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Bruce Springsteen

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Atentados do dia 11 de setembro fazem renascer um dos maiores mitos da música dos EUA.

Morte e vida na América

O dia 11 de setembro de 2001 não ficará na memória dos americanos apenas por causa dos terríveis atentados. A data também entra para a história por justamente ter motivado o renascimento de um dos maiores mitos musicais do país nas últimas décadas. Depois de um silêncio de sete anos sem lançar um único álbum de esúdio, o chefão Bruce Springsteen renasce e lança The Rising, uma coleção de histórias inspiradas pelo terror que Nova York viveu há um ano. Por Alexandre Petillo (especial para o Bacana).

Bruce Springsteen sai de seu retiro voluntário para fazer um excelente disco de crônicas sobre o fatídico 11 de setembro.

Ele costumava cantar canções sobre eu e você. Numa dessas manhãs, pouco antes do almoço, ele ligou a TV e viu o noticiário. Aviões tinham se chocado com um dos maiores símbolos de seu país. Um atentado terrorista que matou milhares de pessoas. O mundo estava em choque, mas a dor maior apertava os corações daqueles que se criaram sob o vermelho, azul e branco da bandeira.

Ele já sabia que era hora de voltar. Já se passavam sete anos desde o seu último lançamento, o voz-e-violão The Ghost Of Tom Joad. Na verdade, ele não se sentia o mesmo. Uma de suas melhores composições, “Born In The USA”, acabou se tornando erroneamente um hino conservador americano, referência ao ufanismo exacerbado e arrogante dos Estados Unidos. Reagan tentou usar a música como tema de sua reeleição. Mas não era isso que ele queria dizer.

Por conta deste fato, sua carreira deu um salto significativo. Born In The USA, o disco, vendeu 15 milhões de cópias e ele, o representante da classe operária, o herói do trabalhador e do homem comum, o trovador que no começo de carreira se sustentava como jardineiro para poder manter seu sonho roqueiro, adentrou de vez no rol dos artistas megamilionários. Em seu último grande sucesso, “Better Days”, ele cantava: “É um final triste e engraçado/ Se encontrar fingindo/ Um rico vestindo uma camisa do pobre”. Sinceridade é uma de suas virtudes.

Várias músicas já tinham sido compostas, mas tudo mudou desde 11 de Setembro de 2001. Uma semana depois, lendo o jornal, ele acabou se deparando com algumas linhas que mudaram de vez os rumos de suas composições. Era o obituário do bombeiro Joe Farrelly, morto tentando resgatar as vítimas do World Trade Center. No obituário, além dos habituais “amado marido e excelente pai”, ressaltava também que dedicou sua vida ao amor que sentia pelo autor de “Born In The USA”, um exemplo de americano. Mais adiante, um obituário trazia a seguinte chamada: “Fã do Chefão”. Sim, ele precisava voltar, e voltar com o que dizer.

Já era o começo da noite de um dia qualquer na casa da viúva de Joe Farrelly quando o telefone toca. Um pouco sedada, graças aos calmantes diários que toma para sufocar a dor da perda do seu marido, Stacey demora a atender. Mas atende. Do outro lado, uma voz rouca: “Por favor, gostaria de falar com Stacey”. “Sim, é ela”, respondeu. “Oi, aqui é Bruce Springsteen”.

Foi o começo de The Rising, 12º segundo disco da carreira de Springsteen – descontados ao vivos e coletâneas. Springsteen fez questão de ligar para os familiares das vítimas que morreram no atentado e eram seus fãs. As ligações não duravam menos do que uma hora. O bairro em que foi criado em New Jersey, Monmouth, perdeu 158 pessoas nas torres, mais do que qualquer outro da cidade. Amigos, vizinhos, pessoas próximas. Quem ficou quis saber o que Springsteen tinha a dizer sobre isso.

Mas ele não podia voltar sozinho. O herói chamou de volta seus fiéis escudeiros, aqueles que comiam na mesma marmita de inox que ele. Sendo assim, a E Street Band, combo que o acompanhou durante boa parte de sua vida se reuniu mais uma vez. Desde 1985 que eles não gravavam um disco juntos. Desde Born In The USA.

Cinco estrelas
O disco causou abalos sísmicos na América. The Rising subiu como um furacão e lidera calmamente o ranking dos discos mais vendidos dos EUA. De cara, Bruce abocanhou a capa da Time, deixando a foto da visita do Papa ao país em um cantinho da página. Dentro, é chamado de “o maior cantor americano de todos os tempos”. Na Rolling Stone, Bruce, com a chamada: “Nosso primeiro cinco estrelas do ano”, fazendo alusão ao critério de avaliação da revista.

Há mais de redenção, otimismo, vontade, compaixão e amor nos 73 minutos de “The Rising” do que em um ano em qualquer igreja. Cada canção funciona como uma bomba injetora de ânimo em nossas almas, um catalisador, uma fonte de energia. Mesmo sendo permeado por um tema triste e melancólico, cada melodia traz consigo o combustível da mudança, o elemento invisível que te faz passar por cima dos obstáculos. Algo como o amor, a confiança em saber que tem alguém que te ama e se preocupa contigo pode trazer.

