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ESPECIAL - Wasted
Escrito por Abonico Ter, 29 de Abril de 2008 10:49
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Minha fama de má
Joan Lang sabe como lidar bem com a fama de tirana, supercontroladora e arrogante. Figura das mais provocativas da música curitibana, a dona de uma língua afiada e extrema capacidade para compor belas músicas pop em inglês está de volta. Remontou o Wasted, com integrantes e sonoridades novas – agora mais sujo, rápido e pesado. E ainda garantiu a Abonico R. Smith que não vai mudar.
Joan (de branco), Márcio e Babi: Wasted permanece melódico, mas agora tem nuances hendrixianas e velocidade punk.
Rock’n’roll não é feito só de harmonia, melodia, ritmo e sentimento. Existe também um outro elemento tão importante quanto chamado atitude. Por atitude, entende-se uma personalidade marcante, que se destaque no meio de tantos outros músicos. Algo forte, que chame a atenção, não só em cima dos palcos como também no dia a dia. Alguém que provoque – intencionalmente ou não – em entrevistas ou conversas informais. E até mesmo que divida as opiniões do público.
A capital paranaense nunca parou de gerar boas bandas. Entretanto, peca no quesito atitude. Talvez pelo desencorajamento das baixas temperaturas ou ainda pela timidez natural do povo curitibano, isso sempre se refletiu na produção musical da cidade. Provocações eram comedidas, ninguém se arriscava em dar a cara para bater, talvez por precaução frente ao costume detonar o outro pelas costas.
De um par de anos para cá, uma nova geração de músicos vem detectando este problema – afinal, rock não é rock sem polêmica – e tratando de deixar este mundo um pouco mais divertido. Oneide Dee Diedrich, frontman do Pelebroi Não Sei e psicólogo “nas horas vagas”, abusa da paciência de muitas pessoas e chega a irritar durante seus shows. O baixista e vocalista do Faichecleres, Giovanni, não poupa fogo contra certo segmento da audiência alternativa e volta e meia avisa que “rock não é lugar de depressão e prozac”. Os manos rappers do Manymais são outros que não têm papas na língua. Sha-Zan e Charly Xyn, de senso crítico afiado por causa do vício em desenhos animados como Simpsons, Picapau e Turma do Pernalonga, recorrem ao bom humor eterno para questionar tudo o que vêem pela frente.
Só que ninguém ganha de Joan Lang, 22 anos. Ex-guitarrista e agora tocando baixo, ela dispara na frente se o quesito é personalidade forte. Garota de extrema habilidade para compor música pop em inglês, ela nunca escondeu que montou uma banda – o Wasted – para falar e cantar o que quer, exatamente do jeito que quer. Isso lhe rendeu o apelido de arrogante e talvez tenha sido o motivo de ter criado um dos maiores índices de rejeição entre os músicos da cidade. E a dose foi muita. Ela não fala mais com sua ex-companheira de banda (Xanda Lemos, atual guitarrista/vocalista do Criaturas e com trabalho solo produzido pelo ex-Mutante Sérgio Dias), com quem dividia as atenções na banda. Joan diz que até hoje não sabe o que motivou esta situação, que começou quando Lang passou quatro meses na Inglaterra, no ano passado.
Terra eletrônica
“Abandonada” pelo próprio grupo – Xanda foi a primeira a se desligar; depois o baterista Ivan Rodrigues o baixista Gabriel Nogueira passaram a se dedicar exclusivamente ao Tarja Preta – Joan colocou o Wasted na geladeira e saiu em busca de novos integrantes. “Queria mudar tudo. Já não estava mais feliz ao lado daquelas pessoas, nem elas comigo. Não teria acontecido se não fosse deste jeito. Quando fui para Londres logo depois do lançamento do primeiro disco [N. do E.: o independente It’s All We’ve Got, que já mostrava Joan sozinha na capa e na contracapa, deixando os outros músicos para o resto do encarte] já não estava acontecendo nada por aqui”, conta.
Quanto às acusações recorrentes na cidade de que o Wasted não teria dado certo e que ela teria “quebrado a cara” quanto ao sonho de ser rockstar na Inglaterra, Joan sabe se defender muito bem. “O Wasted não deu errado. Foi uma banda que deu certo durante um determinado momento mas que acabou. Foi bom enquanto durou e agora é outra coisa”, diz.
