, vibrafone e até e-bow. Por fim, a diva Edith deu mais um banho de emoção e interpretação. Foi sem dúvida o melhor show da noite e provou que o Wandula está pronto para conquistar os ouvidos mais refinados de quem não vive em Curitiba.[ARS]

Cores D Flores: Corria o comentário de que de todas as fases pelas quais o Cores D Flores passou, a atual está sendo a menos bem sucedida. Instrumental bem trabalhado com a postura dos excepcionais músicos mais o denso vocal de Mariele Loyola fazendo jus ao estilo. Só que não ficaram claros que estilo é esse (gótico? Heavy? Nü-metal?) e a proposta da banda. Cover d’ O Rappa no final do show? Algum detalhe deve ter passado despercebido... [GA]

Gianoukas Papoulas: Já com o público bastante reduzido, os paulistanos headliners da noite de abertura subiram ao palco e consegiraem cativar quem ficou para vê-los. Pop sincero, bem trabalhado, porém variado demais, a ponto da linha criativa das músicas ter sido perdida várias vezes com o decorrer da apresentação. Mas os músicos seguraram a onda legal e não devem ter voltado para casa insatisfeitos. O vocal encorpado de Olavo Rocha e as linhas de baixo precisas de Alex Brasales chamaram atenção. O Gianoukas prometem um futuro interessante pela frente. [GA]

Segunda noite

Gengivas Negras: Eles descontróem a própria identidade. Tocam mascarados, de terno e gravata, como se fossem apenas duas entidades menos importante do que a proposta sonora. Um é responsável pelos ruídos extraídos de teclados supersaturados e mesas de onde saem outros sons reprocessados. O outro brinca com o mastodonte, instrumento resgatado dos adeptos música eletro-acústica no qual duas ferramentas extraem sons de tensionadas cordas de metal. Muito curioso, embora o conceitualismo arrojado acabe afastando quem gosta apenas de formatos mais tradicionais. [ARS]

Matema: Depois de uma banda cult, nada melhor do que outra banda cult. Nascido das cinzas do Boi Mamão (uma das mais importantes bandas paranaenses da década de 90), o quinteto não fez bem um show, mas sim música para interagir com vídeos surreais exibidos simultaneamente em três monitores de TV. Enquanto o frontman Glerm Soares recitava, jogava-se no chão e improvisava bastante, a cama sonora era feita pela cozinha de três músicos experientes: o guitarrista Nillo, o baixista Lúcio e o baterista Gus – também do Black Maria). Completou a formação o cineasta e saxofonista Rodrigo Soares, comparsa do irmão na construção de algumas das bandas mais malucas que já passaram pelos palcos da cidade. Para este show de estréia foram programadas obras de um nascente repertório e outras extraídas de um dos ex-grupos de Glerm, o Rádio Macumba. [ARS]

Johnz: A idéia inicial de one-man band evoluiu e tornou-se uma banda de verdade, calcado no melhor do pop feito por guitarras dos dois lados do oceano. Forjando melodias agradáveis, músicas cheias de nomes femininos e versos que remetem a histórias curiosas (como a letra em que o vocalista Túlio Bragança delcara sua desaprovação à cantora popular Ana Carolina por causa de um namoro acabado). [ARS]

Sofia: Edson Ramos, por si só, já é um show. Vocalista de performance explicitamente morrisseyniana (poses, olhares, brincadeiras com a platéia, chicotadas com o microfone), ele dá brilho ao pop de emoções à flor de pele (angústia, desespero, solidão, paixão) e guitarras de belos dedilhados e furiosas quando necessárias. O set baseou-se em novas versões do disco lançado em 2002 pelo mesmo selo/produtora do festival (De Inverno) e trouxe a nova formação, com os mesmos músicos do “alter-ego” do Sofia, o Loaded. [ARS]

