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Trinca indie

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Leoni, Ritchie e Arnaldo Brandão venderam muito nos anos 80 e hoje lançam-se na independência.

Trinca indie

Foto: DivulgaçãoLeoni, Ritchie e Arnaldo Brandão fizeram história nos anos 80. Emplacaram hits atrás de hits, venderam muito e apareceram constantemente na imprensa para depois encarar um longo período de afastamento da indústria fonográfica nacional. Agora, ao mesmo tempo, todos eles voltam a lançar álbuns, por selos próprios e/ou independentes. Abonico R. Smith ouviu os discos e revela algumas boas faixas pop que rádios e grandes gravadoras estão perdendo em nome do ligeiro retorno financeiro.

Ritchie voltou-se para o mercado indie, como também fizeram Leoni e Arnaldo Brandã.

“Existe uma certa incompreensão no Brasil sobre o significado da expressão “música pop”. Quase como se ela constituísse um gênero em si, e não um tratamento artístico – letras espertas, refrões ganchudos, melodias assobiáveis, tempos médios – que pode se espraiar sobre rock, soul, reggae, funk, MPB, forró, música baiana de carnaval... Aqui isso acabou por transformá-la em algo meio vergonhoso, pejorativo. Quando, na verdade, a boa música pop constitui uma espécie de guilda de artesãos altamente qualificados. Nã Grã-Bretanha, por exemplo, são membros de carteirinha Paul McCartney, Elton John, Phil Collins e George Michael, entre muitos outros.”

O parágrafo acima foi transcrito do release escrito pelo jornalista carioca Arthur Dapieve, enviado para a imprensa junto com o novo disco de Leoni. São palavras perfeitas para explicar a cegueira profunda que vem norteando as grandes gravadoras brasileiras nos últimos anos. Apostando apenas na voracidade do retorno financeiro rápido em detrimento da qualidade artística e da construção de carreiras sólidas, com “fãs de verdade”, a indústria fonográfica brasileira transformou o popstar em uma pessoa subserviente ao culto da personalidade. Nos pratos da balança, capas de revista sobre posses e intimidade vale mais do que tudo. Quem não adere à produção em série “sorvete-na-testa” acaba ficando fora do mercado (e isso, convenhamos, não vale apenas para a música, não...)

Três artistas de grande importância na história na música brasileira agora estão de volta depois de anos e anos de afastamento da indústria. Todos foram bastante reverenciados na década de 80, venderam muito e sempre tiveram suas músicas executadas à exaustão em rádios e tevê. Ilustraram muitas páginas de jornais e revistas naquela época

Leoni foi o mentor musical dos dois primeiros álbuns do Kid Abelha, Seu Espião (1983) e Educação Sentimental (1985). Emplacou hits atrás de hits – entre eles “Fixação”, “Nada Tanto Assim”, “Seu Espião”, “Como Eu Quero”, “Por Que Não Eu?”, “Pintura Íntima”, “Garotos”, “Educação Sentimental”, “Educação Sentimental II”, “Lágrimas e Chuva” e “Os Outros”. Saiu da banda e logo montou outra, mais pesada e tão pop quanto, o Heróis da Resistência. Mais sucessos: “Esse Outro Mundo”, “Nosferatu”, “Só Pro Meu Prazer”.

Ritchie fez uma estréia avassaladora em 1982, no compacto com a música “Menina Veneno”. No ano seguinte, continuou trilhando altos caminhos radiofônicos no álbum de estréia e emplacou “Casanova”, “Pelo Interfone”, “A Vida Tem Dessas Coisas” e a faixa título, “Vôo de Coração”. Depois de vender um milhão de cópias, inexplicavelmente, acabou vendo a carreira despencar de forma vertiginosa (quem sabe os motivos de bastidores um dia ainda deverão vir à tona?).

Já o baixista Arnaldo Brandão (que tocou n’A Bolha, nos anos 70) vinha d’A Outra Banda da Terra, o grupo de apoio de Caetano Veloso em shows e discos. Em 1982, integrou o Brylho, grupo soul de um megassucesso (“Noite do Prazer”, recentemente regravada pelo vocaslista Claudio Zoli) e carreira bem fugaz. Logo depois, fundou o power trio Hanoi Hanoi, passou a cantar, lançou de cara um hit (“Totalmente Demais”) e gravou uma série de álbuns de menor alcance até o fim da banda.