Sobre o período passado em Londres, Lang reconhece sua grande decepção com o atual estágio da música na terra da Rainha Elizabeth. “Nunca esperei chegar lá e ser reverenciada como um gênio, mas esperava uma Inglaterra bem mais rock’n’roll. Fui mesmo para lá com a intenção de levar a banda, mas agora tudo tem a ver com rave e música eletrônica. Assim que cheguei tudo foi muito óbvio. Pude perceber que lá não é mais um país de rock de grandes proporções, que isso ficou restrito a locais pequenos e pessoas seletas. Então voltei. Que motivos eu teria para ficar longe de Curitiba, se aqui é a mesma situação?”, justifica. Durante o período do outro lado do Atlântico, ela então aproveitou para ver alguns shows de bandas sixties ainda na ativa (Beach Boys, Fortunes, Gerry & The Pacemakers) e percorrer o circuito Beatles em Liverpool (Cavern Club e Abbey Road incluídos, claro) como milhares de outros turistas fazem.
Power trio
Na última sexta-feira, no 92 Graus, Joan reestreou o Wasted depois de quase um ano de inatividade. “Agora a melhor banda do mundo está de volta”, resumiu, de forma bem-humorada, logo na primeira frase desta entrevista. Além de dois novos integrantes, há algumas mudanças no som. O Wasted está mais pesado. Perdeu o segundo guitarrista e passou a contar com a influência da guitarra hendrixiana de Márcio e a bateria de alma punk de Babi. As influências de Pretenders e Beatles – as duas maiores paixões de Lang – ainda permanecem, mas a presença de alguns covers (Stooges, Alice Cooper e o próprio Hendrix) já indica a transição de uma guitar band sixtie e altamente melódica para uma grande pancadaria promovida por um power trio.
“O mundo muda as pessoas”, justifica Joan, que há dois meses – desde a chegada de Babi – reconhece que ainda está se acostumando à idéia de power trio. Ela modificou seu modo de compor, passando a pensar em criar linhas de baixo compatíveis com as melodias e vice versa. Ainda tece elogios aos estilos dos novos colegas. “A guitarra preenche todos os requisitos e a bateria punk rock é a melhor que existe”, diz.
Estaria então Joan Lang mudada? Afinal, na primeira fase do Wasted ela ganhou fama de supercontroladora e até certo ponto tirana. “Tenho que admitir alguns exageros do passado, mas eu faço o que eu quero e as pessoas trabalham a partir daquilo, acrescentando coisas. Adoro poder tocar com quem entende você e pensa do jeito que eu penso”. Sobre o medo que impõe a muita gente, ela relaxa e cai na risada. “Sinceramente eu não sei o que acontece. Eu não faço nada, é estranho... Se eu fizesse algo de mal às pessoas, talvez eu me sentisse mal. Então por que mudar se às vezes isso é até divertido?”, comenta a vocalista, sem perder a chance de continuar alimentando a sua fama de má.
As novas canções, segundo ela, não são tão tristes como as antigas, mas sim amargas e com raiva. “Mas não vou deixar de tocar acordes menores só porque a música está mais rápida”, avisa. Um dos chamarizes do novo repertório é “At Least Tonight”. “Essa letra é meio ‘Tomorrow Never Knows’. Fala sobre aproveitar as coisas enquanto dá”. Outra chama-se “All Wrong”, sobre todas as coisas erradas. “Quem ler vai pensar que é autobiográfica, mas saiu sem querer. É que eu não entendo o mundo nem as outras pessoas”, ironiza. Outas músicas que foram registradas em It’s All We’ve Got também aparecem toalmente modificadas, como “Watch You Fall”e “Fa Too High”, que ganharam berros e distorções mais explícitas.
Joan diz que ainda é muito cedo para pensar em novo disco. “Estamos fazendo tudo de novo desde o começo. Precisamos sair fazendo outros shows para criar mais em cima delas. Aliás estava sentindo falta de tocar ao vivo.Ou você acha que eu iria privar as pessoas de me ouvirem?”, dispara.
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