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Autoramas
Escrito por Abonico Seg, 14 de Abril de 2008 21:03
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Comunidade racional
Pé no chão e a maior racionalidade possível para superar este período de afiada crise econômica. Esta é a filosofia do trio Autoramas, formado há quatro anos no Rio de Janeiro e cujos integrantes possuem glorioso currículo de bons serviços prestados ao rock brasileiro – leia-se passagens pelas bandas Little Quail and The Mad Birds, Dash e Planet Hemp, três expoentes alternativos da safra ninetie verde-e-amarela. Passados dois bons álbuns, um compacto sete polegadas com vinil colorido e uma demo poderosa, Gabriel Thomaz (guitarra e voz), Simone do Vale (baixo e voz) e Bacalhau (bateria) têm certeza de que não estão recomeçando do zero. Afinal, querem usar a experiência e a união obtida desde as sessões de Vida Real (gravado ao vivo no estúdio em 2000) para gravar e lançar o terceiro álbum – se possível com contrato assinado com nova gravadora. Enquanto isto não ocorre, vão maturando novo repertório em performances ao vivo, como a marcada para o festival HellSurf, em Curitiba, nesta semana.
Abonico R. Smith ligou para o celular de Gabriel e o flagrou em um sebo da capital carioca, procurando novidades para incrementar sua coleção de discos raros e bizarros. Entre as novas aquisições, por R$ 1 cada, estavam compactos da cantora Kátia Cilene e de um galã global dos anos 70 e 80, Francisco Cuoco (?!). E a conversa ficou “em casa” quando Gabriel soube que seu interlocutor já havia guardado por anos em casa um sete polegadas de outro ator de novelas, Mário Gomes...
Autoramas se aventura pela estrada enquanto prepara o terceiro álbum.
Vocês estão sem gravadora...
É. Tínhamos contrato para três discos mas não queremos fazer mais um lá [no selo Astronauta, distribuído pela Universal]. Muitas promessas feitas não foram cumpridas, saiu quase todo mundo... Devemos lançar mais um compacto em vinil pelo selo Monstro, no final de outubro. E há gente interessada em lançar o próximo álbum, vamos ver o que está pintando. Não temos previsão de gravações oficiais ou mês de lançamento, mas vamos fazer isso nem que seja de maneira independente. O que hoje em dia, aliás, é um grande negócio...
O que vai entrar neste disquinho da Monstro?
São três faixas instrumentais. Uma se chama “HCI”, que significa hardcore instrumental. “Submarino” é mais surf e a terceira é uma nova versão para “Copersucar”, que é mais “jovem guarda”.
Por que vocês resolveram fazer Vida Real ao vivo no estúdio, sem overdubs ou alteração nas gravações? Fazer um disco tão cru não significa um suicídio comercial dentro de um esquema em grande gravadora?
Gravar um CD ao vivo foi maravilhoso porque nos permitiu melhorar tecnicamente e nos entender de forma perfeita entre a gente. Acho que existem um milhão de maneiras de gravar um disco e esta foi apenas uma. Estávamos muito bem ensaiados e a grana já estava curta naquela época. Não gastamos tanto na gravação e isso nos permitiu fazer um pouco mais depois. Sabíamos que seria brabo lançar um disco novo desta forma, mas apertar os cintos de todos os lados foi uma estratégia pensada para atravessar a crise. Tanto que a banda continua aí, com repertório quase pronto para o terceiro álbum. Avaliando os prós e contras, não foi difícil só para a gente, mas para todo mundo. Vejo por aí muitas bandas, boas ou ruins, na mesma situação ou então gastando uma puta grana para não rolar nada depois. Quanto mais alto o vôo, maior pode ser a queda. Por isso, o jeito é manter o pé no chão na hora do tratamento de choque.
Como o grupo teve a idéia de fazer o clipe de “A Vida de Cada Um”, uma produção muito lúdica e bonita, feita só com fotografias suas de várias fases e faixas etárias?
Fizemos um especial gravado ao vivo com seis ou sete músicas para exibição em várias emissoras de TV. Contudo, justamente esta música – que para mim é uma das melhores de Vida Real – a gente acabou perdendo, não tendo a possibilidade de usar por problemas técnicos. Fiquei com pena e pensei na solução de gravar um clipe, mas não tinha dinheiro. Então pensei no que o título diz e pensei em contar a minha vida através de muitas fotos antigas que fui buscar nas casas da minha mãe e minha avó. E o clipe não custou nada. Minha irmã e a Fernanda Villa-Lobos fizeram nas horas vagas. Levou uns quatro meses e só custou o material...
E por que fazer só com você? Por que Bacalhau e Simone ficaram de fora?
Já havíamos feitos dois clipes. Em “Falem Mal De Mim”, Bacalhau foi o protagonista. Em “Carinha Triste” foi a vez da Simone. Agora havia chegado a minha hora de ser o protagonista.
Como está o novo repertório? Já há músicas novas sendo incluídas nos shows?
Várias. Tem “Megalomania”; “Rei Da Implicância”; “O Inferno São Os Outros”; “Bom Veneno”; “Beleza”; “Você Sabe”; Multibol”, que é instrumental; “Música de Amor”, parceria minha com a Érika, da Penélope... Acabamos de fazer a primeira gravação de todas as músicas para ver como elas estão. São ao todo 17, das quais devemos escolher 14 para o disco.
Já há envolvimento maior da Simone nas composições e vocais principais?
Sim. Ela está compondo cada vez mais e canta as que ela faz. “O Inferno São Os Outros” e “Resta Um”, por exemplo, são dela.
As letras continuam com a temática loser que marcou versos como os de “Carinha Triste” ou “Falem Mal De Mim”?
Às vezes sim, às vezes não... Acho que estão mais espontâneas. Não me policio muito, cada hora me dá vontade de fazer uma coisa. As letras são muito do que o Autoramas já era, bem-humoradas, mas houve evolução a ponto de sair algo mais romântico ou irônico. Só que ainda permanece toda aquela coisa anti-social... (risos)
Você está produzindo novas bandas cariocas como o Go e o Influenza. Existe alguma diferença entre o Gabriel produtor e o Gabriel músico?
Artista costuma ser um bicho orgulhoso, que não aceita muito opiniões alheias para mexer em sua obra. Não sou engenheiro de som. Eu tento passar o que a banda é. Conduzo o trabalho pelos timbres. Tenho o cuidado de passar a banda toda em ensaios, fazê-la ficar consciente da definição de toda e qualquer notinha. Os moleques do Go foram humildes neste caso, por exemplo. Entenderam que a banda sozinha não teria muito dessas noções. E modéstia à parte já foram feitos muitos elogios à produção. Quanto ao Influenza, do Renatinho [ex-Acabou La Tequila], é muito bom, algo meio Squirrel Nut Zippers.
Você já está na batalha, com o Little Quail e o Autoramas, há quase quinze anos. Qual é o balanço que você faz de todo este tempo de carreira?
Puxa, tô ficando velho... Para mim, este é um ganha-pão como qualquer outro. É como acordar todo dia para ir trabalhar. Mas foi legal do jeito que eu conduzi as coisas. E como compositor rolou legal. Aliás tem uma música minha no novo disco do Ultraje A Rigor...
Pouco tempo atrás você era um moleque tocando e hoje já referência no rock brasileiro para outros moleques. Como você lida com isso?
Gosto de colher frutos pelo bom trabalho. Mas eu gostaria ainda mais se eu pudesse colher outros frutos. Na minha conta bancária, por exemplo... (risos)
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