Leoni, Ritchie e Arnaldo – que, respectivamente, andavam escrevendo livros, criando websites para outros artistas e pilotando um estúdio próprio – são gatos escaldados. Todos traçaram seu retorno ao meio musical, porém optando por rumar pelos caminhos da independência. Para o lançamento de Você Sabe O Que Eu Quero Dizer, primeiro álbum após nove anos, Leoni fundou um selo próprio, o Batuque Elegante, distribuído por outra gravadora indie, a Atração. Já Ritchie assinou com a DeckDisc após muita insistência do produtor Rafael Ramos e gravou Auto-Fidelidade”, quebrando um silêncio que já durava quase doze anos. E Arnaldo decidiu abraçar a carreira solo com o álbum Brandão E O Plano D, todo concebido by yourself.

Você Sabe O Que Eu Quero Dizer é um álbum sem loops, teclados ou mesmo bateria (há três percussionistas segurando a parte rítmica). Há duas parcerias especiais (“Napalm No Morro”, com Frejat, e “Fotogafia”, com Léo Jaime), flertes com a música brasileira (samba em “Samba e Saudade”; a moda de viola em “Mais Perguntas Que Respostas”; a bossa nova em “Criado Mudo”) e duas características que sempre acompanharam a carreira de Leoni: versos sobre relacionamentos e melodias ganchudas. Faixas pop como “As Cartas Que Eu Não Mando” (composta com a mulher e produtora, Luciana Fregolente) e “Melhor Pra Mim” deveriam estar nas rádios, tocando sem parar, se estas fossem mais receptivas (parafraseando o Oasis e o título do álbum, you know waht I mean).

A sonoridade meio pop meio new wave que marcou o início da carreira é o grande resgate do novo álbum de Ritchie. Faixas como “Auto-Fidelidade” (ótimo trocadilho, por sinal), “Lágrimas Demais”, “Onde Que Eu Errei?” e “Lua Lua”, são eighties puro. Sugerem o quanto as grandes gravadoras poderiam contribuir para a evolução musical (sem correr o risco de perder dinheiro) se apostassem em novas composições ao invés de jogar nas lojas aquelas infindáveis séries de compilações vagabundas.

Mas Ritchie também está aberto a novidades. Manteve as parcerias com Bernardo Vilhena, mas passou a trabalhar com outros letristas – Alvin L, Ronaldo Bastos, Erasmo Carlos. E finalmente mostrou ao público um pouco do Richard David Court, gravando cinco faixas em inglês (as versões em português também estão no disco). Duas delas, “Shadowland” e “And We Fall” lembram um pouco da mistura pop-world-progressiva que Peter Gabriel tanto adora – não à tôa, em meados dos anos 70, Rithcie tocou em uma banda progressiva chamada Vímana.

Rock, samba, funk, reggae, ska e até baião compõem o caldeirão sonoro do disco solo de Arnaldo Brandão, que ainda aposta na parceria com o letrista Tavinho Paes e em versos urbanóides carregados de ironia e sarcasmo. Economia (“Dinheiro (Devo, Não Nego e Não Pago)”), pin-ups (“Alicinha” e “Babalux”), passividade (“Amém”), filosofia (“O tempo é o movimento de todo o pensamento” anuncia uma frase de “Movimento”, que leva o disco para um final sinfônico), comunicação (“Na verdade, na mentira/ A realidade é estar na mídia”, prega “Tá Na Mídia”) e sexo (“Bates Motel”) permanecem entre os temas recorrentes do músico. O ska “São Sete” e seus versos sobre certas coincidências e numerologia (assunto que volta e meia é abordado por aí, de Pixies a Marina) também são outro exemplo de música facilmente assimilável que está sendo desperdiçada pelas emissoras radiofônicas. Outro destaque é a balada psicodélica “Destino”, que questiona o tempo e certas relatividades (“Na memória do presente/ O futuro e o passado/ São por si inexistentes/ No vazio do espaço”)

Os novos discos de Leoni, Ritchie e Arnaldo Brandão revelam que não só a vida como também a criatividade e a identidade continuam depois do corporativismo. Como diz aquele provérbio, antes “solo”.

 


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