Fluid: Uma apresentação redonda, com começo meio e fim. A Infierno, do Rio de Janeiro, que se cuide, porque essa molecada está trabalhando bem em cima desta variação de nü-metal. Explicitamente influenciados pelo Incubus (palavras do vocalista Will: “eu quase vim com uma camisa deles”) e letras em português, eles se destoaram completamente das outras bandas que tocaram no sábado. Valeu pela novidade e pelas poses natas de rockstar. [GA]

Deus e o Diabo: O inverno no nome do festival fez jus nesta apresentação. Ficou fácil ir ao banheiro, pegar uma cerveja, assistir um pouco do desenho dos Superglobetrotters que passava no telão do Cine... Ah, claro, e ao show. Vocalistas performáticos com uma certa agonia existencial transbordada pelos olhos. Talvez gerada pela poluição sonora vinda dos solos de guitarra nas horas erradas – ou do imperceptível violino, que, quando dava as caras, não agradava muito. Músicas mais do que previsíveis e vocais longos, melódicos e deprimidos. Parecia uma romaria gótico-metal. [GA]

Transcargo: No primeiro dia do festival, um videomaker que acompanhava a banda inglesa falou sobre o tipo de música que eles faziam. “Inclassificável”, ele disse. É barulhento? É melódico? A resposta para todas as perguntas era “não dá pra classificar”. Parecia ser um jeito de vender a banda dar esta resposta intrigante, mas ele tinha plena razão. Transcargo é inclassificável. Se for pra colocar em alguma categoria, entra apenas na categoria de "banda boa".
Para ilustrar isso melhor, basta ver o repertório apresentado no Cine no sábado. A primeira música tinha um clima country folk, a segunda era um pop rock, a terceira uma experimentação sonora esquisita, e por aí foi. E essa bagunça prestou? Pergunte às poucas pessoas que estavam na platéia (a maioria, já cansada, e preferiu enfrentar o frio para ir para casa). Quem ficou por ali se divertiu a valer em um dos melhores shows que passaram por Curitiba neste ano. E pode incluir o impacto sobre a platéia do Transcargo ao lado do show do Pixies – mas com cinco mil pessoas a menos.
Para falar melhor do show, deve-se registrar a incrível presença de palco da vocalista Emily Philips. Segundo consta, a moça foi namorada do cineasta Guy Ritchie antes de ele ser o Sr. Madonna. Emily é eclética e carismática como a banda, formada por guitarra, baixo, bateria, sax e trumpete. Entrou no palco com uma t-shirt do Mickey Mouse e uma mini-saia jeans para uma performance que só poderia ser classificada como uma diva indie-porn-gogo-crooner que toca gaita. Tudo isso com direito a muito movimento pélvico, lambidas na guitarra durante o solo e a vocalista se jogando ao chão. Foi uma diversão garantida e músicas de excelente qualidade.
Ouça a faixa “Saturday”, do álbum Idle Luxury para apreciar os bons sons da Transcargo. Se quiser se divertir mais, não deixe de ver os próximos show destes londrinos por aqui. [PBF]

E foi isso. As quatro estações do ano bem representadas nos shows. Curitiba clama por mais atitudes assim. Um salve à iniciativa do Ivan Santos e da Adriane Perin, que, mesmo entre trancos e barrancos na escolha das bandas (gosto pessoal versus tendências atuais versus bandas lançadas pelo selo/produtora De Inverno), conseguiram unificar e difundir entre diferentes públicos, os vários estilos e sons de novos músicos e outros já consolidados na cena local. Seria interessante se ainda tivéssemos participações do pessoal do rap, psychobilly, indie e hardcore (faltaram, por exemplo, nomes como CTBA, Los Diaños, Lonely Nerds’ Songbox, Zigurate, Góticos4Fun, Dissonantes e Duffs, que lançaram excelentes trabalhos de estréia ou tiveram grande destaque nos veículos de comunicação que abem espaço à música independente), a miscigenação e troca de informações seriam muito maiores. Sabe deus como seria a participação do público nesta hipotética situação, mas seria bom pagar para ver isso.



Para ver mais fotos do Rock de Inverno 5, clique aqui


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