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Coleção - Educação Sentimental

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A obra-prima pop que marcou a despedida da adolescência do Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens.

Coleção

Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens
Educação Sentimental (1985)

Capa trazia tons escuros e título citando o romancista francês Gustave Flaubert.

Em 1985, um impasse tirava o sono do Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens. Ou pelo menos o sono de um de seus membros mais ativos, Leoni, embora o drama se abatesse sobre toda a banda. Tinham vendido bastante com seu primeiro compacto, "Pintura Íntima", que se tornaria popular mesmo com seu refrão digno de um virundum ("Fazer amor de madrugada/ Amor com jeito de virada"). A crítica, sempre disposta a negar a qualidade de qualquer coisa mais pop que viesse do Rio de Janeiro, não deixava o grupo em paz. A situação era a de um grupo líder de vendagens, mas vitimizado por boa parte da crítica, o que preocupava a banda. Isso, contudo, nem tirava o sono da gravadora, que investia bastante no Kid, naquele início da febre do rock nacional.

Seu Espião (1984), o primeiro disco, havia sido a tentativa de penetração no mercado daquele grupo que se formara despretensiosamente (os integrantes foram se juntando aos poucos, membros entravam e saíam e, na iminência de ter uma fita demo executada na rádio Fluminense FM, foi escolhido o nome Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens em questão de segundos). No álbum, a participação quase onipresente de Lulu Santos (produtor do primeiro single), de Herbert Vianna (futuro namorado de Paula Toller) e de músicos de estúdio como Jorjão Barreto e Lauro Salazar (autor do arranjo de "Menina Veneno", de Ritchie, sucesso estrondoso em 1983) davam a medida de como a profissionalização ainda era brinquedo novo para Paula Toller (voz), Leoni (baixo), George Israel (sax) e Bruno Fortunato (guitarra).

O Kid era a mais pop e adolescente promessa do rock nacional, com o agravante de ter bem na frente a presença "niu uêive" de Paula Toller, uma porrada em rockeiros velhos e em críticos que valorizavam apenas bandas estrangeiras desconhecidas. Aparições em todos os programas populares do país (Chacrinha, Raul Gil, Clube do Bolinha – neste tiveram de ouvir do rotundo apresentador o clichê "Quem é a Kid Abelha? É você? E eles são os Abóboras Selvagens?") e nos playbacks do Velho Guerreiro ajudavam a garantir a linha direta com o público. O Kid, assim como Ritchie, Titãs, Camisa de Vênus e até a Gang 90 eram íntimos de adolescentes, pais, professores e até de donas de casa. Um cenário que nunca mais se viu no rock nacional, ainda mais nos dias de hoje.

Educação Sentimental (1985) mostrava a banda tentando evoluir, em música, letra e conceito. Criado entre shows tensos (graças à relação entre Paula e Leoni, encerrada no meio das primeiras turnês) e dores naturais de crescimento, o grupo não era mais o mesmo. Lançado pouco tempo antes de Leoni deixar o grupo, o disco é a despedida da primeira fase da banda, antes do Kid Abelha perceber que teria de arrumar outras formas de sobrevivência no showbiz.

Craques em unir informações e referências e pioneiros (ao lado dos Titãs) em usar e abusar da cultura pop, o Kid Abelha embarcava em uma espécie de viagem sofisticada, buscando ao mesmo tempo a dignidade e o salvo-conduto com a crítica. Isso aparecia no título, tirado da obra do romancista francês Gustave Flaubert (e coincidentemente já usado em uma antiga música de Egberto Gismonti, gravada por ninguém menos que a ternurinha Wanderléia, pop anos antes de Paula Toller), nos tons escuros da capa e na pretensão de algumas letras. Pretensão essa que, ouvida em disco, tornou-se um dos maiores gols do Kid Abelha.

O grande golpe que tiraria Leoni do Kid Abelha já estava revelado nas letras de Educação Sentimental. Se no começo do grupo as letras soavam como rascunhos (basta conferir "Distração" e a ridícula "Vida de Cão é Chato Pra Cachorro", pertencentes à primeira demo da banda e nunca incluídas em disco - estão somente no pau-de-sebo Rock Voador, lançado pela WEA em 1983 e recentemente editado em CD), o amadurecimento poético da banda era uma das maiores atrações do segundo LP. O sentimento amargo que soava inocente em "Hoje Eu Não Vou" e outras músicas de Seu Espião ganhava profundidade no bilhete suicida de "Lágrimas e Chuva" ("Será que existe alguém ou algum motivo importante/ Que justifique a vida ou pelo menos esse instante"), no desencanto de "Educação Sentimental II" (na qual a vida se esfacela diante da constatação: "Agora você vai embora e eu não sei o que fazer/ Ninguém me ensinou na escola/ Ninguém vai me responder"), na desilusão amorosa de "Os Outros" ("Ninguém pode acreditar na gente separado/ Eu tenho mil amigos, mas você foi o meu melhor namorado"). A distração da já citada "Distração" virava mania de perseguição teen no rockinho "Conspiração internacional" ("Tudo atrapalha o que eu faço/ Mas pros outros parece tão fácil").

Leoni e Paula Toller, autores da maior parte das músicas (embora posteriormente ele tenha reclamado para si a autoria de quase todas as letras do Kid), incorporavam todos os dramas adolescentes em um disco só, às vezes em versos diferentes de cada faixa, misturando vários sentimentos e visões sem preocupações lógicas. Visto dessa forma, não seria exagero considerar Educação Sentimental como pai de quase toda a febre de literatura e dramaturgia adolescente que surgiria nos anos 90 – linhagem que inclui desde a mania dos diários (que rendeu até dissertação de mestrado) e a recente febre de blogs e fotologs.

