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Ludov
Escrito por Abonico Qui, 24 de Abril de 2008 09:46
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Dançando no salão
Foram quase meia década de muito trabalho e suor. O quinteto Maybees firmou-se como um dos principais nomes do circuito independente de São Paulo, lançando dois álbuns compostos integralmente em inglês, fazendo shows atrás de shows e conquistando uma extensa legião de fãs. Quando tudo parecia indicar que a banda continuaria crescendo, seus integrantes tomaram uma decisão drástica e ousada. Optaram pelo fim da banda e o início de uma outra, desta vez adotando versos no idioma pátrio.
Não houve mudança de nome e idioma. Houve sim o fim de uma banda e o começo de outra. As pessoas não entendem ou não acreditam, mas é assim que eu vejo”, explica o guitarrista/vocalista/tecladista Mauro Motoki, também o principal compositor da banda. “Maybees não se transformou em Ludov. Ludov nasceu de outro lugar de nossos coraçõezinhos. Muita gente que gostava de Maybees gosta de Ludov. Então, não podemos reclamar dessa bagagem”.
Muito do que existia do Maybees (nome tirado de uma música do Pixies, chamada “U-Mass”), porém, continua dando o tom no Ludov (inspiração vinda de Laranja Mecânica, um dos mais cultuados filmes do diretor britânico Stanley Kubrick). Os arranjos refinados, as melodias classudas, os vocais poderosos de Vanessa Krongold, o núcleo de compositores (Mauro, Vanessa, o guitarrista Habacuque Lima) e um grande apelo pop, que com certeza passará a ser mais notado com as letras em português – o trabalho de estréia foi lançado no fim do ano passado pelo selo Cooperdisc e é um extended-play chamado Dois A Rodar.
Prestes a desembarcar pela primeira vez em Curitiba (para tocar no dia do Pixies no Curitiba Pop Festival 2004), a banda comemora os primeiros resultados positivos depois da mudança: shows em várias capitais (Curitiba, Rio de Janeiro, Florianópolis, Porto Alegre) e o segundo videoclipe do EP (Princesa, uma bonita história espacial toda feita em animação) em alta rotação na MTV nacional.
A pedido do Bacana, Motoki deu suas impressões pessoais sobre as seis faixas do primeiro disco do Ludov.
Para o guitarrista/tecladista Mauro Motoki, o Ludov nasceu de outro lugar dos corações dos ex-integrantes do Maybees.
“Dois A Rodar”
“Já recebi spam de curso de dança de salão por causa dessa música. Veio no e-mail oficial da banda, então acredito que alguém ouviu a menção "(...) Eu reinava como num salão/ Beijava-te a mão/ E éramos dois a rodar" e achou que havia um interesse nosso pela coisa. Vai saber. Mas, pelo menos da maneira como eu interpreto, isso é apenas uma imagem, uma metáfora. Mesmo na letra, ninguém deu um passinho sequer de dança (risos)... Se bem que no encarte há coisas que remetem a esse universo o tempo todo. Apesar de eu ter escrito essa letra e algumas outras, acontece uma coisa curiosa. Não sei no que, exatamente, eu pensava quando as faço. E nem faço questão de saber. Então, só me resta interpretar o que eu mesmo escrevi – assim como todo mundo que ouve pode interpretar também. E geralmente a interpretação dos outros costuma ser melhor do que a minha. Habacuque e eu já conversamos sobre isso – e, creio, parece que é comum de acontecer.”
“Da Primeira Vez”
“Essa letra, composta em conjunto por Habacuque e Vanessa eu acho muito boa. E fico tentando enxergar nas passagens o que é a cara de cada um. Às vezes eu sou pior do que fã... (risos) Acho "Até que eu sou uma pessoa legal" um pedaço que só pode ter sido da Vanessa. Talvez Habacuque dissesse: "eu sou legal, e se você não gostou, o problema é seu."... (risos) Por outro lado, tem coisas maravilhosas como "Desentendimentos marcam nossa relação/ Eu te digo sim/ Você me escuta? Não". Isso é Habacuque, chuto. E acho um primor pop o refrão dessa música. A melodia, o caminho musical que escolheram. E acho que isso foi da Vanessa. Está vendo? Fico assim, tentando dividir a música em gomos autorais.”
“Aconteceu”
“Temos uma relação meio estranha com esta música. Parece que ela é daquelas "de disco". Não costumamos tocá-la ao vivo. Lembro ter feito a frase da introdução de uma maneira meio desajeitada. Estava trocando as cordas do violão de nylon, sentado no banco do piano. E aí em uma dessas dedilhadas para conferir afinação veio a sugestão da frase. Virei e fiz no piano. E aí o resto da música, aquela parte que entra as guitarras em diante, foi feita assim, alternando entre o violão e o piano, tudo ao mesmo tempo.”
“Trânsito”
“Essa música tem algo que agrada as pessoas... Os lances do beijo no sinal fechado e das risadas devem passar algo bom. Eu mudaria hoje o timbre e a oitava (muito alta) em que gravei o riff da introdução no teclado. Nos shows já fiz essa correção.”
“Princesa”
“Habacuque me lembrou um dia desses da interpretação na qual a princesa era uma cadela. Com as patas em cima da mesa. E ela podia ser guia de cego, trabalhando demais. Cantávamos um tempo atrás "Como seria melhor/ Se não houvesse rancor nenhum/ Mas há". O problema é que esse rancor vinha sem explicação e o fato dele haver botava o clima da música numa região meio agridoce demais. Por que rancor? Rancor é pesado, vem de dentro, é um treco represado, amargo. Aí mudamos a frase para "Se não houvesse refrão nenhum". E interpretamos às vezes a palavra "refrão" como repetição, rotina. E para o cansaço que a tal cadela sente depois de guiar o Mr. Magoo por aí... (risos)”
“Melancolia”
“Essa música para mim parece um plano longo de cinema. Sem cortes. Talvez só no solo exista algum corte. Mas é isso. Uma câmera passeando pela casa, o retrato, a escrivaninha, o bilhete na porta. E melancolia parece ser uma palavra que exige o verbo sair. Ninguém canta "Entrou em mim/ A melancolia". Se for para cantar, espera para cantar quando quiser que ela saia ou quando ela já saiu.”
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