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Clarah Averbuck
Escrito por Abonico Ter, 15 de Abril de 2008 14:16
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Sem papas na língua
A escrtiora Clarah Averbuck traz a palavra polêmica tatuada em seu corpo, ao lado de outros tantos símbolos e desenhos tribais. Em poucos anos, afinal, tornou-se o primeiro grande ícone da literatura pop nacional a despertar tamanhas reações extremas aos seus escritos. Muitos a amam e nunca se esquecem de dar uma passadinha diária em seu blog, um dos campeões de visitas do gênero no país. Outros, sem dó nem piedade, massacram-na por causa de seu método não muito ortodoxo de inspiração: expor sem qualquer pudor ou vergonha sua vida louca vida, regada a muito rock, sexo e pensamentos contundentes.
Revelada pelo extinto e cultuado e-zine gaúcho Cardoso On Line, Clarah optou por deixar Porto Alegre há menos de um ano e ir para São Paulo. Andando pelas ruas da maior cidade do país, ela topou com a Editora Conrad, que topou lançar seu primeiro livro. Em Máquina de Pinball, Clarah é Camila e Camila é Clarah. Sob um alterego nem tanto alter assim, ela cria uma personagem para revelar muito do que viveu recentemente, inclusive narrando seu encontro com os Strokes na Inglaterra..
Abonico R. Smith entrevistou Lady Averbuck. Sem papas na língua, ela respondeu tudo na lata e ainda antecipou novidades de seu próximo livro.
Clarah Averbuck: “Faz parte de usar a própria vida como matéria-prima”.
Qual é o limite entre a Clarah e a personagem Camila? Às vezes você se assusta na possibilidade de uma passar a "interferir" na outra?
Alterego significa "outro eu". A Camila é uma parte de mim, mas as pessoas realmente se recusam a entender que ela não é a Clarah. Eu controlo a Camila. Ela é minha personagem, faz o que eu quero. Mas isso é proposital, faço para confundir os leitores mesmo. Funciona, como dá pra notar, mas também dá bastante incomodação. Tudo bem, enchiam o saco do Bukowski e do Celine também. Faz parte de usar a própria vida como matéria-prima.
Como você lida com a superexposição de sua vida em fatos relatados no blog e no livro? Certamente atrai a contrariedade de muita gente, que deve te achar exibida ou qualquer outro adjetivo pior.
Ah, azar o de quem falar mal. Escrevo porque preciso. Quanto à exposição, bem, só exponho o que quero. Perco umas histórias muito boas por isso, às vezes pra preservar os envolvidos, outras pra preservar minha integridade física. Isso no blog. Nos livros eu não tenho essa preocupação. Mas não me importo mesmo com críticas.
Sem querer ser mala, mas tenho que citar o Leminski: "O primeiro personagem que um escritor cria é ele mesmo. Só os imbecis procuram um eu atrás do texto literário. Em literatura, a própria "sinceridade" é apenas uma jogada de estilo. Um escritor medíocre não consegue ser "sincero". Técnica, coração. Para ser sincero, é preciso dispor das técnicas que indiquem sinceridade. Sem isso, a mais pura das explosões verbais, a mais direta, a mais espontânea, será apenas mais uma manifestação de imperícia literária. Um amontoado de bobagens que o tempo vai se encarregar de destinar ao lixo, onde jazem as ilusões."
Isso pode ser usado contra ou a favor da minha pessoa, depende na boca de quem estiver. No meu caso, com licença, é a favor. Sem contar que o livro vai ficar e todo mundo, inclusive eu, vai virar pó.
Máquina de Pinball é bem curtinho. Em quanto tempo você escreveu o livro? Quando você esteve aqui em Curitiba, me disse que já estava com mais dois prontos.
Demorei seis meses, de julho a dezembro. Na verdade, tem uma história curtinha pronta, Três Dias, e um livro novo, que é o Vida de Gato, mais ou menos do mesmo tamanho do Máquina.... Não tenho nenhuma preocupação com tamanho, o que eu quis no Vida... foi contar uma história. Quando acabou, acabou. Máquina... não tem exatamente uma história, mas quem disse que eu queria que tivesse?
