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Damon & Naomi trazem à capital paranaense suas obras de arte em forma de músicas emocionais.

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Damon & Naomi [with Michio Kurihara]
Era Só o Que Faltava – Curitiba (29 de agosto)

Damon & Naomi causaram arrepios com seu fade out natural.

Tem gente que faz do rock uma profusão de barulho. Tem gente que precisa berrar para expurgar seus males. Tem gente que não compreende o sentido da vida se não houver poses, caras, cabelos e interpretação de personagens. No fantástico mundo de Damon Krukowski e Naomi Yang, o rock – assim como a literatura – pode sim ser sinônimo de arte. Bonito, bem trabalhado, altamente emocional. Sentimentos à flor de pele e a enorme capacidade de lidar com as várias nuances da dinâmica – algo ao qual não estão muito acostumados ouvidos maltratados pela poluição sonora do dia a dia.

No palco do Era Só o Que Faltava, o ritmo da bateria é plenamente substituído pela levada harmônica do violão e a sutileza dos graves do harmônio (instrumento milenar – que tem parentesco distante com a nossa sanfona – que as famílias de origem chinesa utilizam para colocar suas crianças em contato com o universo musical). Vocais são baixos, tranqüilos, próximos do sussurrado, interrompidos apenas por um fade out natural. E o silêncio mostra-se extremamente necessário e recompensador para que o rock de Damon & Naomi revele que não precisa de altura ou intensidade para bater lá no fundo. E leva bastante emoção.

O casal, que angariou milhares de fãs em todo o mundo com o trabalho no trio shoegazer Galaxie 500 (entre 1987 e 1991), veio para o Brasil com um show baseado em seus dois álbuns mais recentes, ainda inéditos no país. Do disco gravado com o grupo japonês Ghost (Damon & Naomi With Ghost, de 2000) é extraída a base do repertório do CD/DVD/turnê Song To The Siren (lançado em abril). Nesta vinda ao país, há ainda a participação especialíssima do guitarrista Michio Kurihara em todas as músicas. Munido de um arsenal de efeitos em sua pedaleira, ele tem a responsabilidade de costurar com intervenções decisivas – flutuando entre a sutileza de um stacatto e a distorção excessiva – as obras de arte cantadas por Yang e Krukowski.

“Turn Of The Century”, pequena jóia do álbum Playback Singers (terceiro da carreira, de 1998) abre o show de forma cristalina. Ouvir o falsete de Damon, perguntando que caminho você segue nesta virada do século (“It’s the turn of the century/ Which way you going to”) pontuado pela linha de baixo, dá arrepio. Ao contrário do que afirma o músico ainda na primeira estrofe (“What I could ever offer you I don’t know”), esta noite ainda tem muito a oferecer para o público aquém do que seria merecido (fim de mês, falta de grana geral).

“New World” – escrita em parceria com Masaki Batoh, vocalista do Ghost – vem em seguida, com base tracejada por cânticos budistas. Naomi assume harmônio e Kurihara passa a fazer a linha de baixo nos bordões da guitarra. Logo depois, o japonês começa a justificar a fama de grande músico alardeada por Damon no Bacana, em entrevista concedida na semana passada. A música chama-se “Eye Of The Storm”, outra reciosidade de Playback Singers. Aqui, apenas com o e-bow, ele desenha uma nova parede sonora e faz com que ninguém sinta falta dos loops feitos em estúdio.

“Esta é uma canção de Tim Buckley”. Assim Damon anuncia “Song To Siren”, a primeira das covers da noite. Na guitarra, Michio desliza os dedos no vibrato. Um globo começa a girar, jogando efeitos no fundo drapeado em cinza, enquanto os belos versos compostos pelo trovador sixtie discorrem sobre a mitologia do canto da sereia, que pode tanto seduzir e encantar você como também levá-lo à destruição. Segundo Naomi, um bom paralelo à vida de turnês e viagens, que ao mesmo tempo diverte e chateia.

“New York City” vem recuperada do segundo álbum, The Wondrous World Of Damon & Naomi, de 1995. Só que a tormenta e a angústia da letra – que de certa forma previa os momentos de pânico e terror depois dos ataques terroristas daquele fatídico 11 de setembro – se multiplicam quando Kurihara passa a jorrar ruídos a la Sonic Youth na metade final do arranjo. Na seqüência, do mesmo disco, ressurge surpreendemente “How Long”, canção que ficou de fora de Song To The Siren e não é muito incluída nos shows.

“Greatwall”, “Judah And The Maccabees” (letra baseada na tradicional história) e “Tanka” formam o resto do set, que é encerrado com “Love”, versão de um psicodélico grupo japonês dos anos 60 chamado Jacks. Os músicos ainda voltam duas vezes para o bis – desta vez com covers de Bob Dylan (no momento mais folk do show) e de um artista japonês cujo nome é impossível ouvir da platéia (só dá para perceber que Damon falava que a letra era sobre um serial killer e eles cantariam a versão em inglês)

São apenas doze músicas, mas o exatamente necessário para Curitiba ter em sua história mais um belíssimo e tocante show assistido por muito menos gente do que a qualidade do artista merecia. Azar de quem deixou de ir.
Abonico R. Smith


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