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Mai 31
2012
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Uma Visão Antropicalista da Música Popular BrasileiraPostado por Xanda Lemos | Tags: Xanda Lemos, Musica, livros, literatura, Carlos Calado |
Tropicália: A História de Uma Revolução Musical Brasileira é narrada com maestria no livro de Carlos Calado. Costurando biografias, análises de obras de arte, depoimentos, e muita muita música, o livro é uma fonte inesgotável de informação histórica em torno de eventos que marcaram o crescimento das indústrias fonográfica e de entretenimento no Brasil ditatorial. Por tudo isso o livro de Carlos Calado é, antes de tudo, uma máquina do tempo capaz de nos transportar para o incrível anacronismo da nossa história político-musical. Uma descoberta incômoda para nós, consumidores mais críticos de qualquer arte, pré ou pós-tropicalista. Explico.
O livro narra como os jovens “tropicalientes” (não resisti, Calado nunca usou essa expressão, isso foi o meu lado latino aflorando na análise) eram ávidos por inovações ideológicas e estéticas que proporcionassem uma reflexão mais crítica a respeito da evolução da música brasileira. Conseguiram, mas não sem enfrentar a hostilidade tanto dos linha-dura da MPB, como dos truculentos militares. Ok, vocês dirão, mas todo mundo sabe disso. E esse é o problema! A gente tá careca de saber que a ditadura militar não entendia nada de música, e que a música popular brasileira não entendia nada de inovação estética radical. Mas de uma forma ou de outra, o livro mostra que aos poucos, a MPB relaxa, goza, e até evolui. Afinal, os revolucionários de ontem não são a nata da MPB de hoje? Será que a MPB que evoluiu, ou os revolucionários que caretanearam? Um pouco dos dois, eu diria.
Hoje vendo — ou melhor, lendo, via twitter — Renato Russo sendo homenageado por uma leva desafinada de artistas, e testemunhando o renascimento musical dos anos 80 (inclusive, minha pesquisa é fruto dessa renascença!), cheguei à conclusão de que a MPB é uma ameba — monocelular e sem forma definida. A MPB não é um gênero, é um conceito, ou melhor, é uma membrana formada por preconceitos. É um mito. É também um indicador de classe social. A MPB é exclusiva! Não só porque única, mas porque exclui tudo que não é digno de ser rotulado como MPB.
Mas enfim, a MPB, como uma ameba, sofre mutações, e abraça aos poucos, alguns corpos musicais estranhos, incorporando em sua monocelularidade primitiva novos gêneros, ritmos, sonoridades e instrumentos. A MPB é uma força repressora, que primeiro bate, resiste, depois se adapta e finalmente se transforma, mas sempre, sempre, se repete.
Eu que me proponho a olhar criticamente para as revoluções musicais brasileiras, noto que o grande erro da MPB sempre foi cativar seu ego autoritário e político. Mas isso é erro de todo brasileiro, goste você de MPB ou de rockinho inglês, eu, você, a gente é tudo frutinho madurinho do absolutismo monárquico do império. Ok, tô exagerando.
Agora, tudo bem que a partir dos 90 houve uma certa liberação tardia dessas amarras, aceitando-se certas inovações, mesmo que para favorecer tradições (ó, espírito autofágico tropicalista!). Nada de errado com isso. Nada de errado com as tradições. Mas o que me incomoda é a repetição dos mesmos discursos. A gente, parece, não aprende. Analisa a música somente em termos de modernidade e tradição. Eu não gostaria que minha tese se resumisse à isso. Mas ó. É difícil não sair da mesmice. Continuarei tentando.
No mais, desvirtuei. Não me levem a mal. O livro do Carlos Calado é leitura obrigatória. Músicos e artistas jovens, principalmente. Se querem fazer a diferença, façam com que sua arte seja uma reflexão crítica do seu tempo, e não menosprezem o novo, nem condenem o velho, porque a arte, para ser completa, precisa se livrar de preconceitos, briguinhas bobas, regionalismos bestas.
Isso não significa perder o senso estético e crítico da arte, não se trata de ser eclético a ponto de indefinir seu (bom o mau) gosto artístico musical. Significa, antes de mais nada, nutrir um respeito (nem que seja distante) com outras formas de arte. Interesse para conhecer e incorporar elementos tradicionais da sua história com os da sua contemporaneidade. Em suma, tropicalizar. Assumir conscientemente que somos sujeitos históricos, e como tal, temos o dever de interferir nessa linha do tempo de forma analítica e positiva e, quiçá, revolucionária e inovadora.