A Camila vai continuar aparecendo em outros livros ou você vai arrumar outros alteregos?
Não sei ainda. É ela de novo no Vida de Gato, mas ainda não sei do próximo. Vamos ver o que rola... Provavelmente será ela, sim. Eu gosto bastante da Camila.
Você é compulsiva por escrever? Quanto tempo gasta diante do computador?
Todo. Escrevo como uma maluca. Acordo pensando em parágrafos e vou direto para o computador. Ainda mais agora que estou cobrindo férias de uma pessoa na MTV, no departamento de promo, fazendo vinhetas e chamadas e essas coisas. Mas é só por vinte dias. Depois, quero começar um livro novo que está na minha cabeça.
Aparentemente um capítulo de Máquina de Pinball não possui ligação com o outro, apesar de alguns fatos apresentarem certa seqüência. Isso foi intencional?
Eu não queria contar uma história. Queria que o leitor entrasse na cabeça da Camila. Mas nada foi intencional, a não ser a parte de confundir o leitor com realidade/ficção. O livro se escreveu sozinho, ao longo do que fui passando. Diferente do Vida de Gato, que era uma história que eu queria contar.
Como você foi parar na Inglaterra, bebendo com o Strokes no camarim deles?
Enfiei na cabeça que iria para o Reading. E fui. Sem dinheiro, sem porra nenhuma. Para melhorar, o roommate, o meu amigo que ia me hospedar em Londres, resolveu morrer de overdose dois dias antes de eu embarcar. Meu vôo foi cancelado em Amsterdã e eu acabei perdendo o show dos Strokes e uma entrevista que tinha marcada com eles, à tarde. Fiquei puta e fui pra Liverpool, com uma grana emprestada do meu amigo. Cheguei lá e dei de cara com eles. Falei que tinha uma entrevista marcada (mais ou menos verdade, já que perdi a chance em Reading), entrei no bar com o Nick (Valensi, guitarra) e fiquei bebendo e conversando com os caras. Havia entrevistado o Fabrizio (Moretti, baterista) duas vezes por telefone, ele se lembrou de mim e ficamos ali falando merda. No fim, o tour manager não quis me deixar voltar no ônibus com eles. Então, eu acabei dormindo na casa do Uncle Phil, que era tio do Peter, dos Libertines, que também estavam perdidos no camarim. Olha, foi bem divertido. Mas eu não deveria ter bebido tanto...
Em que pé está a sua banda em Porto Alegre?
Tá parada. A gente ia gravar agora, mas pintou este emprego e eu tive que voltar correndo para cá depois de dar uma votadinha em POA. Mas pretendo voltar lá assim que der para gravar as músicas que fizemos no começo do ano.
Você acha mesmo que a vida pode ser medida por pontos tipo máquina de pinball ou isso é um pensamento apenas da Camila?
Bem, aquilo é uma metáfora de identificação. Eu gosto de pessoas que tenham coisas em comum comigo. Claro que não é assim com barulhinho de máquina de pinball nem nada, mas é verdade que referências me chamam a atenção. Não é tudo, claro. Se o sujeito conhecer tudo com a cabeça e for um cuzão, não adianta nada. A questão é que eu sou muito apaixonada pelas coisas que gosto e, normalmente, quando alguém gosta dessas coisas sente assim também. Ahn, será que deu pra entender?
Pergunta inevitável: como você está morando atualmente?
Hoje eu dormi em um hotel, mas os mosquitos venceram e eu vou trocar para um mais barato e comprar inseticida de tomada enquanto não alugo outro apartamento, o que deve acontecer nas próximas semanas. Ganhei uma grana do Murilo Salles, que comprou os direitos do Máquina..., e vou receber uma grana da editora e da MTV aqui. Pela primeira vez, desde que cheguei em SP, tenho dinheiro. Mal posso acreditar, tudo está dando certíssimo. Devo estar com alguma doença incurável ou algo assim.
