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ESPECIAL - Primal...

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O Primal... chuta para o alto os entraves do entra-e-sai de bateristas e disco de estréia que permanece inédito há quase três anos e anuncia mudanças, muitas músicas novas e um CD com remasterizações de antigas gravações ao vivo e demos.

Primalogia

DivulgaçãoDisco de estréia conceitual que permanece inédito desde 2000 mais um sanado problema de entra-e-sai de bateristas. Com onze anos de carreira e formado por músicos veteranos do rock curitibano, o Primal... chuta os entraves para o alto e recomeça o contato com o público de todo o país através de um CD com remasterizações de antigas gravações ao vivo e de demos. Enquanto espera um desfecho para lançar Coré-Etuba, que une sonoridades do metal, industrial e gótico, o vocalista Gustavo Diaz conta a Abonico R. Smith sobre a nova fase, algumas mudanças e um novo repertório suficiente para gravar outro álbum.

Entre as novas músicas do Primal... destaca-se.

Homem e mulher andam sobre a terra, cometendo pecados. Entretanto, não sentem qualquer medo do que vão deixando para trás. E vão mais longe: fazem um pacto de sangue para ambos brilharem mais que o sol. A música chama-se “Brighter Than The Sun”. Traz, além da explícita referência aos personagens bíblicos Adão e Eva, outras duas citações a respeito do mundo do rock: fala sobre a Condessa Bathory (que, em uma letra do trio de death metal Venom, banhava-se em sangue para manter eterna sua juventude) e a Fonte de Salmacis (aquela que quem tocasse virava hermafrodita; mitologia grega utilizada em uma composição homônima do Genesis, fase Peter Gabriel). Foi composta há menos de dois meses e desde já transformou-se em um dos hits do grupo nos últimos shows.

“Brighter Than The Sun” é o símbolo da terceira e nova fase do Primal..., banda que desde 1991 vem representando o lado mais pesado do rock curitibano. Apesar de todo este tempo de carreira – e de ser capitaneada por dois heróis da resistência da década de 80 (o guitarrista Fabiano Cavassim veio do Abaixo de Deus e o vocalista Gustavo Diaz pertencia ao Epidemic, que dividia com o Holy Death a preferência das camisas pretas da cidade durante o auge do thrash metal) – o grupo registra um fato curioso: o de nunca ter lançado um disco oficialmente, apesar de já ter um trabalho gravado há quase três anos ainda inédito. Primeiro por falta de grana e depois por causa de contatos com gravadoras que acabaram não dando certo, o álbum conceitual Coré-Etuba – um verdadeiro torpedo que pega o peso do metal e promove aproximações com a pancadaria do industrial e os climas soturnos do gótico, mais letras que falam sobre a história e a pré-história da cidade de Curitiba – permanece pronto na gaveta. “Agora, depois de tanto tempo, já desencanei de lançar o disco. Ele vai sair quando tiver de sair”, conta Gustavo.

Neste tempo de rua trancada pelo impasse de Coré-Etuba, o Primal... viu também seu futuro andar na corda bomba. “Toda esta espera prejudicou muito. E ainda houve um entra-e-sai de bateristas A gente acertava com um baterista, perdia três meses ensaiando para ele pegar as músicas e logo ele saía. Então, estava de volta à estaca zero, procurando outra pessoa”, lembra o vocalista. Recentemente, depois de tentar com ex-integrantes de famosaas extintas bandas da cidade (como Resist Control e Fuksy Faluta), a vaga foi definitivamente fechada por Roberto Krug, ex-Nameless?. “Esta é uma nova fase. A banda nunca esteve tão unida, até mesmo no dia a dia. Agora estamos mais experientes. Fomos aprendendo com tudo isso”, adiciona.

Primalogia
Diaz, Cavassin, Krug e o baixista Pio Schner (ex-Resist Control) se cansaram de esperar. Pegaram quatro faixas de Coré-Etuba e começaram a distribuir cópias de um single promocional para publicações e meios de comunicação voltados para hard rock e heavy metal. Não só receberam boas críticas, como também reativaram o contato com o público de todo o país, que havia diminuído desde o início das gravações do disco-que-não-saiu. Logo, uma saída foi encontrada para atender à demanda dos novos fãs: fazer um disco caseiro, com capas em xerox e gravações antigas (entre 1992 e 1995) remasterizadas. Nasceu, então, Primalogy, compilação que junta seis músicas de duas demos (Nailed e Homo Urbanus) e mais alguns registros ao vivo. Uma curiosidade é a primeira gravação de Gustavo, “Sorrow Of The Masses”, feita logo após sua entrada na banda, há dez anos.

“Já temos tantas músicas novas que dá para gravar um disco inteiro de novo. Só que antes queremos desencalhar o outro. Por isso estamos fazendo um trabalho de formiguinha com Primalogy, que é mais um item voltado para colecionadores. Perguntado sobre a diferença entre os dois discos, Gustavo é direto: “Coré-Etuba não segue tendências. Não é nu metal, mas é superatual, tenso e mais industrial. Tem também traços de Killing Joke e Sisters Of Mercy. Já Primalogy vai mais pela linha do hard rock, com proximidades ao som de AC/DC, Black Sabbath e Cult.

A nova fase do Primal... registra algumas mudanças. Gustavo abandonou as performances com pintura sobre o corpo e os efeitos especiais obtidos através de um esmeril (“o tempo passa e a gente vai revendo certas coisas”, justifica). As guitarras, que eram mais graves em Coré-Etuba, agora são afinadas em ré. Arranjos também estão mais encorpados, com o vocalista também segurando as seis cordas. O repertório dos shows – dividido entre os três períodos – encarnam a idéia de continuidade sugerida pelas reticências do nome da banda.

Simbolismos
O que não mudou, contudo, são as letras escritas por Diaz. Seus versos até hoje transbordam simbolismos e referências histórico-artístico-mitológico-religiosas, sempre contando histórias na qual os personagens transformam-se em alter-egos para a expressão do sentimentos e idéias do próprio vocalista. Fazendo companhia a “Brighter Than The Sun” estão as novas “Mercy” (“É sobre um cara conversando com Deus e pedindo misericórdia. Meio Nick Cave...”), “The Beauty And The Beast” (“Fala sobre dois lados da mesma pessoa. Aliás eu já havia falado de Mr Hide e Dr. Jekyll em “Nailed To The Cross”, gravada na demo de 1993), “Shallow Grave” (“um cara questiona a existência humana e enquanto isso vê as transformações do mundo”) e “Halo Of Flies” (“no refúgio da cidade grande, alguém se pergunta o porquê de seus sonhos sempre se transformarem em poeira; enquanto isso, todo o lixo produzido pela humanidade começa a entupir os bueiros e vazar pelas ruas”). “Dá para fazer um novo disco tão conceitual quanto Coré-Etuba”, brinca. “Afinal, elas apresentam algumas ligações entre si. Também têm uma certa idéia de continuidade”.

E uma das antigas idéias de Gustavo ainda pode estar perto de ser concretizada. O Primal..., que sempre se notabilizou pelos raros covers executados ao vivo durante toda a carreira, pretende resgatar duas das mais importantes canções do rock curitibano das últimas duas décadas, fazer novas versões, regravá-las e incluí-las no repertório fixo dos shows.

Caso sejam obtidas as permissões dos autores para subverter os clássicos “Fun” (Magog, 1992) e “Homem de Ferro” (Beijo Aa Força 1988/1989) este será o primeiro registro recente de uma banda de Curitiba recriando outra banda da cidade que não seja apenas pela diversão de uma noite ou um tributo.

Resta ficar na torcida para que isso aconteça...


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