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Ago 01
2011

Viver é etcétera

Postado por Abecedário | Tags: Sem Tags 

abecedario

 

 

“(…) O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.”  (Guimarães Rosa em  Grande Sertão: Veredas.)

Primeiramente desculpo-me pelo tempo que levei para escrever novamente, mas justifico com uma monografia que passa longe dos agradáveis ares da literatura e está em processo de finalização, além de um concurso que se aproxima. Afastei-me dos livros jurídicos e econômicos para escrever novamente sobre duas paixões: a linguagem e a literatura.  Espero que vocês, queridos leitores, gostem.

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” P. 284

Escolhi escrever sobre a obra prima de um autor que considero o maior de todos eles: João Guimarães Rosa. Antes de tudo, aviso: ler Guimarães Rosa não é tão fácil quanto parece e cada vez que releio o Grande Sertão: Veredas me convenço: o sertão realmente está em todos os lugares. Aquele Jagunço desajeitado, apaixonado e desconfiado poderia ter  mesmo qualquer endereço.

O personagem central, Riobaldo, nos conta a sua história como se estivéssemos sentados em uma cadeira ao lado. Suas lembranças trazem uma história de amor que ele tanto evitou por um outro Jagunço, o Ronaldo, que lhe confidenciou depois que se chamava Diadorim. Mas como ser homem e gostar de outro homem? “Viver é um descuido prosseguido.” P. 62 

“Meu corpo gostava de Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia, bobamente, ele me olhou – os olhos dele não me deixaram. Diadorim, sério, Testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam. Vi – ele mesmo não percebeu nada. Mas, nem eu; eu tinha percebido?” p. 165

“(...) Diadorim e eu, nós dois, como já disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos calhando lado a lado, par a par, a vai-a-a vida inteira. Que: coragem – é o que o coração bate; se não bate, bate falso. Travessia – do sertão – a toda travessia.”p. 458 

A história de amor, no entanto, é apenas um pano de fundo. Com um final de tirar o fôlego, que obviamente não vou contar, Guimarães Rosa teve em Grande Sertão: Veredas o reconhecimento de uma obra prima, mesmo que ele próprio prefira outros livros. O mais apaixonante da obra de Rosa, no entanto é melhor descrito por Antônio Cândido:

“No regionalismo brasileiro predominaram inicialmente o pitoresco e, não raro, o anedótico, numa espécie de exotismo interno. Bem mais tarde houve uma forte injeção de naturalismo radical. Em ambos os casos o mais importante eram os temas, e a linguagem parecia sobretudo veículo. A propósito da maneira personalíssima de Guimarães Rosa, falei há muito tempo em “super-realismo”, porque ele elabora o regional por meio de um experimentalismo que o aproxima do projeto das vanguardas. Nele não há pitoresco ornamental, nem realismo imitativo, nem consciência social e, sobretudo, a dimensão temática é menos importante do que a dimensão lingüística, que parece criar uma outra realidade, porque a palavra ganha uma espécie de transcendência, como se valesse por si mesma. Quer dizer que ele não apenas sugere o real de um modo nada realista, mas elabora estruturas verbais autônomas. Nele a palavra é criadora por si mesma e transcende a matéria narrada. Por isso Grande sertão: veredas transforma o particular da região num universo sem limites, que exprime não apenas o sertanejo, mas o “homem humano”, para falar como Riobaldo. Guimarães Rosa é um caso supremo de certas tendências da ficção latino-americana de vanguarda (…)”

 

Ludwig Wittgenstein tem uma famosa frase que afirma que "Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo”. Guimarães Rosa em sua obra ultrapassa todos esses limites e utiliza a sua língua como base para uma linguagem própria: a sua expressão vai além do que o idioma todo já conseguiu significar e as palavras simples se misturam com sentimentos humanos. O jeito jagunço de falar traz ainda mais humanidade para perto de quem lê, como se Riobaldo fosse um velho amigo

“Guimarães Rosa inventa uma língua e inventa quase que um país dentro de um país. Ele inventa um sertão. O modo como ele vai fundo no ambiente do sertão, que se transforma quase que num clássico arcaico, digno da visão de Homero, ninguém havia feito igual. A sequência em que ele descreve como os jagunços afiavam os dentes com a faca é notável! Há toda uma Odisséia de Homero que perpassa o Grande Sertão pelas veredas do Rosa.” Décio Pignatari.

E talvez seja essa a criação que pode ser chamada de regionalismo universal, que muito me agrada. O mundo inteiro, a humanidade, os sentimentos, os medos, a saudade, a esperança, a morte e as limitações na conversa com um ex-jagunço que, ao que parece, está sentado logo ali, na cadeira ao lado. E é por isso que Guimarães Rosa, para mim, vai além de todos os outros escritores. Rosa não importa estilos, não copia românticos, não força erudição quando as palavras mais simples, misturadas e sofridas, nos tem muito mais a dizer.

Foi médico, poliglota, escritor, marido, diplomata e principalmente brasileiro. Sobre sua arte, nada melhor do que ele mesmo para definir:

“A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanha de cinzas.”

 

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. 
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. 
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo 
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser 
um crocodilo porque amo os grandes rios, 
pois são profundos como a alma de um homem. 
Na superfície são muito vivazes e claros, 
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros 
como o sofrimento dos homens."

Espero que se interessem pela vida e pela obra de Rosa e se apaixonem como eu me apaixonei. Se existe uma inspiração literária para mim, eu não pensaria duas vezes antes de citar o nome do maior autor brasileiro.

“Viver... O senhor já sabe: viver é etcétera.” P. 76

Vanessa de Mello Brito

 

 

 


Comentarios (2)Add Comment
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escrito por caius marcellus, 01 de agosto de 2011
Não é necessário um sacrifício para ler Grande Sertão: Veredas. Diferente de tantas outras obras, movidas mais pela necessidade de demonstrar erudição do que simplesmente narrar de forma comprometida com uma linguagem que atinja desde o mais singelo leitor até o mais tarimbado dos críticos, Rosa é, antes de tudo, um tradutor comprometido em mostrar a voz que nunca teve espaço, e faz isso dentro do espaço no qual essas vozes não teriam vez. Jamais. Para nossa felicidade, é possível conhecer a vida e aprender absurdamente sobre ela por meio das linhas de Rosa. É isso, ou mais.
2724
viver é muito perigoso.
escrito por abecedario, 01 de agosto de 2011
é verdade, Caius. mas uma leitura menos atenta pode deixar de lado uma série de passagens que, de tão simples, tornam-se ainda mais bonitas e profundas. são poucos os escritores da língua portuguesa que souberam fazer isso. Obrigada pela leitura :)

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