Se Máquina... for transformado em filme, a Camila poderá ser interpretada por você mesma?
Ah, eu não sou atriz. E seria meio demais, né? Imagina o Bukowski sendo ele mesmo no Barfly...
O que você já criou para as vinhetas da MTV? Do jeito que gira a sua cabeça, já devem ter saído muitas idéias...
Ah, eu tô adorando. Fiz umas vinhetas legais,umas chamadas divertidas, sempre ironizando tudo, porque não dá pra fazer uma chamada para o The Calling sem ironizar, que eu não sou de ferro. Ando largando umas frases em Latim no meio, que agora eu decidi que vou estudar Latim e italiano e todas as línguas que couberem na minha cabeça. Acho que vai render. Até hoje, o terceiro dia, rendeu.
Você já é uma expoente da literatura junkie-pop nacional. O que acha de dividir estantes dos leitores com nomes como Charles Bukowski, Paulo Lemisnki e Nick Hornby?
Eu acho ótimo, ora bolas. Como poderia não gostar? É muito legal ter o trabalho reconhecido, mesmo que seja através de opiniões equivocadas de jornalistas bobos... Porque antes de tudo, antes de qualquer coisa, eu sou escritora. Nasci assim e vou morrer assim. Porque ninguém vira escritor. Ou o cara se descobre, ou tenta virar e resulta em um mau escritor. Ninguém aprende a ter talento.
Você se cansou de autografar cada exemplar de seu livro? Você acha que a numeração pode ser mesmo uma saída para o mercado de discos e livros?
Acho legal o lance de numeração. A gente fez aquilo porque disseram que era impossível assinar todos os exemplares. Impossível não é, é só cansativo. Mas é o jeito de controlar a própria obra.
Quando Lady Averbuck atacará com novidade nas livrarias?
Em breve, em breve.... Vida De Gato está a caminho.
Carlos Eduardo Miranda (produtor, músico, jornalista) escreveu que você é uma garota com culhão. Você acha que esta sua mistura dosada de feminilidade ("sou uma mulherzinha", Camila diz no começo do livro) com agressividade é um pontos fortes para que o nome Clarah Averbuck atraia tantas opiniões pró e contra dos leitores?
Talvez. Eu tenho personalidade forte desde que nasci, e pessoas assim não agradam a todos. E nunca foi minha intenção, de qualquer forma. Quem gostar, sensacional. E azar de quem resolver me julgar pelas tatuagens ou pelas coxas.
Nelson Rodrigues dizia que considerava o imparcial um monstro de circo de cavalinhos e um vigarista. Eu também acho. Toda a crítica é pessoal, então eu realmente não poderia ligar menos. Falem mal o quanto quiserem, vou continuar lendo meus livros, escrevendo meus textos e ouvindo meu róque. Como diria a minha avó, cadum, cadum.
Quais são as cinco camisetas de bandas/atores/escritores/diretores que fariam um garoto te conquistar?
Richard Hell, Stooges, The Germs, Fante e Mae West. Mas ele teria antes que provar que não era um poser. Usar camiseta é fácil.
Seu cabelo continua cor-de-rosa?
Sim. Para sempre. Minhas raízes negras e minhas pontas cor-de-rosa continuam todas fora do lugar.
O que você achou de Curitiba? Afinal, ela é terra de um de seus ídolos, Paulo Leminski (e de outro gênio underground, Dalton Trevisan). A cidade vai aparecer em seus escritos em breve?
Não deu tempo de conhecer muito, mas sim, estará no Vida de Gato, que eu estava escrevendo na época. Você vai reconhecer a situação que eu sei. Ou pelo menos especular. E ficar confuso, porque nem tudo é exatamente verdade nem totalmente mentira. Sobre a música, gostei muito do Pelebroi Não Sei. Aquele vocalista é sensacional, adorei, adorei. Também gosto bastante dos Feicheclares, cujo nome não sei escrever (N. do E.: Clarah, a grafia correta da banda é Faichecleres...).
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