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Grenade

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Discos quase simultâneos revelam os processos de mudança e os novos caminhos para a banda londrinense.

Tempo de mudança

ReproduçãoA longa (quase quinze anos) participação de Rodrigo César na cena independente brasileira começou através do Killing Chainsaw, uma das primeiras formações de indie rock a pintar por aqui. Depois de dois discos lançados (há rumores, aliás, de que o selo paulista Slag pretende relançar a estréia do KC) a banda piracibana acabou, Rodrigo se casou e mudou-se para Londrina, onde começou o Grenade, inicialmente um projeto solo. Hoje um quarteto, acaba de lançar, também pela Slag, novo trabalho, auto-intitulado. Rodrigo falou a Jonas Lopes e Maycon Lazarus sobre alguns assuntos relacionados à banda e aos dois lançamentos, inclusive a masterização do americano Steve Fallone.

Grenade, o disco, foi masterizado pelo mesmo cara que tratou Room On Fire, dos Strokes.

Por que deixar de gravar sozinho e transformar o Grenade em uma banda?
Não foi programado, mas naturalmente percebi que me sentia melhor com os amigos, tocando, fazendo shows e criando em conjunto. Uma banda é uma relação incrível, quando você está cercado de caras como esses. O Grenade nasceu da frustração do fim de uma outra banda. Quando isso ficou resolvido eu tive coragem pra começar outra vez com outros caras.

A “banda” foi formada 2001. O que motivou essa “ruptura” do trabalho individual para o coletivo? Foi uma necessidade? Vontade de manter apresentações ao vivo constantes ou modificar a sonoridade?
Não foi uma ruptura, porque ainda mantenho algumas idéias para trabalhar sozinho. Tem coisas que eu sei que fica muito complicado com a banda. Eu comecei a ensaiar com uma banda em 2000 para alguns shows, desde então os integrantes foram trocando até que em 2001 fechamos um grupo, com o Duda o Eric e o Paulo. Assim que o disco ficou pronto, o Duda foi embora de Londrina e o Vitor é nosso novo baterista. Agora devemos permanecer assim por muito tempo. A banda não anula minha individualidade. Fazer música sozinho é oposto ao trabalho coletivo. Sempre digo que me surpreender vendo minhas idéias sendo transformada em música, ao vivo, é genial. Ainda tenho muito mais paixão pelo quarto de ensaios com os amigos. Por isso o Grenade se tornou uma banda.

Como é o processo de composição agora? Você compõe e arranja tudo ou os outros também participam?
Só faço a minha parte. Sou, de longe, o pior músico da banda. Só conheço os acordes básicos e não consigo fazer um único solo de improviso. Por sorte, os caras que estão comigo conseguem fazer isso não parecer tão sério. Então chego com a melodia e os acordes e tudo nasce junto. Uma coisa que sempre fiz foi interferir no caminho da música. É o que eu sei fazer melhor. Tentar encontrar a cara certa de cada canção.

De onde vem a inspiração para as letras? De experiências pessoais ou de outra forma?
Não sei. É meio automático. Começo a escrever e só depois percebo o rumo. Do meio pro fim eu começo a entender melhor e acabo desenvolvendo uma idéia. Devem ser pessoais, porque não consigo falar de nada muito besta, cotidiano. São coisas como sonhos, liberdade, partida, morte, que sempre aparecem nas letras. Não sei explicar de onde vem.

Grenade era para sair em outubro do ano passado. Porque o atraso?
A história sobre os diversos atrasos com o disco são muito longas e quase todas de minha responsabilidade, por isso fica difícil explicar. O atraso na fábrica no fim do ano foi positivo porque eu estava ansioso para por o disco para fora, já que ele está pronto desde o meio de 2003. Mas agora, com mais calma, é melhor ter o ano de 2004 inteiro. As músicas já não são novas para banda, mas inéditas para o público quase que na maioria.

As gravações foram feitas ao vivo em estúdio e em equipamentos analógicos? O resultado final foi o esperado?
A base do disco foi gravada ao vivo em um estúdio. Levei tudo para casa, fiz as vozes e o mix. O disco foi enviado para masterização no Sterling Sound, em Nova York, e acho que o resultado final ficou incrível, levando em conta que é um disco gravado ao vivo em 16 canais e finalizado no PC vagabundo.