A faixa de abertura é “Lonesome Day”. Alguns acordes feitos pelo coro de cordas da Nashville String Machine dá o tom solene até que a bateria seca de Max Weinberg comece o rock. Potente, afinal, existe alguma forma de redenção melhor do que o bom e velho rock’n’roll? Não que eu saiba. O refrão martela: “It’s alright/it’s alright/it’s alright, yeah”. Dá até para acreditar.

O coração se aperta em “Into the Fire”, quando as cordas atacam de repente e dão aquele frio na barriga. O coral gospel liderado pela cantora Patti Scialfa, que nas horas vagas cumpre as honras de “Sra. Springsteen”, salva as almas dos bombeiros que deram suas vidas para salvar as vítimas. Almas heróicas que morreram no fogo.

Estamos passando por momentos difíceis, duros de superar, mas eu não sou dado a derrotas e não desisto tão facilmente. É o que o Bruce canta em “Waitin’ On a Sunny Day”. Uma canção tão pop, perfeitinha, daquelas que você ouve mentalmente quando percebe que a vida pode ser boa. Na beleza de um dia de sol ou a beleza de uma garota na fila do banheiro. Ou seja, nas pequenas coisas da vida, que fazem tudo valer a pena.

O bombeiro Joe aparece em “Nothing Man”. Nela, Bruce fala que diferente do que as pessoas dizem, ele não é um cantor que fala sobre o homem comum. Ele é o homem comum. Mais: ele é menos que o homem comum. Ele é menos importante do que os personagens que canta. “I am, the nothing man”, ele diz. Ele é o cara ao lado, a voz que aparece depois do drinque. Aquele que te aperta as mãos, que te dá coragem. Esse é o cara que Springsteen acha que é e não tem vergonha de cantar.

Bruce espera por um milagre em “Countin’ On A Miracle”, mas a música é tão boa que quase começo a achar que o milagre já aconteceu, quando a senhora sua mãe, Adele Springsteen, lhe deu sua primeira guitarra elétrica.

E não é só o protagonista que está inspirado. A E Street Band dá um show. Um instrumental invejoso, cheio de vigor, tesão, entrega. Tudo no devido lugar, sem excessos. Uma aula de como uma banda pode atravessar décadas sem perder sua potência.

Amor
Poderia ser vergonhoso se a inspiração não tivesse saído de um gênio. “Worlds Apart” conta a história de um casal de namorados. Ele, americano. Ela, muçulmana. Mas nada é mais importante do que o amor. “Let´s love gives/what it gives”, sentencia. Como uma ponte entre mundos separados, o instrumental é feito em conjunto com a mais americana das bandas (E Street) e um coral muçulmano, o Asif Ali Khan.

O amor também é o tema de “Let´s Be Friends (Skin to Skin)”. Mesmo que não sejamos mais um casal, não temos motivos para sermos inimigos. O rock come solto em “Further On (Up The Road)”, afinal, ele tem uma guitarra e sabe como faze-la falar. Párea para clássicos como “Thunder Road” ou “Born To Run”. Em “Empty Sky”, o protagonista olha para o espaço onde estavam as torres e chora: “I want a kiss from your lips/ I want an eye for an eye”.

“You’re Missing” é uma das canções mais tristes de todos os tempos. E a melhor do disco. Bruce penetra no horror que é o mundo de uma pessoa que viu a pessoa que ama virar cinzas. Mas não é só a morte, é a perda em si. Dona de um lirismo raro, a letra é um catálogo da ausência: o copo de café em cima da mesa, o jornal na porta de entrada. E tudo que eu faço, sinto sua falta. Fecho os olhos, sinto sua falta. Vejo o sol, sinto sua falta. Sinto sua falta, de qualquer maneira.

E a redenção vem em seguida, na faixa-título, “The Rising”. Também é a música de trabalho. Em um crescendo contagiante, Bruce conclama: “Come on up for the rising/ Come on up, lay your hands in mine”. O coral gospel liderado por Patti adere em seguida e tudo vira uma grande celebração da vida e de como passar por cima de tudo.

Tudo acaba em “My City of Ruins”. Quase uma prece. Pede perdão e pede ajuda. Pede forças para começar de novo. Pede fé, amor, força de vontade. Acompanhando com a letra, fica impossível evitar as lágrimas. Bruce Springsteen elevou a dor e a angústia ao estágio de arte.

Pode ser que esse papo todo de patriotismo e coisa e tal – e tudo isso que eu escrevi acima – não signifique nada para você. No Brasil, patriotismo não pega bem. Bandeira do Brasil fora de época de Copa do Mundo é brega, convencionou-se. A crítica brasileira, no geral, instituiu que todo manifesto (filmes, discos, livros) pós-atentado é “mera patriotada”. Pode ser que por esse ângulo, analisado por esse prisma, o disco não pegue no Brasil.

Sim, caro leitor, pode ser que esse disco não te conquiste pelo idealismo. E eu entendo. Mas ouça “The Rising” e note a beleza das canções. Você pode não ser patriota, mas deve ter um coração aí em algum lugar.


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Comentarios (1)Add Comment
0
o mlhor texto que ja vi em minha vida
escrito por melo, 11 de julho de 2009
Cara garanto que esse é o texto mais bem escrito que ja vi em minha vida...pra começar sou jornalista e fã do CHEFÃO parabens vc mandou muuuuiiiiito beeeeemmmm.

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