Musicalmente, o disco era bem mais variado que o anterior. A picada aberta por "Fixação", funk rascunhado pela banda e retrabalhado por Liminha no álbum anterior, dava no peso da já citada "Lágrimas e Chuva". A antiga inexperiência do grupo, que desconhecia o fato de que um disco de rock pode ter uma balada (diz a história que Liminha foi obrigado a resgatar de uma lata de lixo a letra de "Como Eu Quero"), foi substituída pela mão de ferro de Leoni e Paula na hora de compor canções comoventes como o soulzinho anos 80 "Garotos" e o soft rock "Os outros" e letras introspectivas como as de "Amor Por Retribuição" (aqui o arranjo é quase uma chupação de "Back On The Chain Gang", hit dos Pretenders) e a balada "Uniformes" (cujos versos dão pena do cenário viciado e acomodado que foi tomando boa parte do rock nacional após o final dos anos 90: "Você se espanta com o meu cabelo/ É que eu saí de outra história/ Os heróis na minha blusa não são os que você usa/ E eu não te entendo bem"). As duas partes de "Educação Sentimental" soavam como duas versões de uma mesma história: se na "II" (que aparece antes no disco) o tema era o desencanto com a vida; na "I", era o desejo de ser diferente ("Eu treino a tarde inteira o que é que eu vou falar/ Quando eu estiver no telefone/ Naquela hora em que o assunto acabar"). No todo, uma obra perfeita, cujo valor passaria batido pela crítica.

Após Educação Sentimental, chegou-se a falar no fim da banda. Leoni deixaria o grupo nos bastidores de um show, após uma briga feia – a história virou lenda: anos após a saída do baixista, a pandeirada de Paula Toller na cabeça do ex-namorado virou gozação até no programa de FM Pânico, quando o Kid foi entrevistado. O grupo, já sem o rabicho "& os Abóboras Selvagens" ainda demoraria um tempo até se acertar com suas idéias, com a gravadora e com o cenário à sua volta. Sairiam um LP ao vivo em 1986 e o razoável Tomate, em 1987, continuação de Educação Sentimental em termos de pretensão, mas bem mais acanhado na qualidade musical.

Só na década seguinte o grupo voltaria a fazer discos muito bons, mas ainda assim, em vários de seus melhores momentos, não conseguiria muito apoio da crítica – o bom Iê Iê Iê (1993) foi mal e porcamente ouvido, até por soar totalmente deslocado do contexto da época. Leoni conseguiria seu lugar ao sol por alguns momentos no grupo Heróis da Resistência (que lançaria pelo menos um disco muito bom, em 1986, chegando a ter mais prestígio que o Kid Abelha na WEA) e só voltaria a fazer sucesso igualmente nos anos 90, a bordo de excelentes e esparsos discos solo. E mesmo alcançando níveis de prestígio e vendagem bem maiores no futuro, o Kid Abelha jamais faria um disco tão arrojado musical, poetica e conceitualmente.
Ricardo Schott *



Ficha Técnica

Título: Educação Sentimental
Artista: Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens
Lançamento: 1985
Gravadora: Elektra/WEA
Produção: Liminha
Faixas: "Lágrimas e Chuva", "Educação Sentimental II", "Conspiração Internacional", "Os Outros", "Amor Por Retribuição", "Educação Sentimental", "Garotos", "Um Dia Em Cem", "Uniformes", "A Fórmula do Amor”
Curiosidades: Os músicos que participam deste álbum são Cláudio Infante (bateria, citado como membro da banda, mas que não aparece nas fotos), Roberto de Carvalho (piano), Leo Jaime (vocais), Jorjão Barreto (teclados), Leo Gandelman e Zé Carlos (metais). Educação Sentimental chegou às lojas com 30 mil cópias vendidas antecipadamente. Uma cifra vagabunda se comparada às do Só Pra Contrariar e de Sandy & Junior nos anos 90, mas um bom número para 1985. *** Naquele ano, tomaria conta das rádios e das danceterias uma verdadeira febre de remix – sendo que os remixes nem eram todos trabalhados por DJs profissionais, mas por produtores e técnicos de estúdio. Liminha, por exemplo, foi o responsável pelo de "Lágrimas e chuva", que se tornaria até mais famoso que a versão original. Nos bastidores da confecção do remix da faixa, uma história pitoresca: Liminha pediu a Leoni que fizesse dois acordes em seu baixo e retrabalhou-os em um rudimentar sampler, de forma que virassem uma linha de baixo completa e bem distante das possibilidades técnicas do músico. *** A introdução de "Educação Sentimental II" é bem parecida (digamos assim) com a de "London Calling", do Clash – que já era bem parecida (digamos assim) com a de "Odorono", do Who (do álbum The Who Sell Out, de 1967). Tem mais coisas sobre músicas parecidas (digamos assim) no rock nacional aqui. *** A versão de "A Fórmula do Amor" não é a mesma que tocava no rádio por volta de 1985/1986, que pertencia ao álbum Sessão da Tarde, de Léo Jaime. *** Em Educação Sentimental, o clima de "crescimento" da banda era completado por um release assinado por ninguém menos que Caetano Veloso, que aproveitava para se aproximar do rock nacional, via citações de Raul Seixas, Camisa de Vênus, Ultraje a Rigor e referências à participação de Paula Toller na gravação do single "Chega de Mágoa" (que reunia a nata da MPB e do rock nacional em uma música lançada para arrecadar fundos para a seca no Nordeste). *** Educação Sentimental está em catálogo pela WEA, mas é difícil de ser encontrado. Boa sorte.



* Texto originalmente publicado no site Discoteca Básica


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