Nas duas novas faixas que estão disponíveis no site oficial, “Rainmaker” e “Godday”, percebe-se fortes pitadas de rock seventie e menos psicodelia. Como banda, o Grenade segue uma linha menos “experimental” (sem depreciação) e mais “lapidada”, no sentido de se estar fazendo rock básico?
Exato. Nesse disco são quatro caras em um quarto de ensaio. Não tem truque, efeitos, colagens, nada. São músicas simples e sempre quando falamos de baixo, guitarra e bateria, a coisa naturalmente fica mais pesada. Acho que isso não acontecerá nos próximos trabalhos, o que transforma esse disco em peça única na discografia. Mostramos exatamente como a banda se comunicava em um determinado momento. A gente gosta muito de rock.

Como surgiu a idéia de masterizar o disco com o mesmo cara que trabalhou em Room On Fire, segundo álbum dos Strokes?
Foi idéia do Eduardo Ramos, da Slag. Ele me disse que era preciso fazer um disco caseiro, independente com uma masterização de primeira para entender até onde esse processo, nem sempre bem cuidado por aqui, é importante no final. Quando a gente recebeu a master isso ficou bem claro.

Grenade também vai sair lá nos Estados Unidos, como aconteceu com o It´s An Out Of Body Experience?
Não aconteceu muito... Uma pequena distribuição por um selo de Seattle que parou de funcionar. Nunca tive ninguém pra cuidar das coisas pro Grenade e nunca dei muita importância. No caso do Out Of Body o cara me encontrou na internet, por acaso. Acho que com esse disco a gente deve conseguir alguma coisa melhor.

Você pretende manter os olhos no mercado exterior? Pensa em seguir para outras terras e fazer shows fora?
Nunca tive isso como um objetivo. Acho difícil acontecer e já tive experiências anteriores com minha outra banda, o que me provou que gerar essas expectativas pode ser muito complicado. Hoje faço música como terapia, porque realmente preciso. Tudo que vem após o disco é uma conseqüência muito tranqüila. Com esse álbum novo, estamos reunindo um pouco mais de esforços, mas nada que dê para tirar a gente do nosso caminho.

A distribuição da Trama está sendo eficiente?
Muito. Apesar do Grenade ser o tipo de banda que tem um público segmentado, a facilidade em encontrar o disco ajuda a tirar a carga negativa do conceito que existe do independente nacional. As melhores bandas estão nesse meio, por que não encontrar seus trabalhos nas lojas?

Ano passado saiu a coletânea de “sobras” Splinters. Você não acha que ela passou meio batida?
Acho. Na verdade ela foi lançada em cópias caseiras, sem muito barulho pelo pessoal da Bay King. Pretendo parar para fazer isso melhor no futuro. Gosto muito desse disco.

Splinters foi gravado de tal forma que remete o ouvinte diretamente para décadas passadas, de equipamentos analógicos e ruídos instigantes. Como foi o processo de gravação?
No Splinters é só o computador. Utilizo uma pequena mesa de som para gravar os instrumentos direto para o PC. Guitarra, violão e teclados. Todo resto é digital ou pedaços de outras canções.

Esse disco também chama a atenção pelas ótimas “sacadas” na utilização de elementos da música folk e da psicodelia. Dá para sentir certas influências de bandas do cast da Elephant 6, como Neutral Milk Hotel e Apples in Stereo, além de personagens essenciais para o nosso mundo, como Neil Young e Syd Barrett. Quais são suas principais influências nessa fase anterior à “banda Grenade”?
Minhas influências para fazer o Splinters são as mesmas de sempre. Ou seja, as mesmas com a banda. O que muda é a forma como eu posso explorar tais influências. Eu não tenho vergonha de admitir que sou influenciado por coisas externas com extrema facilidade. Por isso meu som está sempre mudando. Tem gente que acha isso um ponto negativo, falta de personalidade. Eu vejo como uma abertura. Gosto de tantas coisas e não posso me limitar em criar um "som Grenade".

Splinters parece ser um disco realizado com uma sinceridade e amor extremos. Na mesma questão cabe a dúvida: o trabalho é muito diferenciado quando se tem uma banda completa? Mais “cabeças”, mais influências, os problemas e os prazeres são maiores?
Na verdade, é o contrário. Uma banda te limita ao que todos imaginam como sendo possível de se fazer. Sozinho você é o universo. O que sair da sua imaginação vira música. É claro que digo isso como alguém que aprecia experimentar. Talvez fosse diferente se eu apenas tivesse poucas ferramentas e saídas na minha cabeça.

Vocês já estão preparando o próximo disco, certo? Também vai sair pela Slag? Que direcionamento vai seguir?
Estamos fazendo músicas que devem estar no próximo disco. Se depender do Grenade, esperamos que saia pela Slag. A gente está sendo muito bem cuidado e isso é raro. Além de que somos todos grandes amigos. Quanto a direção dos novos trabalhos, é sempre uma grande surpresa para mim também. E talvez o ponto chave da questão de onde eu tiro minha vontade de continuar fazendo música.

O Grenade vai tocar no Curitiba Pop Festival. Quais as expectativas da banda e como vai ser tocar no mesmo festival de bandas como Pixies e Teenage Fanclub?
Olha, pra falar a verdade, não fico muito "emocionado", apesar de ter as duas bandas como algumas das mais importantes como influência. Ficamos tão concentrados que esquecemos um pouco essa coisa de ídolo. Foi assim com Superchunk, Luna, Fugazi e todas as outras que a gente pôde estar juntos. A expectativa maior é fazer um puta show e não deixar a distância muito grande.



Fim do homem-banda
Apesar da proximidade cronológica, Splinters 2000 – 2002 (2003) e Grenade (2004) não poderiam ser mais distintos entre si. A partir de agora, eles delimitarão o momento em que Rodrigo César resolveu deixar de fazer música sozinho e transformar o Grenade em uma banda de verdade, com quatro membros. O guitarrista vinha tocando o projeto sozinho desde o fim do hoje cultuado Killing Chainsaw. Talvez essa decisão tenha vindo em virtude das apresentações ao vivo: Rodrigo geralmente tinha músicos de apoio nos shows, mas uma formação fixa é bem diferente, evidentemente, pelo prazer de dividir a satisfação com outras pessoas. Isso só ajudou a melhorar ainda mais uma das principais bandas independentes brasileiras – a melhor das que cantam em inglês.

Splinters, lançado ano passado pelo selo mineiro Bay King Music, coleta canções gravadas entre 2000 e 2002, período em que o Grenade não lançou álbum de carreira. As músicas seguem o padrão que transformou a banda em objeto de culto no cenário alternativo nacional: gravações minimalistas e caseiras, com ênfase nas composições, um pé na psicodelia ("Love Curse", "Your Hero", "Perto"), outro no folk ("My Name Is Hope" e a linda "Rusting") e muitos ruídos. Tudo com uma simplicidade instigante, que deixa a certeza de que a banda não faria feio lá fora, mesmo se fizesse parte do cast da finada Elephant 6 (não é difícil traçar paralelos sonoros com as Olivia Tremor Control e Neutral Milk Hotel). É o registro que encerra a primeira fase da Grenade.

É sintomático, portanto, que a frase que abra Grenade (lançado pela Slag Records), o novo disco propriamente dito, seja "it´s time to turn the page" (“é hora de virara página”). O acréscimo dos novos integrantes fortaleceu absurdamente a pegada das músicas. É um disco de rock mesmo, com ecos que vão desde Stones de boa safra ("Old Wish") até Neil Young & Crazy Horse ("Erase Your Head"). Destaque ainda para "Leave Me Alone" (e sua guitarra à Pink Floyd), "Gooday" (com pequeno sample de "Good Day Sunshine") e a tocante balada "For Her". O álbum soa muito bem, um pouco pela masterização do americano Steve Fallone – o mesmo de discões como Keep It Like A Secret (Built To Spill) e Yoko (Beulah) e que recentemente trabalhou em Room On Fire (Strokes).

Outra coisa que chama a atenção, além do engenheiro de som renomado, é a distribuição do disco, que está sendo feita pela Trama/Distribuidora Independente. Um sinal de que os independentes brasileiros não se deixarão intimidar pela falta de estrutura e vão partir para a briga pelo profissionalismo, ainda que limitado.
Jonas Lopes


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